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Meu bicho manda mais que eu

A febre por animais de estimação se espalha pelo planeta. A indústria faturou no ano passado mais de 350 bilhões de reais

‘Tibet’ no spa
‘Tibet’ no spa

A febre por animais de estimação se espalha pelo planeta. Movimenta uma indústria que no ano passado faturou mais de 350 bilhões de reais só nos Estados Unidos, Europa e o Brasil. O setor é um termômetro da economia global. E um reflexo dos dilemas e excessos de sociedades cada vez mais urbanas e ensimesmadas. Um terço dos espanhóis acha seu cão ou gato mais importante que os seus amigos. A bichomania motiva um debate sobre as relações entre os humanos e outras espécies.

1. É um setor que não para de crescer

Da alimentação aos serviços de spa, barbearia, massagem e manicure… Os animais de estimação movimentam um grande negócio.

Por Sara Cuesta

Mar Ribé, desenhista gráfica espanhola de 35 anos, se dirige ao altar. Usa um vestido rosado e caminha de braço dado com seu pai, Joan. Na mão esquerda, ele segura pela correia uma pequena cocker com um vestido idêntico ao da noiva. A mesma cor, os mesmos tecidos, o mesmo desenho. Ribé sempre sonhou que, no dia do seu casamento, sua cadela Sheera levasse as alianças. Quem a conhece bem sabe disso. Mas a cena supera todas as expectativas. “O pessoal alucinou. Apontaram as câmeras e celulares para o chão para fotografar a Sheera em vez de mim!”, recorda Ribé enquanto mostra o álbum do casamento, que aconteceu em setembro.

“Já em tempos imemoriais, a aristocracia tratava com atenção os seus animais de estimação”, diz o psicólogo Stanley Coren, professor da Universidade da Colúmbia Britânica em Vancouver (Canadá) e especialista em comportamento animal. “Se levarmos em conta a tendência a tratar as mascotes como filhos, se entende por que nas atuais sociedades desenvolvidas se gasta cada vez mais dinheiro em produtos e serviços para mimá-las”.

Tiram-se as medidas de ‘Eddie’. Um cliente habitual para o qual se fará um agasalho
Tiram-se as medidas de ‘Eddie’. Um cliente habitual para o qual se fará um agasalho

Na verdade, a devoção pelas mascotes já não é mais só coisa de ricos. A explosão da indústria dos animais de estimação se tornou, de fato, um indicador do crescimento das classes médias no mundo, em particular no Brasil e Ásia. Só em ração, o setor movimenta mais de 185 bilhões de reais por ano.

O vestido de Sheera para acompanhar Mar Ribé ao altar custou 95 euros (346 reais) e foi desenhado sob medida na Caninetto, uma alfaiataria para bichos em Barcelona. Faz três anos que Edgard Gil e seu marido, Haritz Aramendi, montaram sua pequena loja-ateliê. Dezenas de diminutos casacos e camisetas coloridos pendem das suas araras. Mar Ribé e seu então noivo, Germán Tello, percorreram quatro vezes os 100 quilômetros que os separam do estabelecimento para fazer as provas do vestido de Sheera. “Minha mãe me dizia que estava mais preocupada com o traje dela que com o meu”, conta Ribé. “E, claro, sempre que íamos o Germán tinha que ficar fora da loja. Porque se visse o vestido da Sheera saberia como era o meu.”

Ribé viaja habitualmente a Nova York a trabalho e recorda que lá celebrações como a sua são comuns. Os Estados Unidos são o país pioneiro no desenvolvimento de novos serviços para animais de estimação, e também seu principal mercado. O setor faturou em 2015 o equivalente a 204 bilhões de reais, o dobro da cifra de 10 anos antes, segundo a Associação Americana de Produtos para Mascotes. A Europa vem bem atrás, com um faturamento de 109 bilhões e um crescimento anual de 1,8%, de acordo com dados da Federação Europeia da Indústria de Comida para Mascotes (ver gráfico).

