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Tensão entre México e os EUA dispara em meio à polêmica sobre muro

Peña Nieto cancela reunião com Trump após presidente dos EUA insistir que o país pague pelo muro

Cerca na fronteira entre Estados Unidos e México vista a partir de Brownsville (Texas).
Cerca na fronteira entre Estados Unidos e México vista a partir de Brownsville (Texas). AP

Começaram as hostilidades. Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, insistir que seu homólogo mexicano, Enrique Peña Nieto, pague pelo polêmico muro proposto por ele para separar os dois países, o presidente do México anunciou a suspensão do encontro que teria com o mandatário norte-americano na próxima terça-feira, dia 31, em Washington, para discutir o Tratado de Livre Comércio. A decisão abre uma das piores crises diplomáticas entre as nações nas últimas décadas. Horas antes, Trump anunciou em um tuíte que se o México não estivesse disposto a pagar pelo muro, seria melhor cancelar o encontro. A medida, amplamente prometida durante a campanha do republicano para a Casa Branca, significa um retorno ao passado nas relações bilaterais, mas também uma humilhação pública para Peña Nieto e sua equipe.

Até a noite passada, Peña Nieto não ousava cancelar o encontro, apesar das pressões existentes nesse sentido em seu próprio país, e exigia, amargamente, “respeito” para com o México, país que Trump vem atacando desde o começo de sua corrida pela conquista da presidência dos EUA. “Quero deixar bem claro que por enquanto a reunião continua de pé”, disse. Mas, nesta quinta-feira, foi o empresário nova-iorquino quem subiu o tom e ameaçou não recebê-lo.

Nas mensagens que divulgou mais cedo, Trump também afirma que os EUA foram prejudicados durante anos em suas relações comerciais com o México. “Os EUA têm um déficit de 60 bilhões de dólares com o México, foi um acordo desigual desde o começo do Nafta, provocando a perda maciça de empresas e empregos”, afirma, na mesma linha de seus discursos na campanha eleitoral.

Na quarta-feira, Trump assinou o decreto que determina o início, “em alguns meses” da construção do famoso muro na fronteira entre os dois países com a finalidade, segundo afirma o presidente, de frear a imigração ilegal, que o novo Governo norte-americano associa à criminalidade e à crise vivida pela classe média nos EUA.

Já existe um muro físico separando EUA e México, para além daquele intangível que acaba de ser levantado na era Trump. Trata-se de uma cerca com 1.100 quilômetros de extensão que abrange aproximadamente um terço da fronteira, obra de presidentes anteriores, democratas e republicanos. A nova barreira física planejada por Trump, de grande peso político, embora de eficácia duvidosa, exige um investimento bilionário estimado entre 14 e 20 bilhões de dólares (entre 44 e 62 bilhões de reais) e que seria pago inicialmente pelos contribuintes norte-americanos. Depois, segundo a Casa Branca, os mexicanos assumiriam os custos.

Em sua primeira entrevista pela televisão como presidente, na quarta-feira à noite, na Casa Branca, Trump insistiu nessa direção: “Seremos reembolsados depois por meio de alguma transação que fizermos com o México”, disse, desdenhando, em seguida, a posição assumida por Peña Nieto: “Ele tem de dizer isso. Mas eu estou lhe dizendo que haverá um pagamento. Talvez seja de uma forma complicada (...) Acredito que será bom para os dois países e que nossa relação será melhor do que nunca”.

O Governo mexicano se viu encurralado. Embora não possa enterrar as relações com a maior potência mundial, que é também o seu principal parceiro econômico, Trump tem posto à prova continuamente a sua dignidade nacional. Em plena campanha, depois de chamar os imigrantes sem documentos daquele país de “estupradores”, Trump foi recebido no México por Peña Nieto, encontro que foi depois muito criticado pelos mexicanos e que não serviu para aparar nenhuma aresta. Assim que retornou aos EUA, o então candidato à Casa Branca insistiu em dizer que o muro seria construído e que os mexicanos o pagariam.

Mas a mensagem de Trump, divulgada no Twitter nesta quinta-feira, foi a gota d'água para o mandatário mexicano. Ao ameaçar não recebê-lo na Casa Branca, o presidente dos EUA abriu a porta para uma crise cujas consequências ainda são difíceis de medir.

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