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Crivella X Freixo: dois Brasis na disputa pela prefeitura do Rio

O bispo evangélico e o candidato do PSOL precisam convencer eleitores de que não são tão radicais quanto parecem

Marcelo Crivella e Marcelo Freixo (R) no debate da TV Bandeirantes
Marcelo Crivella e Marcelo Freixo (R) no debate da TV Bandeirantes AFP

Após a histórica vitória de João Dória no primeiro turno em São Paulo, a prefeitura mais importante para os anseios e manobras presidenciais com vistas a 2018, os olhos se voltam agora para o Rio de Janeiro. Aqui, Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) representam dois polos opostos da política brasileira e disputam o poder na segunda maior capital do país.

De um lado, um senador, ex-bispo e missionário da Igreja Universal do Reino de Deus. Conservador, partidário da participação de empresas privadas na gestão municipal, aparentemente tolerante com o próximo, mas totalmente contrário ao consumo de drogas e à liberação do aborto.

Do outro, um deputado estadual de esquerda que presidiu a CPI das milícias no Rio e inspirou o contestatário professor Fraga do filme Tropa de Elite, que foi professor em presídio. Defende a regulamentação das drogas e do aborto, os direitos dos homossexuais e dos negros, e a maior participação da sociedade no poder.

Crivella somou 4,6 milhões de reais para sua campanha proveniente principalmente do seu partido. Freixo bateu um recorde de financiamento coletivo e arrecadou mais de um milhão de reais de simpatizantes. Crivella tem o apoio dos mais pobres, segundo Datafolha. Freixo, dos mais ricos.

No primeiro debate entre os candidatos, nesta sexta-feira na TV Bandeirantes, reinou a paz e os elogios mútuos, clima que previsivelmente irá se endurecendo com o passar dos dias. Freixo não explorou as alianças de Crivella com a família Garotinho, um dos seus pontos francos, e Crivella descreveu suas propostas concordando antes com as análises feitas por Freixo, inclusive na área de saúde e educação. Ambos fizeram duras críticas à gestão do PMDB no Estado, mas se separam quando se referem às respectivas visões sobre o  papel do Estado. Crivella quer empresas privadas na administração, cortar à metade o número de secretarias e enxugar gastos. Freixo quer novos órgãos públicos para melhorar a gestão do transporte, por exemplo, e aposta por valorizar o público, sobretudo o servidor, para concorrer em qualidade com o privado.

“O Himalaia de divergências”, como Crivella descreveu a distância com o seu adversário, será fundamental para os candidatos marcarem posições. As campanhas de ambos precisam perseguir objetivos diferentes: Freixo, por exemplo, precisa conquistar os menos instruídos (52% deles apoiou Crivella no primeiro turno), enquanto Crivella precisa se aproximar dos jovens (39% apoiou Freixo), dos mais ricos (43%) e dos mais instruídos (36%). Freixo precisa chegar no eleitor dos bairros mais periféricos das zonas Norte e Oeste — esta última com forte presença das milícias — que escolheu em peso seu adversário evangélico no primeiro turno. Mas Crivella deve agradar os moradores, laicos e católicos, que votaram em outros candidatos na Zona Sul.

O decorrer do segundo turno, onde pela primeira vez no Rio os dois candidatos juntos não superaram os 50% dos votos, promete ampliar o abismo que os separa. O candidato derrotado de ultradireita, Flávio Bolsonaro (PSC), decidiu apoiar Crivella, enquanto os dois candidatos da esquerda, Jandira Feghali, que baseou boa parte da sua campanha em denunciar “o golpe” do Governo de Michel Temer, e Alessandro Molon (Rede), que apenas conquistou 1,4% dos votos, prometeram seu apoio a Freixo. Índio da Costa, do PSD, pretendia apoiar o candidato do PSOL, mas ordens superiores do partido, de Gilberto Kassab especificamente, formalizaram o apoio a Crivella.

