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Califórnia, o equilíbrio do contrapoder

Estado americano se converteu em bastião de resistência à contrarrevolução de Donald Trump

A senadora democrata de Califórnia Kamala Harris, em um ato em defesa dos imigrantes nos EUA.
A senadora democrata de Califórnia Kamala Harris, em um ato em defesa dos imigrantes nos EUA. EFE

Quando a Declaração de Independência dos Estados Unidos foi assinada, a Califórnia era um território sob domínio espanhol. Quando os pais fundadores desenharam seu novo país, tudo dependia das 13 colônias e do império britânico. Mas agora, nesta época de desencontro e desconcerto, esse estado, que se fosse independente seria a sexta economia mundial, transformou-se no bastião da resistência frente à contrarrevolução de Donald Trump, graças aos seus deputados, senadores e ao seu governador, Jerry Brown. Após a vitória do magnata, suas autoridades afirmaram que, embora o território não tenha participado do nascimento dos EUA, estaria na redefinição e na refundação do país.

As instituições norte-americanas vão funcionando, para um lado ou para o outro, ou por equilíbrio de poder, enquanto Trump aos poucos descobre que ganhar uma eleição não é comprar um país. Os juízes frearam sua ordem executiva sobre migração, a Câmara e o Senado rejeitaram seus programas de saúde e alguns estados, os mais importantes, os mais modernos, de costa a costa, de Nova York a Los Angeles, levantaram um muro contra os excessos do 45o presidente.

O oceano do século XX foi o Atlântico, onde os dois Roosevelt, Theodore e Franklin Delano, governaram em seus melhores momentos. No entanto, as tragédias europeias chegaram através do Atlântico, e o Pacífico só despontou após uma guerra de desgaste contra o Japão e o ataque a Pearl Harbor. Hoje, o século XXI olha para o Pacífico e se constrói a partir deste oceano, no qual a China emerge como o rival mais importante no campo econômico. E o que antes esteve em Nova York, em Wall Street e no cinturão industrial dos EUA, ou seja, Detroit, Illinois e Pittsburgh, hoje surge no Vale do Silício, o novo centro do universo. Estamos diante de uma rebelião social promovida e formada pelas atitudes corajosas e brilhantes dos políticos californianos. Representam uma nova forma de compreender o mundo, cujo domínio não se baseia em polícias e armas nucleares, e sim na inteligência, na construção do século das comunicações e no império do conhecimento.

É importante recuperar esses gestos de valentia, essa coragem manifestada por alguns governantes que não apenas freiam a contrarrevolução 'trumpista', mas também devolvem a esperança, não só ao povo norte-americano, mas a todos nós, que, por um ou outro motivo, estamos dentro de sua robusta rede de interesses e conscientes dos rumos que tomará a sua política exterior. Honra a quem honra merece e, em meio a tanta infâmia, desconcerto, preocupação e terror frente ao que parece ser a perda dos principais valores deste mundo, é importante resgatar esses exemplos, essas figuras que representam o espírito cívico e a modernidade. Por essa razão, recordemos o gesto de Kevin de León, líder do Senado da Califórnia, que qualificou como “chantagem” a ameaça do procurador-geral, Jeff Sessions, de castigar as chamadas “cidades-santuário” para obrigá-las a cooperar com a deportação de imigrantes. Foi um gesto gratificante, que se vincula diretamente à melhor tradição norte-americana e ao legado que os pais fundadores deixaram não só aos seus conterrâneos, mas ao mundo inteiro.

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