Crise na Venezuela

Oposição venezuelana assume ofensiva nas ruas e na política até que “a democracia seja restaurada”

Maduro e seus aliados parecem dispostos a impedir qualquer consulta popular

Lilián Tintori na passeata deste sábado em Caracas. JUAN BARRETO (AFP) (reuters_live)

A oposição venezuelana, formada pela Mesa da Unidade Democrática (MUD), convocou seus seguidores a se manifestarem nas ruas da Venezuela até que “a democracia seja restaurada”. Esse ultimato ocorre depois que o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), como consequência das decisões de cinco tribunais regionais, decidiu suspender por enquanto a organização do referendo revogatório contra o presidente Nicolás Maduro promovido pela oposição como saída para a crise generalizada do país.

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O maior destaque durante a entrevista coletiva dada na noite de sexta-feira pela MUD é a articulação de várias ações que buscam uma alteração no poder chavista ou a sua saída do poder em breve. Maduro e os seus aliados parecem dispostos a impedir qualquer consulta popular enquanto as pesquisas continuarem a ser negativas para eles. A aposta do governante venezuelano na continuidade do caminho de seu antecessor Hugo Chávez — ou seja: impor um modelo centralizador, de clara vocação autoritária e inimigo da alternância que o exercício da democracia implica — levou o país à beira do abismo: criminalidade crescente, a inflação mais alta do mundo e a ausência de um pacto capaz de garantir a convivência entre os próprios venezuelanos.

Depois da denúncia feita pelo ex-candidato à presidência Henrique Capriles de que a suspensão do processo do referendo foi um golpe de Estado, toda a oposição parece estar unida em torno de um mesmo objetivo. Trata-se de uma ofensiva que inclui, em primeiro lugar, uma sessão extraordinária da Assembleia Nacional neste domingo para se discutir se Maduro, ao viajar sem autorização do Parlamento para o Oriente Médio — prática bastante comum na era chavista — abandonou ou não o cargo; em segundo lugar, o pedido formal à Organização dos Estados Americanos (OEA) para que aplique a Carta Democrática Interamericana ao caso da Venezuela; e, em terceiro, a convocação de manifestações em todo o país na próxima quarta-feira e que vem sendo chamadas de a ocupação da Venezuela. Uma frase pronunciada pela ex-deputada María Corina Machado na passeata de mulheres realizada neste sábado em Caracas resume o espírito que tem imperado nos últimos dias: “Abre-se uma etapa decisiva para a derrota da ditadura”.

Apoio internacional

Em sua contundente entrevista, na sexta-feira, Capriles admitiu que, enquanto os apoiadores da MUD aguardavam insistentemente a reação de seus dirigentes, ele conversava com diversos governos da região para denunciar o que está acontecendo na Venezuela. Depois, informou ao EL PAÍS que ao longo dos dias começariam a chegar os apoios de vários países. Em menos de 24 horas, dos 35 países membros da OEA, pelo menos 12 — Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Estados Unidos, Honduras, Guatemala, México, Peru e Uruguai — já haviam expressado, em nota conjunta, “sua profunda preocupação com a decisão tomada pelo CNE de adiar o processo de coleta dos 20% de assinaturas dos eleitores necessários para a realização do referendo revogatório”. O comunicado acrescenta: “A decisão do Poder Judiciário de proibir a saída do território venezuelano dos principais líderes da oposição desse país afeta a possibilidade de instauração de um processo de diálogo entre o Governo e a oposição que permita uma saída pacífica para a situação crítica atravessada por esta nação irmã”.

A decisão gerou um alerta generalizado na região. Neste fim de semana, a mediação internacional do conflito liderada pelo ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodríguez Zapatero deve se reunir separadamente com as partes para prosseguir nas tentativas de diálogo sobre a crise. Não está descartada a possibilidade de uma resolução acordada entre os dois lados, apesar do clima oposto que os ânimos, nas ruas, parecem sugerir. Um dos deputados que representam a oposição nessas reuniões com os mediadores disse ao EL PAÍS que o objetivo, com a ocupação das ruas, é “mostrar as garras ao Governo” para forçar a uma saída negociada da crise. A Venezuela entrou em um processo permanente de crise de duração incerta.

Para Almagro, mediação de Zapatero fracassou

Silvia Ayuso

O secretário-geral da OEA, Luís Almagro, considerou neste sábado que os esforços feitos por José Luis Rodríguez Zapatero, Martín Torrijos e Leonel Fernández para constituir um diálogo entre oposição e Governo na Venezuela fracassaram. Ele defendeu que se estabeleça uma “nova mediação”, a ser efetuada por atores que gozem da “confiança de todos”. Para Almagro, a missão encabeçada por Zapatero acabou contribuindo involuntariamente para as manobras de postergação realizadas por Nicolás Maduro a fim de impedir a realização do referendo revogatório ainda neste ano, como quer a oposição.

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