A cocker Sheera com o vestido usado no casamento de sua dona, no qual portou as alianças. Ambas estavam com trajes combinando
A cocker Sheera com o vestido usado no casamento de sua dona, no qual portou as alianças. Ambas estavam com trajes combinando

A alfaiataria do Gil e Aramendi nasceu impulsionada por essa demanda. “Sabíamos que o setor não parava de crescer”, contam. Os dois primeiros anos foram duros, mas em 2015 embolsaram um lucro de 60.000 euros (218.000 reais). E crescendo. “Nossa capacidade de evoluir não depende de que o setor cresça na Espanha, e sim de que cresça internacionalmente”, diz o casal, que acaba de fechar um acordo para comercializar sua grife em Nova York. Em longo prazo, seus olhos estão voltados para a América Latina, onde no ano passado o setor faturou cerca de 30 bilhões de reais, mantendo um crescimento impressionante: entre 11% e 13% por ano, sobretudo no México, Brasil e Argentina, segundo dados do Euromonitor.

Tal crescimento exponencial também conquistou o setor de luxo, que se somou ao boom dos animais de estimação. Grandes firmas da moda, como Louis Vuitton e Gucci, têm seus próprios modelos de bolsas para transportar bichinhos. Adolfo Domínguez criou uma linha de roupa canina, e a Swarovski conta com uma gama de colares e joias. Em 2015, os acessórios específicos geraram mais de 1,6 bilhão de reais em países como o Japão e mais de 23,6 bilhões na Europa. “As pessoas decidiram que suas necessidades são as dos seus animais e, nesse sentido, talvez pudéssemos falar de um trato antropomórfico”, observa Miguel Ibáñez, professor de etologia e bem-estar animal na Universidade Complutense de Madri. Em grandes cidades como Los Angeles, Tóquio e Dubai, proliferam hotéis e resorts de luxo para uso e desfrute de animais. Muitos incluem tratamentos exclusivos como manicure e spa. Em 2015, esse mercado de alojamentos e serviços faturou mais de 18 bilhões de reais nos EUA.

'Tibet', um cão da raça shi tzu
'Tibet', um cão da raça shi tzu

Nicolás Herrero tem um salão de tosa com spa no bairro madrilenho de Malasaña. Numa terça-feira pela manhã, atende um de seus clientes habituais. Chama-se Tíbet e é um pequeno shih tzu com dermatite alérgica, que é levado lá semanalmente para receber um banho com ozônio que hidrata sua pele. “Atendemos entre 80 e 100 cães por mês”, diz Herrero. “A maioria vem ao salão de tosa, embora cada vez mais clientes solicitem o spa”. Tíbet levanta a cabeça em meio à espuma da banheira prateada e permanece imóvel durante os 25 minutos de tratamento. A seguir: secar, cortar e pentear. O serviço completo custa 45 euros (164 reais). Ou mais, segundo o tamanho do animal.

‘Tibet’ tem dermatite alérgica. As sessões de spa com ozônio hidratam sua pele
‘Tibet’ tem dermatite alérgica. As sessões de spa com ozônio hidratam sua pele

Perto deste spa há uma rotisseria para bichos, a Miguitas. Os brownies de fígado de frango e as tortas de salmão começam a sair do forno durante a manhã de uma quinta-feira. Enquanto sua proprietária, Charo Hernández, abre a loja, um labrador negro puxa ansioso pela correia e arrasta a sua proprietária até o interior. “Isso acontece constantemente”, ri Hernández. O segredo das suas iguarias? São elaboradas com produtos naturais. “O animal as saboreia e são um complemento nutricional para as rações processadas, que têm muitas carências.” A alimentação é o setor que mais dinheiro movimenta nesse setor. Só na Espanha, o equivalente a 3,22 bilhões de reais por ano, segundo a consultoria Nielsen. Sonia Serra, estilista de 27 anos, compra menus especiais para seu galgo Buppy, que sofre de alergias alimentares. “Custa quatro vezes mais que uma ração de marca branca, mas compensa pelo que economizo em veterinários.” Ela e seu cônjuge destinam o equivalente a 5.500 reais por ano para manter o seu cão. A cifra praticamente dobra os 2.976 reais calculados pelo Ministério de Agricultura, e se aproxima cada vez mais da média norte-americana (7.286 reais).

