ELEIÇÕES EM CHILE

Governo chileno sofre pesada derrota nas eleições municipais

Com índice de abstenção superior a 60%, a coalizão direitista ‘Chile Vamos’ venceu a ‘Nova Maioria’, de centro-esquerda

A presidenta do Chile, Michelle Bachelet (c), ao final da eleição municipal.
A presidenta do Chile, Michelle Bachelet (c), ao final da eleição municipal. (EFE)

As eleições chilenas foram péssimas para a aliança centro-esquerda da presidente Michelle Bachelet, Nova Maioria. Com 92,28% das urnas apuradas, a coalizão do Governo obteve 37,09% dos votos nas eleições municipais realizadas no domingo, enquanto a coalizão Chile Vamos, de direita, obteve 38,59%. Com um índice de abstenção acima de 60%, o maior já registrado no Chile desde a implementação do voto voluntário e a inscrição automática há quatro anos, nenhum prognóstico eleitoral previu uma queda desse tamanho para a situação, que nas últimas eleições municipais em 2012 venceu a direita com folga e depois ganhou as eleições presidenciais de 2013.

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A Nova Maioria da presidenta Bachelet perdeu a mãe de todas as batalhas, o município de Santiago. Mesmo não sendo o maior em tamanho do Chile, mas o quinto, o mundo político chileno o considera o mais simbólico. A atual prefeita Carolina Tohá, ex-ministra e porta-voz de Bachelet em seu primeiro período (2006-2010) e sucessora política do ex-presidente Ricardo Lagos, perdeu a prefeitura para Felipe Alessandri. Não era um nome forte para derrotar a atual prefeita e, entretanto, o atual vereador de Santiago e militante do partido Renovação Nacional obteve 46,86% dos votos contra 35,90% de Tohá, com 90,21% da apuração concluída. Para a direita será uma excelente plataforma eleitoral visando as eleições parlamentares e presidenciais de 2017.

“A elevada abstenção é um desafio para todos nós que estamos no serviço público: de direita, centro e esquerda, o que for. Todos fomos castigados por essa abstenção (...) É hora de se fazer uma reflexão profunda: como introduzimos uma nova forma de conduzir a política com a população e para a população”, disse no comitê eleitoral de Tohá o ex-presidente Ricardo Lagos, que será candidato à presidência de sua coalizão. Apesar de dizer que o projeto mantido pela centro-esquerda ao longo desses anos se mantém inalterável, reconheceu o fracasso das eleições e se dirigiu aos seus eleitores: “Precisamos ser capazes de continuar avançando”.

Um segundo município tirado das mãos da direita em 2012 foi Providencia, na região leste de Santiago, que no domingo voltou ao poder da oposição. A ex-ministra e candidata presidencial da área, Evelyn Matthei, venceu a candidata Josefa Errázuriz, uma independente apoiada por todos os partidos da Nova Maioria e outros grupos progressistas. Com 94,52% dos votos apurados, a direita venceu com 53,10% contra 42,27% da candidata progressista. O ex-presidente Sebastián Piñera, que esquenta os motores para o lançamento de sua candidatura às eleições de 2017, acompanhou Matthei na cerimônia: “Ânimo porque chegam tempos melhores”, disse o empresário em meio à comemoração.

Dos 10 maiores municípios do país, pelo menos oito ficaram nas mãos da direita: Puente Alto, Maipú, La Florida, Santiago, Viña del Mar, San Bernardo, Temuco e Las Condes. Se nas eleições municipais de 2012 a centro-esquerda conquistou 167 prefeituras, as últimas contagens indicam que perdeu 24 municípios no país, ficando com 143. A coalizão oposicionista Chile Vamos, por outro lado, aumentou de 121 para 142 as prefeituras em seu poder, de acordo com os números oficiais com 79,52% das urnas apuradas no país, informados pelo Serviço Eleitoral (SERVEL).

Os resultados de domingo no Chile, pelos altos índices de abstenção, representam um chamado de atenção à toda classe política nacional, que em cinco anos não soube captar a mensagem enviada pela população descontente. Mas sobretudo representam um golpe na situação, que a partir dessa noite iniciará um período de movimentos cruciais visando não degringolar completamente nos últimos 17 meses de Governo e de olho nas eleições parlamentares e presidenciais. O Executivo, com 15% de aprovação de acordo com as pesquisas, até o momento não mudou suas resoluções, apesar das reformas que realiza contarem com baixa aprovação da população. A base parlamentar de centro-esquerda, distante de La Moneda, da mesma forma que os partidos, demonstrou que também não tem mais força do que La Moneda e não possui a energia necessária para efetuar a renovação do Congresso em 2017.

O cenário não poderia ser melhor para que a direita retome o poder em março de 2018 e definitivamente complexo para a Nova Maioria, que ainda não acertou os mecanismos com os quais escolherá seu candidato, se é que ao final chegará unida às eleições presidenciais na peculiar aliança que reúne da Democracia Cristã ao Partido Comunista.

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