De policiais de elite a ‘esquadrões da morte’ na Venezuela

Várias ONGs acusam as forças especiais, que combatem a violência nos bairros pobres, de cometerem mais de 700 assassinatos

Jovem em Acevedo (Estado de Miranda), depois que uma suposta operação policial deteve seu irmão.
Jovem em Acevedo (Estado de Miranda), depois que uma suposta operação policial deteve seu irmão.CRISTIAN HERNÁNDEZ

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Em Barlovento, um povoado do Estado de Miranda (norte da Venezuela), ainda denunciam desaparecimentos forçados ocorridos durante operações militares. Na quarta-feira, Delsa Solórzano, deputada de oposição no Parlamento, confirmou que ainda não há pistas de outros nomes. “O Governo acredita que já fez e pronto. Mas não é assim. A violação é um crime, e não prescreve. Exigimos que continue a busca dos desaparecidos e se puna todos os responsáveis, sem exceção”, escreveu no Twitter.

A OLP é acusada de dizimar os bairros pobres da Venezuela. Por sua letalidade, são comparadas com esquadrões da morte. Os grupos de elite que atuam nessas operações de segurança assassinaram mais de 750 suspeitos, realizaram 15.000 prisões arbitrárias e 18.000 incursões em moradias de bairros pobres de diferentes cidades venezuelanas desde o início do programa, em meados de 2015. Essas incursões foram denunciadas por organizações como Human Rights Watch (HWR), o Programa Venezuelano de Educação-Ação em Direitos Humanos (Provea) e, recentemente, a Anistia Internacional.

Antes, essas incursões armadas contavam com o apoio da população. Há um ano, oito de cada 10 venezuelanos diziam ser a favor da operação, que achavam que os resgataria da insegurança esmagadora, de acordo com uma pesquisa da empresa Hinterlaces. Mas a OLP acabou por derramar mais sangue em um país já ferido pela violência. Com um número assustador de homicídios, a Venezuela é o país mais perigoso da América do Sul. Estimativas apontam que este ano acabará com 30.000 assassinatos. Para os especialistas em segurança pública, o Governo errou ao aplicar planos não efetivos: ataca as consequências, enquanto as causas continuam intactas.

Inti Rodríguez, pesquisador da Provea, segue os passos da Cota 905, o bairro de Caracas onde aconteceu a primeira OLP. “Os moradores se sentem mais desprotegidos do que nunca. A situação deles piorou”, afirma. A área foi sacudida pelos comandos policiais e militares, com patrulhas e helicópteros, em 13 de julho de 2015. Nesse dia morreram 14 suspeitos, 134 pessoas foram presas, houve várias invasões de domicílios e 15 carros roubados foram recuperados.

A inauguração estrondosa da OLP foi transmitida pela televisão. Para muitos, a medida foi considerada um ato de “justiça” e um golpe contra o crime organizado. Mas as quadrilhas não se desprenderam de seus feudos. Depois da operação, e outras incursões de segurança, houve uma escalada de violência na Cota 905, que segue tirando vidas.

Perfil dos procurados

Nenhum dos desaparecidos e assassinados em Barlovento tinha antecedentes criminais. Eram agricultores, operários, pais de família e até um aluno da Marinha. “Eram bons garotos! A maioria não se conhecia. Quem ia imaginar que os militares, os responsáveis por dar segurança ao povo, seriam os responsáveis por suas mortes?”, diz Petra Pérez, mãe de um jovem assassinado.

Foram detidos 18 militares, que aguardam por julgamento. Até agora se desconhece os motivos para terem matado uma dúzia de homens e torturado muitos outros. María Isabel Silva, mãe de um dos assassinados em Barlovento, acredita que seu filho morreu por ser pobre. “Os militares pensam que nos bairros pobres as pessoas não têm direitos por serem negras, camponesas ou mulheres sem estudos. Por isso matam sem remorso”, diz. O retrato padrão dos assassinados nesse tipo de operações é o homem de meia idade, pobre e com antecedentes criminais.

Provea afirmou que o Governo “criminalizou” os pobres, enquanto a Rede de Apoio para a Justiça e a Paz –que acompanha as vítimas de Barlovento – alerta para o aumento no número de mortes extrajudiciais. “Existem casos documentados, mas não são denunciados. Há muito temor. Temos no país uma lei que protege as testemunhas de crimes, mas em alguns casos se cumpre e em outros não”, afirma Laura Roldán, diretora da rede.

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