O valor inclui atividades de lazer que acabam virando tendência, como o doga: ioga com cães. Surgiu há cinco anos em Nova York, pelas mãos da professora Suzi Teitelman, que reinterpretou a prática para incluir sua mascote. Seus vídeos online difundiram a doga pelo mundo todo. Em janeiro, Hong Kong bateu o recorde do Guinness com a aula mais numerosa da história (270 duplas dono-bicho). A educadora canina Patricia Guerrero importou a modalidade para um centro de ioga de Barcelona. “O objetivo é encontrar esse momento de conexão entre a pessoa e seu cão”, diz ela. Ao final da sessão, dono e animal permanecem abraçados em um aparente estado de relaxamento.

A indústria em números

Biscoitos em uma confeitaria para pets em Madrí (Espanha)
Biscoitos em uma confeitaria para pets em Madrí (Espanha)

Os espanhóis gastaram cerca de 1 bilhão de euros (3,6 bilhões de reais) com seus animais domésticos em 2015.

O setor alimentício é o que movimenta a maior quantia. Na Europa, ele representa 50% do faturamento.

No ano passado, a indústria de pets gerou mais de 780.000 postos de trabalho na Europa

O Ministério da Agricultura da Espanha calcula que o custo anual do sustento de um cachorro grande é de 817 euros (2940 reais); um gato, 534 euros (1.922 reais); e animais pequenos, cerca de 376 euros (1.353 reais).

A Espanha ocupa o quinto lugar no mercado europeu, atrás do Reino Unido, França, Alemanha e Itália.

Em países como o Reino Unido existem 125 crematórios; na Holanda, 34; e na Alemanha, 23.

Cerca de 800 milhões de pets vivem com famílias nos EUA, Europa e América Latina.

Das crianças espanholas, 94% “se sentem melhor” com eles.

As espécies mais domesticadas são cães, gatos, peixes, pássaros, répteis e coelhos.

Na Espanha, existem 25 milhões de pets, dos quais 10,7 milhões são cães e gatos.

As sociedades protetoras espanholas acolheram 138.000 cães e gatos abandonados em 2015.

Dos proprietários de animais, na Espanha, 31,4% os compram em lojas. Apenas 13,6% os adotam. Um total de 10% os adquirem de algum criador.

Um terço dos espanhóis consideram seu animal doméstico como sendo mais importante do que os seus amigos.

Miguel Ibáñez, da Universidade Complutense, insiste que, apesar da boa intenção, essas novas atividades e serviços não deixam de ser “uma interpretação humana”. Algo que se evidencia também nos rituais pela morte do animal. Com mais de 284 milhões de mascotes na Europa, os crematórios abriram um nicho nesse mercado. “A Espanha começou um pouco mais tarde que seus vizinhos, mas agora abre um a cada semana”, diz Ruud van Beurden, gerente da Funeral Products Spain. A Cremascota surgiu em 2011 em Alcorcón (Madri). Numa tarde de sexta-feira, Raquel e Sergio Lázaro, irmãos e sócios do negócio, atendem os visitantes. Um de seus serviços-estrela são os velórios (40% dos clientes pedem). “Duram 30 minutos”, diz Sergio Lázaro, que trata os corpos. “Lavo, seco, penteio e o coloco no mostrador, como se estivesse dormindo.” Do outro lado do vidro, a família se despede. Pelo crematório passam entre 100 e 150 animais por mês. O preço oscila entre os 856 e 1.239 reais. Com um extra, é possível incluir lembrancinhas.

