Como o bonzinho Adrian Elms se tornou um terrorista

Mudanças de identidade, alienação e explosões de violência marcam a transformação de um jovem de Kent no sanguinário Khalid Massod

Khalid Masood (em vermelho) quando era Adrian Russel Ajao, na escola.
Khalid Masood (em vermelho) quando era Adrian Russel Ajao, na escola.COLEGIO HUNTLEYS

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Desde a última quarta-feira, a polícia vem tentando desvendar Khalid Masood. Decifrar a mente de um morto. Compreender como Adrian Elms, nascido em Kent há 52 anos, se tornou o terrorista Khalid Masood, que, supostamente inspirado pelo autodenominado Estado Islâmico (EI), matou quatro pessoas e feriu cerca de 50 no coração da democracia britânica.

A última foto de Masood com vida mostra um homem corpulento caído em uma maca, com uma camisa preta aberta, rodeado de policiais e profissionais de primeiros-socorros. Minutos antes, foi abatido a tiros por um guarda-costas nos jardins do Parlamento, após matar a facadas o agente de polícia Keith Palmer, de 48 anos. Foi correndo em direção ao policial ao sair do Hyundai Tucson cinza que arremessou nas grades do palácio de Westminster, com uma guinada à esquerda, depois de ter percorrido a toda velocidade a ponte de Westminster, atingindo no caminho pelo menos cinquenta pessoas.

Na noite anterior, ele dormira no hotel Preston Park de Brighton, onde uma diária custa 60 libras (cerca de 235 reais). Chegou no Hyundai alugado em uma filial da locadora Enterprise em Birmingham. Dormiu sozinho. Registrou-se com seu próprio nome, e segundo funcionários do hotel, “fez brincadeiras e deu risadas” com eles. Um empresário que cruzou com Masood no hotel, deu uma entrevista à TV descrevendo-o como “total e perfeitamente normal”. “Eloquente, educado, apresentável, do tipo que está prestes a cometer uma chacina”, disse. “Ou seja, poderia ser qualquer pessoa”.

Fotografia de Khalid Masood distribuída pela policial londrina
Fotografia de Khalid Masood distribuída pela policial londrina (EFE)

A viagem mortal de Masood começou em um modesto apartamento localizado acima de um pequeno restaurante persa chamado Shiraz, no número 167 da rua Hagley, uma artéria que percorre o oeste de Birmingham. O acesso ao apartamento é feito por uma humilde porta. Só tem uma campainha, e nenhum nome.

Kevin é o caixa de um modesto armazém iraniano duas portas adiante. Quinta-feira foi seu primeiro dia de trabalho. “Ao chegar, encontrei tudo isolado pela polícia”, relata. “Meu colega me contou que aquele homem era um cliente assíduo nosso. Vinha e comprava coisas a qualquer hora do dia. Era um homem muito forte, atlético. Não era de muita conversa”.

O bairro de Edgebaston, onde fica o apartamento, é um lugar de contrastes. Há uma universidade, um estádio de críquete e um campo de golfe. Áreas mais afluentes, zonas habitadas por estudantes e outras regiões mais abandonadas, como este trecho da rua Hagley, onde são muitos os estabelecimentos comerciais fechados, e onde um decadente pub inglês convive com armazéns árabes, restaurantes indianos e lanchonetes de kebab.

“Do ponto de vista étnico, Birmingham é a cidade mais vibrante do Reino Unido. Mais até do que Londres”, explica Mohammed Abbasi, da associação de muçulmanos britânicos Open Your Eyes. “Aqui há muitas comunidades diferentes, ainda mais nos últimos anos. A cidade mudou muito. Meus pais, que vieram nos anos sessenta do Paquistão, conheciam todo o mundo nas ruas pelo nome. Hoje há muito menos senso de comunidade”.

É o caso do conjunto de casas onde fica a casa geminada da rua Quayside, onde Masood morou até que, em dezembro do ano passado, se mudou para o apartamento da rua Hagley. “Ele morou aqui por cinco anos e eu nunca o tinha visto”, afirma o vizinho da casa em frente, que não quer se identificar. “Pensei que a casa estivesse vazia. Este é um lugar muito tranquilo e as pessoas são reservadas. Saímos para o trabalho e voltamos para casa, não há nada que lembre uma vida em comunidade”.

Masood se instalou na casa no ano passado, com sua terceira esposa e pelo menos uma menina pequena. Trata-se, no mínimo, da 14a residência ocupada por Masood em sua vida de nômade. Antes de Birmingham, ele morou em dois endereços no leste de Londres e, antes disso, em Luton, ao norte da capital, onde se instalou em 2009. Ali trabalhou como professor em uma escola de idiomas. Os conflitos raciais e religiosos estavam na ordem do dia em Luton no fim da década passada. Acredita-se que, nessa época, Masood já tinha se radicalizado e entrou no radar dos serviços secretos britânicos. Mas não era mais do que uma figura “periférica”, nas palavras da primeira-ministra Theresa May.

Chegava à Inglaterra após uma temporada na Arábia Saudita dando aulas de inglês. Esse tipo de viagem, segundo especialistas, é comum entre os muçulmanos convertidos britânicos. Mas não está claro em que momento começou sua radicalização.

