Imigração

As vidas partidas pela fronteira com os Estados Unidos

Centenas de famílias vivem divididas nos limites de México e EUA

Famílias separadas pela fronteira se encontram nos limites de Ciudad Juárez.EFE / EL PAÍS VÍDEO

Os 3.000 quilômetros de fronteira entre México e Estados Unidos são uma rede que une as histórias de milhares de mexicanos e norte-americanos que deixaram parte de suas vidas em algum dos lados. Um muro, como o que propõe o candidato republicano à presidência, Donald Trump, é impensável para qualquer um que tenha passado por uma guarita para o norte. O verdadeiro temor, dizem, está nas leis migratórias, que poderiam restringir a travessia de um milhão de pessoas por dia na fronteira. “Muita gente pensa como Donald Trump nos Estados Unidos”, reconhece Morales, que imediatamente se consola:“mas em El Paso (Texas) não, porque a maioria das pessoas é latina e não são como ele”.

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A configuração das famílias na fronteira pode ser tão diversa que um casal pode estar separado; um filho pode passar 15 anos sem ver seus pais; um sobrinho pode não conhecer a tia; um norte-americano pode viver no México e trabalhar nos Estados Unidos todos os dias. A fila para atravessar de Ciudad Juárez a El Paso está cheia dessas histórias. “Não somos uma minoria, há centenas de pessoas na mesma situação. Está é nossa vida”, conta Emily Bonderer, uma norte-americana que se mudou para Ciudad Juárez e todos os dias cruza o rio Bravo para trabalhar em El Paso.

Bonderer está há mais de seis anos em Juárez. Seu marido é mexicano e por seus antecedentes como imigrante não pode solicitar um visto até 2020. O casal escolheu uma vida transfronteiriça na qual a família mora no México, mas o trabalho está nos Estados Unidos. Todos os dias, Emily demora cerca de uma hora para cruzar a fronteira para trabalhar. “Era vivermos escondidos nos Estados Unidos, sabendo que a qualquer momento iam deportar meu marido, ou viver no México”. A equação era simples: ela trabalharia por um bom salário nos Estados Unidos, enquanto ele ficaria em casa cuidando do filho de ambos em Ciudad Juárez. “No México não pagam o suficiente, meu marido trabalhou em uma indústria e recebia 60 dólares por semana, quando qualquer um pode ganhar isso em um dia em El Paso”, explica.

As propostas políticas da campanha nos Estados Unidos não conseguem esclarecer todas as dúvidas que as famílias que vivem nos dois lados da fronteira têm. Um slogan não contém o tão ansiado "sim" para um visto, nem fecha totalmente a porta. Bonderer e seu marido estão preocupados e sequer conseguem imaginar o que fariam se um dia ambos pudessem cruzar a fronteira juntos. “Para mim, tudo é um pouco incerto, estivemos muito tempo esperando por um green card. Com a lei como está agora, meu marido pode ter acesso a um visto em 2020, mas não sei o que vai acontecer com essas eleições e não há certeza sobre o que qualquer um dos dois candidatos vai fazer em relação à imigração”, comenta.

Uma cena inédita acontece na tarde de 29 de outubro na divisa entre Juárez e El Paso: a grade que divide os dois países está aberta do lado norte-americano. Por alguns minutos algumas famílias podem dar alguns passos sobre o rio Bravo e abraçar os seus. Não se trata de filme ou anúncio publicitário. A Rede Fronteiriça dos Direitos Humanos, uma organização norte-americana formada por migrantes, conseguiu autorização do Governo dos Estados Unidos para reunir 200 famílias divididas pela fronteira para que se abracem durante três minutos. A iniciativa Hugs not Walls Abraços, não muros— enfrenta diretamente o discurso separatista do republicano Trump.

Nem a organização, nem a guarda de fronteira perguntam o status migratório dos mexicanos que correram para abraçar seus familiares. Durante três minutos, nada disso importa. A primeira família a se abraçar são duas irmãs da Cidade do México que não se viam há 19 anos. As pessoas nos dois lados do rio aplaudem. As duas choram incontrolavelmente e dizem coisas uma no ouvido da outra palavras que mal se entendem, porque o choro se apoderou da cena. “Te amo e não quero me separar de você de novo”, diz uma à outra, não há tempo para rodeios. Ao fundo soa uma gravação de Los Tigres del Norte em que cantam sobre o sonho americano. “Nossas comunidades estão pedindo este rio, esta fronteira, por um momento. Uma fronteira que representa tanta morte, tanto sacrifício, mas também representa esperança”, diz Fernando García, presidente da Rede Fronteiriça dos Direitos Humanos. A patrulha fronteiriça então fecha a grade. Ninguém sabe quando voltará a ser aberta.

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