Outros preferem o enterro. A criação de cemitérios para mascotes remonta ao século XIX em cidades como Nova York (1896) e Paris (1899). Na Espanha, o primeiro só foi fundado em 1983. Num enorme pinheiral de Arganda del Rey (Madri), um letreiro anuncia: O Último Parque. Nos fins de semana, abre para as visitas. Entre os 33.000 metros quadrados de tumbas, um casal de aposentados, Isabel e Nicolás, retira as folhas secas que cobrem o jazigo de seu Tekkel. “Morreu há cinco anos. Ficou 16 conosco.” Sobre a lápide há um poema plastificado escrito por sua filha. A alguns metros dali, María José cola com celofane duas rosas frescas sobre a lápide da sua cachorrinha, como faz todos os sábados desde que ela morreu, há 21 meses. Os jazigos custam de 730 a 21.860 reais, em função do tamanho, localização e materiais usados. A taxa anual de manutenção é de 218 reais. Quando este recinto foi inaugurado, várias Prefeituras acharam que seus fundadores eram loucos. Hoje, são os Governos locais e regionais que propõem a criação destes cemitérios. Nos Estados Unidos, vão além. Em outubro, o Estado de Nova York aprovou uma norma que permite que animais sejam enterrados junto com seus donos. Outro sonho de Mar Ribé. “Guardo em casa as urnas com as cinzas de todos os meus animais. Espero que enterrem minhas cinzas com as deles.”

2. O debate. Sentimentos animais

Eles já são membros da família. Nas áreas urbanas, compartilhamos cada vez mais espaços com eles. Até onde podem chegar os seus direitos?

"Em um mundo comandado pelo sentimentalismo, acabamos transformando as mascotes em uma espécie de deuses bondosos"

O filósofo Fernando Savater afirma que o pet acaba sendo um “reflexo do narcisismo do seu dono”. Sua humanização também não é um fenômeno recente, pois vem acontecendo ao longo de séculos. A novidade é que um terço dos espanhóis já considera seu cachorro ou seu gato como sendo mais importante do que seus amigos, segundo a Fundação Affinity, que defende o lugar dos animais na sociedade.

De onde vem essa febre pelas mascotes? O psicólogo norte-americano Harold Herzog, prestigiado pesquisador sobre o tema, a explica da seguinte forma: “Estamos cada vez mais sozinhos. As pessoas se casam tarde ou não o fazem, têm poucos filhos ou vivem por mais tempo. Essa solidão é maior nas cidades, distantes das comunidades rurais, onde as pessoas conhecem os seus vizinhos e vivem cercadas pela família”. Essa perda de contato com o campo e o surgimento de uma fauna urbana, composta principalmente por mamíferos domesticados, criaram um imaginário segundo o qual “a natureza é boa e pacífica”, segundo o filósofo Francis Wolff.

Os desenhos animados, o cinema e a publicidade potencializaram essa imagem. “Em um mundo comandado pelo sentimentalismo, acabamos transformando as mascotes em uma espécie de deuses bondosos”, acrescenta Savater. “Não esqueçamos que um animal nunca trai você, enquanto um amigo pode fazê-lo. Tampouco o julga. Para ele tanto faz que você seja uma faxineira ou o presidente da República”, afirma a professora Blanca Lozano em sua sala na Faculdade de Sociologia da Universidade Complutense de Madri, decorada com pôsteres de cachorros. Mas o akmor pelos animais, levado a situações extremas, pode comprometer o seu próprio bem-estar como espécie.

Fundadores da alfaiataria Caninetto com suas cadelas
Fundadores da alfaiataria Caninetto com suas cadelas

“Temos de estar conscientes de que podemos lhe causar prejuízos físicos e psicológicos. Pouco tempo atrás, uma senhora me disse que o seu cachorro não gostava de cheiro de comida cozida”, comenta Carmen Castro, psicóloga especialista em comportamento canino. “Quando uma pessoa começa a dizer coisas desse tipo, é preciso acender o sinal amarelo”. Ela não faz os seus pacientes se sentarem em uma poltrona de couro novinha em folha. Suas consultas são dadas em um terreno baldio no subúrbio de Getafe, onde cerca de vinte cachorros se divertem. Uma das principais doenças de seus pacientes é a ansiedade decorrente da separação. “Estamos tão dependentes deles que quando os deixamos sozinhos eles passam mal”. Na entrada do local, um cartaz branco com letras azuis traz escrito o nome Hydra, associação de apoio e terapia com animais, na qual Castro trabalha ao lado de uma etóloga e de uma socióloga.