Antes de sua estadia na Arábia Saudita, Masood se casou com Farzana Malik, uma mulher muçulmana. Nos registros do casamento ele ainda aparece com o nome de Adrian Russell Elms, apesar de na época usar o sobrenome de seu padrasto, Ajao. Depois de se casar, tornou-se Khalid Masood. Naquele mesmo ano, segundo um currículo que utilizou até pouco tempo atrás e que foi reproduzido pelo The Sun, obteve a certificação oficial para dar aulas de inglês, seu passaporte para a Arábia Saudita. Não está claro quanto tempo durou seu relacionamento com Farzana Malik, mas, desde o regresso de sua viagem, ele conviveu com outra mulher.

O casamento com Malik ocorreu poucos meses antes de sua segunda temporada na prisão. Cumpriu seis meses de pena por cortar o rosto de um homem em Eastbourne, no sudeste da Inglaterra. Não era a primeira vez que realizava esse tipo de agressão. Extremistas islâmicos foram encarcerados com o endurecimento das leis após o 11 de Setembro. A rotina penitenciária era um terreno de radicalização, e um indivíduo como Masood-Ajao-Elm, violento e em conflito com sua identidade, constituía um alvo ideal.

Sua primeira vez na prisão foi em 2000, após uma briga com um tom racista em um pub na pequena cidade de Northiam. Cortou a bochecha de um morador local com a faca que momentos antes utilizou para instalar papeis de parede no quarto de sua filha. Cumpriu dois anos de pena.

Assim acabava sua tentativa de dar uma virada após uma juventude problemática. Casou-se aos 28 anos com sua primeira mulher, Jane Harvey, e se instalou naquela cidade do sul do país com a filha do casal, nascida em 1992. Ali trabalhou em uma empresa que fornecia produtos de limpeza para hotelaria. Chegou até mesmo a se matricular em uma universidade.

Literalmente, fugia de um passado de tráfico de drogas e outros delitos. As dívidas acumuladas na delinquência juvenil o fizeram deixar Turnbridge Wells, a cidade de Kent onde cresceu.

Uma fotografia do início da década de oitenta, reproduzida pela imprensa britânica, mostra um Adrian sorridente, posando com seus companheiros do time de futebol da escola. É o único menino negro entre os 20 retratados. Seus colegas, em depoimentos recolhidos pelos jornais, lembram-se dele como um garoto “inteligente” e “encantador”. Chamavam-no de Black Ade.

Sua mãe, Janet Elms, branca, que frequentava a igreja local, o criou sozinha, até que dois anos depois de dar à luz se casou com Philip Ajao, com quem teria outros dois filhos. Janet tinha 17 anos e não tinha namorado quando Adrian nasceu, no Dia de Natal de 1964.

Entre aquele dia e a última quarta-feira, transcorreu uma vida salpicada por mudanças de endereço e de identidade, marcada por explosões violentas e dominada por um sentimento de alienação, que transformou Adrian Elms em Khalid Masood, o terrorista mais sanguinário que agiu no Reino Unido nos últimos 12 anos.

Um perfil insólito na nova jihad

ÓSCAR GUTIÉRREZ

Cometer um atentado os 50 anos é um fato insólito no palco terrorista atual. O britânico Khalid Masood, que contava 52 primaveras quando atacou na quarta-feira em Londres, não é no entanto o primeiro no fazer. Meio século de vida tinha em suas costas Man Haron Monis, o iraniano de nacionalidade australiana autor do sequestro de um café de Sidney (Austrália), em 15 de dezembro de 2014. Morreu junto a dois reféns. Haron Monis tinha às suas costas um histórico de violência, abusos sexuais e inclusive assassinato — foi ligado ao de sua ex-mulher. Masood também passou pela prisão. Mas são os jovens dentre 20 e 30 anos, a faixa de idade de um terço da atual geração de jihadistas, os que encaixam mais nessa rota para o terror: delinquência, marginalidade, prisão e radicalização.

Segundo o histórico publicado pela imprensa britânica, Masood esteve algum tempo na Arábia Saudita no final da década passada. É o que fizeram Rizwan Farook e Tashfeen Malik, os autores da matança de San Bernardino, em 2 de dezembro de 2015. Morreram matando a 14 pessoas. Farrok tinha 28 anos e Malik, 29.

A maior parte de indivíduos unidos à jihad em torno dos 50 respondem a um perfil muito religioso, ideologizado, com experiência na guerra.

O terrorista mais buscado, Abubaker al Bagdadi, líder do Estado Islâmico, tem 45 anos, os mesmos que tinha quando foi abatido um dos símbolos da jihad atual, Anuar al Aulaki. Cinquenta e nove anos tem o ideólogo sírio-espanhol hoje desaparecido Abu Musab al Suri; 50 cumpria antes de morrer o temível jordaniano Abu Musab al Zarqaui, e 56 um dos históricos da Al Qaeda, Said ao Adel, ainda em liberdade.

Masood, protagonista de um processo de radicalização a fogo lento, casa pouco com a nova geração de jihadistas, irmãos menores de outros atentados. Salvo em uma coisa, isso que o experiente francês Olivier Roy descreve como um processo de violência baseado na busca apocalíptica de uma coisa, um final: a morte.

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