Crise política na Venezuela

Igreja força o diálogo na Venezuela

Governo e a oposição estabeleceram quatro mesas para trabalhar uma saída para a crise política

Monsenhor Claudio María Celli com Nicolás Maduro.RONALDO SCHEMIDT (AFP) | VÍDEO: REUTERS-QUALITY

Em plena madrugada desta segunda-feira em Caracas terminou a primeira reunião entre o Governo e a oposição da Venezuela no Museu Alejandro Otero, no sudoeste da capital. Foi um encontro tenso, segundo disseram fontes consultadas, com duras trocas de palavras, nas quais cada grupo aproveitou para responsabilizar o outro pelo estado das coisas na Venezuela. Os mediadores, entre os quais se inclui uma representação do Vaticano e três ex-presidentes ibero-americanos, divulgaram um documento que resume o dia, assim como os dias pela frente. A próxima reunião foi fixada para 11 de novembro e a pressão decorrente da presença do enviado do papa Francisco em Caracas foi vital para que comecem as conversações formais.

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As partes alcançaram acordos para constituir quatro eixos temáticos, de acordo com uma metodologia e premissas propostas pelos acompanhantes. “Com o propósito de manter e preservar um ambiente de paz e de concórdia, o Governo e a oposição se comprometeram a diminuir o tom de agressividade da linguagem utilizada no debate político”, acrescentou monsenhor Claudio María Pecelli no encerramento do comunicado.

Estas mesas terão, por ora, os seguintes títulos: a) paz, respeito ao estado de direito e à soberania nacional, coordenada pelo ex-chefe do Governo da Espanha José Luis Rodríguez Zapatero; b) verdade, justiça, direitos humanos, compensação de vítimas e reconciliação, a cargo do Vaticano; c) econômico-social, com a condução do ex-mandatário da República Dominicana Leonel Fernández; e d) promoção da confiança e cronograma eleitoral, encabeçada pelo ex-presidente do Panamá Martín Torrijos.

O início do diálogo pareceu tirar vigor das iniciativas populares que a oposição adotaria no Parlamento, um julgamento político do presidente Nicolás Maduro e a declaração do eventual abandono do cargo, e o protesto marcado para 3 de novembro, que prevê uma caminhada até o palácio do Governo, no centro de Caracas. Mas o secretário-geral da Mesa da Unidade Democrática, Jesús Torrealba, de imediato descartou qualquer mudança na estratégia em declarações ao programa de rádio de César Miguel Rondón. “A marcha sairá como estava previsto”.

A suspensão da agenda de protestos dependerá dos gestos do governo. Dois dos pontos de honra para a oposição são a libertação dos presos políticos, que o governo chama de “políticos presos”, e a continuação do referendo revogatório, paralisado por ordens de cinco tribunais de província por supostas irregularidades na primeira fase de apresentação dos requisitos. Mas também nas últimas horas ganhou corpo a ideia de que se organizem eleições gerais como uma forma de desativar o conflito político. Em junho de 2017 serão realizadas as eleições para governador e em dezembro de 2018, as presidenciais. Uma antecipação de ambos os processos é também uma possibilidade.

Depois de muitas dúvidas a oposição decidiu apresentar-se na mesa de negociações com uma baixa expressiva: a ausência do representante da Vontade Popular, o partido do dirigente Leopoldo López. Em um comunicado enviado pouco antes do começo da reunião seus líderes afirmaram que não estavam dadas as condições para se apresentarem para conversar com o governo. A Vontade Popular é uma das quatro legendas que formam o chamado G4 da MUD, que controlam essa coalizão. Os outros partidos são a Ação Democrática, do presidente da Assembleia Nacional, Henry Ramos Allup, Um Novo Tempo, organização do ex-candidato presidencial Manuel Rosales, e Primeiro Justiça, do também ex-aspirante presidencial e principal incentivador do referendo revogatório Henrique Capriles. Com relação ao primeiro encontro, Capriles disse que confia no papa Francisco. “Não acredito nem nos bons dias de Maduro, são uns diabos capazes de tudo”, escreveu no Twitter.

À primeira hora do domingo não estava claro que a MUD se apresentaria à reunião convocada, por causa de suas divergências. Foi um debate muito tenso, somente Um Novo Tempo, o partido mais propenso ao diálogo, estava disposto a sentar-se sem condições. Um duro comunicado enviado pela Conferência Episcopal Venezuelana serviu como mediação, para que os mais hesitantes cedessem. “Fazemos um chamado urgente tanto aos representantes do governo como da MUD para serem coerentes com o pedido ao Santo Padre e entenderem que é somente o caminho do diálogo, com o respeito à Constituição e as leis, e não o da perene confrontação, que pode nos permitir encontrar alternativas de solução a tantos males que nos afetam”, afirmaram os bispos.

Contudo, não foi possível que o partido de López alterasse sua posição original. Mas deixou claro que, se o governo adotar um gesto como os que eles reivindicam, poderão incorporar-se ao diálogo. “Tínhamos a obrigação moral e política de ir à reunião porque nós solicitamos a incorporação do Vaticano”, explicou Torrealba em seu programa de rádio matutino. Parte desse horário ele teve de dedicar a responder aos que consideram que o diálogo é uma capitulação. A possibilidade de que o governo use as mesas de conversação para ganhar tempo e impedir que se concretize uma saída eleitoral preocupa muita gente.

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