Em uma manhã de outono, Isabel María Pérez, estudante de contabilidade e finanças, comparece à Hydra para pegar seu cachorro. Estão separados há 15 dias, por determinação médica. A jovem, de 21 anos, não aguentava mais o comportamento agressivo de Darko. “Como todo mundo, eu humanizei o cão. Nós o tratávamos como se ele fosse um rei: comia na mesa a com a gente, dormia debaixo da nossa cama. Quando não conseguia ter o que queria, começava a latir. E assustava as pessoas”. Segundo a Fundação Affinity, os problemas de comportamento se tornaram um dos motivos mais recorrentes para o abandono de animais na Espanha. Somente no ano passado, as sociedades protetoras recolheram quase 138.000 cães e gatos. “É elementar entender as necessidades de cada espécie”, lembra Alex Kacelnik, professor de ecologia do comportamento animal da Universidade de Oxford. Ainda mais quando se trata de um exemplar exótico. “As pessoas já estão vivendo até com aranhas. É curioso, porque quanto mais distante o animal for da nossa escala biológica, maior será a dificuldade para se relacionar com ele”, argumenta Miguel Delibes de Castro, ex-diretor da Estação Biológica de Doñana. A moda de passear com um porco vietnamita como o de George Clooney pode simbolizar um status social. “O animal é visto como uma coisa sua, uma propriedade. E, como qualquer outro bem, pode se tornar um sinal de riqueza”, afirma a antropóloga mexicana Ana Cristina Ramírez.

"A febre pelas mascotes? Estamos cada vez mais sozinhos. As pessoas se casam tarde ou não o fazem, têm poucos filhos ou vivem por mais tempo"

Em países como os Estados Unidos, há um número de mascotes (305 milhões) próximo do número de habitantes (324 milhões). Cerca de 75 milhões de lares europeus possuem animais de estimação. Na América Latina, o boom apenas começou: somente Brasil, México, Argentina e Chile contabilizam, juntos, 200 milhões, segundo a consultoria Euromonitor (ver gráfico). “Na maioria das sociedades ocidentais, nossas necessidades básicas estão garantidas. As pessoas começam a lutar por outras causas, como pode ser a defesa dos animais”, observa Jesús Zamora Bonilla, professor de filosofia do direito da UNED.

Os especialistas em direito animal defendem, no entanto, que a própria ciência é que constatou que os animais são seres sensíveis, razão pela qual é necessário, sim, estabelecer normas mais adequadas às suas necessidades. Acordos como o de Lisboa ou o próprio Código Cicil da França já os reconhecem como “seres vivos sensíveis à dor”. A Espanha ainda não deu esse passo, mas endureceu as penas por maus tratos na última reforma de seu Código Penal. O vertiginoso desenvolvimento dessa área judicial fez surgirem tribunais que já deram habeas corpus (instrumento jurídico que reconhece o direito de não ser privado de liberdade sem que haja uma acusação formal) e vários macacos. A última que obteve esse direito humano foi Cecilia, um chimpanzé de um zoológico da Argentina. “ O conhecimento científico a respeito da proximidade genética dos animais diminuiu a distância existente entre eles e nós”, afirma Pablo de Lora, professor de filosofia do direito da Universidade Autônoma de Madri. Essa aproximação faz com que seja crescente o número de pessoas que defendem que não é ético comer produtos derivados dos animais, como mostra o grande aumento da opção vegana.