Enquanto o resto dos partidos costura suas alianças ou libera seus militantes para apoiar quem quiserem — como no caso do PMDB, que diz não se identificar com nenhum dos dois candidatos, ou do PSDB que liberou o apoio, “desde que não seja a candidatura do PSOL” —, a campanha suja já começou nas redes e atingiu em cheio a candidatura de Freixo. Não se expõe o melhor projeto de cidade, mas sim a destruição do adversário. O pastor Silas Malafaia e a família Bolsonaro mobilizaram suas tropas contra o candidato esquerdista, lançando boatos de que, por ser defensor de direitos humanos, “defende bandido”, “quer acabar com a PM”, “legalizar a maconha”, e insinuações de que defende a pedofilia e e o incesto, ntre outros temas —assuntos que nem sequer dependem do poder municipal. “Não iremos nivelar por baixo. Não é isso o que os cariocas esperam da cidade. É lamentável que o outro lado esteja promovendo uma campanha repleta de calúnias e baixarias. Queremos debater a cidade, e queremos fazer isso em alto nível. Da nossa parte iremos fazer um segundo turno propositivo, com conteúdo programático sobre a cidade”, garantiu Freixo ao EL PAÍS. Seus aliados, no entanto, estudam como explorar, nas redes sociais e nos 10 minutos de propaganda na televisão, as alianças do rival e o binômio religião-política de Crivella, sem ofender e cair no preconceito contra os evangélicos.

Crivella, que também teve que explicar o contexto de uma edição tendenciosa de um vídeo onde parece dizer que "negros só gostam de cachaça, prostíbulo e macumba", se diz, pela sua parte, uma vítima da “discriminação e o preconceito”. “Os meus adversários insistem em me vincular à Igreja Universal. Faz dois anos que não encontro com o bispo Macedo [seu tio] e tenho uma vida política completamente independente”, disse Crivella por meio da sua assessoria. Ele diz que o segundo turno deve ser de “confronto de proposta e ideias”, mas pondera que “os valores de cada um também serão importantes para que o eleitor decida seu voto”.

Os primeiros efeitos dessa campanha de boatos, que na rua são ainda mais desvirtuados (dizem, por exemplo, que com Freixo as crianças de seis anos vão fazer sexo na escola), já tiveram seu reflexo na primeira pesquisa Datafolha. Crivella aparece com 62% dos votos válidos contra 38% de Freixo. Ao todo,18% dos entrevistados declararam que vão votar em branco ou nulo e outros 10% afirmaram não saber em quem votar.

Crivella aparece com uma clara vantagem depois de ter atraído boa parte dos votos dos candidatos Carlos Osório (35% x 26% de Freixo), de Índio da Costa (33% x 26%), de Pedro Paulo (33% x 21%) e, principalmente, de Bolsonaro (69% x 5%).

O principal desafio do candidato do PSOL, que este ano conseguiu menos respaldo que em sua primeira candidatura (914.000 votos em 2012, 553.000 em 2016), é desmentir os boatos que seus inimigos espalham e voltar a convencer os eleitores mais conservadores. Se no passado muitos deles se atraíram pela imagem de político pouco tradicional e honesto de Freixo, dessa vez a polarização que tomou conta do país fez com que optassem por seus adversários de centro-direita. Mas a abstenção ameaça voltar a ser recorde neste segundo turno, segundo o Datafolha.

Freixo terá que repetir a façanha eleitoral de César Maia nas campanhas de 1992 e 2000. Na primeira, Maia foi para o segundo turno com o respaldo de 21,79% dos votos válidos, enquanto que sua adversária Benedita da Silva (PT) conseguiu o apoio de 32,94% dos cariocas, segundo o TSE. São cifras parecidas às das eleições de 2016. Em uma votação apertada, Maia afinal conseguiu se eleger com 51,89% dos votos contra 48,11% da petista. Em 2000, também conseguiu inverter o resultado do primeiro turno contra Luiz Paulo Conde. Freixo, sem milagres na cartola, tem, pelo menos, a lição da história e destas eleições: a volatilidade do voto.

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