Eleições municipais 2016

Crivella se vê ganhador no Rio e desaparece na reta final da campanha

Imune a acusações, senador preserva 26 pontos de vantagem frente a Marcelo Freixo

A jornalista Ana Luiza Guimarães, sozinha na bancada do RJTV após a ausência de Marcelo Crivella.
A jornalista Ana Luiza Guimarães, sozinha na bancada do RJTV após a ausência de Marcelo Crivella.Reprodução/TV Globo
Rio de Janeiro - 27 oct 2016 - 20:04 UTC

A apresentadora do RJTV Ana Luiza Guimarães, o principal da TV Globo no Rio, entrevistou na última terça-feira uma poltrona de couro bege vazia, que fazia as vezes de Marcelo Crivella (PRB), favorito nas pesquisas para conquistar a Prefeitura do Rio de Janeiro.

Estas perguntas e outras muitas que questionavam sobre um incidente policial do candidato ou sobre intolerância religiosa foram formuladas ao vivo, mas não respondidas. Crivella recusou o convite na última hora. Era sua forma de mostrar sua “indignação” pela “cobertura tendenciosa da emissora” contra ele, disse. O candidato, bispo licenciado e sobrinho do fundador da Igreja Universal Edir Macedo, controladores da TV Record, cancelou no mesmo dia mais dois encontros com jornalistas, na rádio CBN e no portal G1.

Mais informações

Confortável com sua vantagem frente a Marcelo Freixo (PSOL) -  lidera com 63% dos votos válidos, Crivella já se vê como futuro prefeito do Rio. Assim, resolveu se recolher, não informar da sua agenda, descumprir seus compromissos com a imprensa, insultá-la, e não se expor diante as acusações que, no final da campanha, questionam a versão moderada que se empenhou em transmitir durante toda a eleição.

Uma reportagem da revista Veja revelou que, 26 anos atrás, Crivella acabou sendo preso ao tentar retirar uma família de um terreno onde a Igreja Universal pretendia construir um templo. O boletim de ocorrência desapareceu dos arquivos policiais. Após a divulgação, Crivella negou ter sido preso e afirmou que apenas foi lá pra conferir um muro que tinha risco de queda. A revista, no entanto, revelou os áudios onde ele detalha a ação: “Cara, teve um dia que eu tava tão revoltado, eu acordei de manhã, levei os caminhões que a gente tinha, fui pra lá, arrebentei aquela cerca, entrei lá dentro, comecei a tirar as coisas do cara, botar em cima do caminhão, não toquei nas pessoas”.

– Por que o senhor não recorreu à Justiça ao invés de fazer justiça com as próprias mãos?, perguntou a repórter do RJTV.

– (silêncio).

Também saíram à luz trechos de um livro do senador, lançado no Brasil em 2002, no qual demoniza outras religiões e classifica a homossexualidade de “conduta maligna” e de “terrível mal”. Crivella desculpou-se e se defendeu dizendo que aprendeu dos erros do passado e que antes era intolerante, mas hoje prega pelos direitos para todos. Um vídeo mais recente, de 2012, registra Crivella associando a homossexualidade a tentativas frustradas de aborto e sofrimento do feto.

– Candidato, o seu pedido de desculpas se sustenta de pé se a intolerância se repetiu em 2012, quatro anos atrás?

– (silêncio).

Em um outro vídeo, datado em 2011, Crivella aparece dizendo que foi escolhido pela Igreja Universal a entrar em política e que algum dia “esta nação vai eleger um presidente evangélico”. “E aí, queridos irmãos”, diz ele, “nós poderemos ser a igreja evangelizadora dos últimos dias e levar o evangelho a todas as nações da terra”.

Para se defender das repetidas denúncias, Crivella tem xingado os jornalistas da Veja e do jornal O Globo com termos como "pateta", "patife" e "vagabundo". Além da animosidade comum da campanha, há um pano de fundo que complica ainda mais o relacionamento do senador com a imprensa em geral: o enfrentamento entre conglomerados de comunicação. Crivella é ligado à TV Record, a principal concorrente da TV Globo, a joia da coroa do grupo Globo.  

Campanha de ataques e sem propostas

As inserções publicitárias tem sido também alvo de polêmica e são um exemplo de como o segundo turno trocou o debate de propostas para a cidade por ataques. A troca de farpas entre Freixo e Crivella fez mais que triplicar o número de ações por direitos de resposta em tramitação na Justiça, segundo o portal UOL. Se no primeiro turno, quando 11 candidatos concorriam à Prefeitura, houve 32 processos, essa cifra chegou a 109 no segundo turno.

Freixo tem aproveitado seu tempo de televisão para associar Crivella ao fanatismo religioso e aos pensamentos do tio, Edir Macedo, recolhidos num livro, organizado pelo senador, no qual prega que a Igreja Católica é “a maior praga do Terceiro Mundo” e que a “mulher de Deus” deve cuidar do lar e da família. Crivella não ficou atrás e reforçou todos os preconceitos que os setores mais radicais, entre eles a família Bolsonaro, têm sobre Freixo, sobre tudo a afirmação falsa de que o deputado, com um amplo histórico de defesa dos direitos humanos, "defende bandidos".

O juiz responsável pela fiscalização eleitoral e o deferimento do direito de resposta, Marcello Rubioli, vêm criticando o tom de uma campanha que já qualificou “de barraco”, de “nível baixo” ou “briga de gangues”.

Debido a las excepcionales circunstancias, EL PAÍS está ofreciendo gratuitamente todos sus contenidos digitales. La información relativa al coronavirus seguirá en abierto mientras persista la gravedad de la crisis.

Decenas de periodistas trabajan sin descanso para llevarte la cobertura más rigurosa y cumplir con su misión de servicio público. Si quieres apoyar nuestro periodismo puedes hacerlo aquí por 1 euro el primer mes (a partir de junio 10 euros). Suscríbete a los hechos.

Suscríbete