Fundadores da alfaiataria Caninetto com suas cadelas. Elas experimentam as suas criações, para ver se são confortáveis
Fundadores da alfaiataria Caninetto com suas cadelas. Elas experimentam as suas criações, para ver se são confortáveis

Laia Bollo, secretária do Partido Animalista contra os Maus Tratos a Animais (PACMA), responde à mensagem de uma senhora que lhe pergunta como fazer uma denúncia anônima de exploração animal. “É impossível. Você precisa se identificar”, diz ela, com Gertrudis, sua cadelinha da raça shih tzu, apoiada nos seus pés. Sua mesa está localizada na recepção da sede do partido animalista, um apartamento de 65 metros quadrados no número 11 da rua de Preciados, no centro de Madri. Na entrada, um enorme cartaz exibe o logo do partido, ilustrado com a silhueta de um touro e um passarinho verde. “Você talvez não se recorde, mas anos atrás o distintivo trazia um touro ensanguentado. Decidimos alterá-lo, para transmitir uma imagem mais suave”, conta Laura Duarte, que cuida da comunicação desse partido fundado em 2003 e que foi ganhando espaço à medida que crescia o sentimento animalista. Se nas eleições gerais de 2008 eles obtiveram perto de 45.000 votos, em 2016 esse total ultrapassou 286.000. Seus pontos fortes são as grandes cidades, onde reina a mascotemania e sua presidente, Silvia Barquero observa que ainda há muito por fazer: habilitar mais zonas de estacionamento canino, conscientizar as pessoas quanto à adoção de animais e não limitar o horário de acesso ao metrô para os cachorros. Os Governos locais enfrentam o desafio de conciliar os anseios daqueles que querem compartilhar os espaços públicos com as mascotes e os que não querem nem sequer ouvir falar nessa possibilidade, cansados daquilo que consideram ser uma imposição cada vez mais invasiva.

Em capitais como Berlim, onde habitam raposas, guaxinins e um sem-número de espécies nos espaços verdes, a Prefeitura já conta com um “oficial da fauna selvagem”. Derk Ehlert exerce este cargo com diplomacia. Sua tarefa é fazer a mediação entre moradores humanos e... não humanos. “Recebemos muitas queixas por causa do barulho das raposas ou pelos danos causados nos jardins, mas, em geral, a cidade é muito tolerante”, explica Ehlert, de Berlim. Os ruídos dos cachorros nas residências e, sobretudo, a praga dos excrementos caninos estão entre as coisas que mais irritam os urbanistas espanhóis. Um problema que as autoridades parecem ter renunciado a enfrentar. A Polícia Municipal de Madri aplicou em 2015 apenas 23 multas, que oscilam entre 750 e 1.500 euros (2.700 e 5.400 reais). Em 2016 o total até agora é de 40. A justificativa para tão escasso número é a dificuldade de apanhar os infratores em flagrante. Estas cifras se incluem entre os milhares de denúncias que a polícia madrilena contabiliza por infrações cometidas com o animal doméstico. No ano passado foram 3.071. O delito mais frequente é o de maltrato.

Cemitério de animais, inaugurado em Madri em 1983
Cemitério de animais, inaugurado em Madri em 1983

A capital da Espanha se propôs seguir o exemplo de outras grandes cidades europeias e levar a natureza ao asfalto. Uma das medidas de seu ambicioso plano de biodiversidade será utilizar um terreno da Casa de Campo para a pastagem de ovelhas, assim não será mais necessário capinar a área e haverá uma aproximação dos animais com a cidade. Um fato absurdo para os críticos, e que Silvia Barquero, presidenta da PACMA, apoia com reservas. “Sobre acabar com a tauromaquia pouco falam”, observa. O último dos partidos a se unir ao filão animalista foi o Cidadãos, que pediu ao Governo central que modificasse o regime jurídico dos animais domésticos para que deixem de ser considerados “bens patrimoniais”. Uma medida que a PACMA reivindica há anos para pôr fim aos maus-tratos.

Por outro lado, o radicalismo de algumas campanhas em prol dos animais impede às vezes um debate tranquilo para abordar esta complexa relação entre humanos e outras espécies. Negar esta nova realidade tampouco ajuda. Modelar a mascote à nossa imagem e semelhança, menos ainda: “Se humanizar o animal quer dizer colocar lacinhos no pelo, pouco contribuímos para seu bem-estar”, diz Peter Singer, pai do ativismo em prol dos animais. Esta luta pode então ser relacionada com o progresso do humanismo? O filósofo francês Francis Wolff alerta: “Nunca fomos tão sensíveis ao sofrimento animal e tão indiferentes ao sofrimento humano”.

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