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A morte do narrador

Sem Fidel Castro, o tempo vai passar mais rápido: fevereiro de 2018 está agora “na semana que vem”

Fidel em uma imagem de 2001, em Havana.

Agora sim, depois de ter morrido tantas vezes, seu obituário sairá publicado. Como acontece com todos os personagens notáveis, os jornais já tinham pronta a nota funerária. Mas nenhuma como no caso de Fidel Castro. Um editor de jornal costumava tê-la em cima de sua mesa, para surpresa, tristeza ou alegria de seus visitantes.

Onde você estava quando Fidel Castro morreu? Quase simultaneamente, foi uma explosão igual de ataques e elogios. Meu primeiro pensamento foi me perguntar sobre as mortes de Stroessner, Trujillo, Ceausescu, Marcos ou qualquer outro sultão do século XX. Nenhum deles eram sultões do swing, com certeza.

É que Castro morreu de maneira muito simples. Não foi executado e nem estava no exercício do poder, apenas como herói, em sua casa em vez de um museu e usando conjuntos esportivos Adidas em vez de uniforme militar. Claro que chegou ao século XXI.

Morre quase como um velhinho frágil que instalou o regime do partido único, o revolucionário partidário da dinastia absolutista, que criou o sistema de inteligência interna mais eficiente conhecido, um competitivo produto de exportação.

Na narrativa latino-americana, morre Sherazade, a narradora das Mil e Uma Noites, uma vez escrevi. A origem de todos os mitos e lendas. Quem transformou a autocracia em novo homem, o embargo em bloqueio, a proteção de Moscou em suposto combate cotidiano, a delação miserável em solidariedade do povo, a falta de liberdade em nova trova, e uma nova trova que também foi reprimida quando decidiu exercer essas liberdades.

É a lenda da sempre iminente invasão, dos direitos dos povos latino-americanos, com um povo quase sem direitos. É o mito da luta contra o imperialismo yankee e suas ditaduras fascistas cúmplices – a de Pinochet – enquanto fazia negócios com outras ditaduras fascistas – a de Videla – obedecendo ordens de outro imperialismo, o soviético.

Morre quem, em seu stalinismo hipócrita contaminou a esquerda latino-americana, que esvaziou de conteúdo o progressismo, que foi até capaz de inspirar a romântica canção revolucionária latino-americana, despertando idealismo onde só havia poder despótico de um Estado controlado segundo sua vontade.

Não vai mudar muito sem ele, na periferia do poder há uma década, exceto os tempos e o conteúdo da pretendida transição controlada de cima. Sem Fidel Castro, o tempo vai passar mais rápido: fevereiro de 2018 está agora “na semana que vem”.

Sem ele, a incerteza característica de toda transição poderia crescer exponencialmente. E sem ele, a teleologia castrista poderia ficar paralisada. Há muito trabalho para os democratas cubanos.

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