Mauricio Macri demite ministro da Fazenda, Alfonso Prat-Gay

Decisão ocorre no encerramento de um ano econômico longe das expectativas criadas durante a campanha

Alfonso Prat Gay, em primeiro plano, junto ao presidente Mauricio Macri e o chefe de Ministros, Marcos Peña.
Alfonso Prat Gay, em primeiro plano, junto ao presidente Mauricio Macri e o chefe de Ministros, Marcos Peña.

Mauricio Macri despediu um de seus principais ministros. Alfonso Prat-Gay já não estará à frente do Ministério da Fazenda e Finanças, em meio às críticas pela demora na arrancada econômica prometida há um ano, com o início do Governo. Para resolver a saída de Prat-Gay o presidente dividiu o ministério em dois: Luis Caputo passará de secretário a ministro das Finanças e Nicolás Dujovne, um economista que integrou a equipe da campanha eleitoral de Macri, será o ministro da Fazenda.

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A história argentina diz que a saída de um ministro da Economia é a antecipação de más notícias. É por isso que o Governo quis deixar claro que a decisão de destituir Prat-Gay foi somente uma questão de organização, sem impacto na continuidade das políticas oficiais. “Em função dos desafios que temos para o próximo ano, haverá dois ministérios, o da Fazenda, a cargo de Dujovne, e o das Finanças, a cargo de Caputo. Por isso foi pedida a renúncia ao ministro da Fazenda e Finanças, que se concretizará nos próximos dias. Queremos agradecer a Prat-Gay por seu trabalho em um ano muito desafiador”, disse o chefe dos Ministros, Marcos Peña, ao confirmar as mudanças do gabinete em uma coletiva de imprensa na Casa Rosada.

A saída de Prat-Gay, de 51 anos, encontrou Macri de férias em Villa La Angostura, uma cidade refinada nas montanhas perto de Bariloche, na Patagônia. Prat-Gay viajou até lá para receber pessoalmente a notícia de seu afastamento. As substituições não demoraram. Caputo é um homem do núcleo duro do macrismo, sinal de que diante das más notícias o presidente preferiu fortalecer seus íntimos. Seu nome foi crucial também nas negociações com os chamados “fundos abutre”, aqueles credores que não aceitaram a renegociação de suas dívidas e levaram a Argentina a uma situação de default técnico. Dujovne, por sua vez, é um homem de consulta permanente do Governo.

Peña reconheceu que as diferenças com Prat-Gay foram decisivas para o afastamento. “Não foram diferenças sobre política econômica, mas sobre o processo de tomada de decisões. Não são discussões de fundo, mas de organização e de qual seria a melhor forma de garantir uma coerência à equipe. Nesse caso sempre prima a visão do presidente, que é quem tem de dirigir a equipe”, explicou o chefe dos Ministros.

A estrutura que Macri deu à gestão econômica foi a raiz dessas diferenças. Em um país acostumado a ter ministros da Economia todo-poderosos, o presidente dividiu a pasta em seis: Fazenda e Finanças, Energia, Trabalho, Agricultura, Produção e Transporte. Agora segmentou as duas primeiras, o que deixou a gestão nas mãos de sete ministérios. Prat-Gay foi sempre crítico dessas divisões porque, no seu entender, complicavam a tomada de decisões.

O agora ex-ministro deixou o cargo após vários momentos marcantes. Em dezembro de 2015 foi a face visível da liberação do mercado de câmbio, a política de controle de divisas adotada pelo kirchnerismo para evitar a fuga de dólares. A medida resultou em uma desvalorização de 40% no valor do peso. Em abril, o ministro anunciou o pagamento de 9,3 bilhões de dólares (30,5 bilhões de reais) aos credores que haviam entrado com ações contra a Argentina em um tribunal de Nova York. Mas também arcou com o peso da demora da arrancada da economia, prometida por Macri para um “segundo semestre” que nunca chegou, e o controle da inflação. O último dado do Indec, a agência pública de estatísticas, apontou uma queda do PIB de 3,8% no terceiro trimestre, no acumulado ano a ano. A inflação fechará o ano acima de 40%, longe da meta oficial de 25% estabelecida em janeiro.

Prat-Gay foi também a face amável de um Governo que redobrou os esforços para atrair investidores estrangeiros. Sua figura dentro do Governo, contudo, foi perdendo a força quando se tornaram evidentes as divergências com outros pesos pesados do macrismo, como o presidente do Banco Central, Federico Sturzenegger. Ambos se enfrentaram em uma batalha velada pelo controle da inflação. Prat-Gay nunca esteve de acordo com a política de altas taxas de juros adotada pelo Banco Central para esfriar a economia, uma estratégia que se chocava com sua intenção de ativar os investimentos para contra-atacar a queda do PIB.

Macri decidiu agora remover Prat-Gay e enfrentar o próximo ano com uma equipe renovada. O presidente prometeu que 2017 será de fato o ano da decolagem. As estimativas oficiais antecipam que o PIB crescerá 3,5% e reverterá a queda de 1,8% prevista pelo Fundo Monetário Internacional para 2016. Além disso, o orçamento aprovado este ano no Congresso prevê uma inflação de 17%, cifra que pode parecer exorbitante em qualquer país do mundo, mas não na Argentina, acostumada a índices que dão medo.