Eleições EUA

Com candidatura de Trump, jornalismo voltou a ser crucial nos Estados Unidos

Jornais tradicionais desestabilizam o magnata com editoriais duros e reportagens investigativas

Pessoas acompanham em um telão, em West Hollywood, a transmissão do debate entre os dois candidatos em 19 de outubro.
Pessoas acompanham em um telão, em West Hollywood, a transmissão do debate entre os dois candidatos em 19 de outubro.DAVID MCNEW (AFP)

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Poucas vezes na história recente das eleições norte-americanas a imprensa teve um papel tão determinante como neste ano. E aqui se fala de imprensa no sentido tradicional do termo. Pois esta não terá sido a campanha das televisões, tampouco dos blogs, das redes sociais ou dos meios de comunicação puramente online. Não. A campanha para as eleições presidenciais que opõe a democrata Hillary Clinton ao republicano Trump é a campanha dos velhos jornais. Seja na internet, seja em suas versões impressas, foram essas instituições que cuidaram de checar a veracidade do que os candidatos disseram e que prestaram o serviço público de colocar à disposição dos eleitores as informações necessárias para que estes soubessem quem são as pessoas que aspiram a governá-los pelos próximos anos.

As informações que marcaram o desenrolar da campanha foram publicadas por diários como o The Washington Post e o The New York Times. Foi o Post, por exemplo, que revelou a gravação de 2005 em que Trump pronunciou palavras agressivas e ofensivas às mulheres. A gravação marcou definitivamente sua imagem como um candidato misógino e nada exemplar, e desencadeou uma série de acusações de assédio sexual. E foi o Times, por outro lado, que, a partir de um vazamento anônimo e de uma investigação minuciosa, noticiou que o republicano passou mais de dez anos sem pagar impostos federais.

As notícias publicadas nas últimas semanas contrastam com a cobertura de Trump feita pela mídia na primeira etapa da campanha eleitoral, a das eleições primárias, entre junho de 2015 e  junho de 2016. Os meios de comunicação — sobretudo as redes de TV, como a CNN — haviam sido, então, o maior aliado do magnata e showman nova-iorquino.

Jeff Zucker, presidente da CNN, dirigia o departamento de entretenimento da rede NBC quando Trump fez sucesso com seu reality show O Aprendiz, na década passada. “Dez anos depois, foi o mesmo Zucker, agora à frente da CNN, quem proporcionou a Trump um tempo de exposição gratuita impressionante na TV a cabo durante o processo das primárias republicanas, transmitindo de forma contínua os seus discursos e comícios, frequentemente sem cortes e sem qualquer checagem crítica dos dados”, escreveu recentemente Margaret Sullivan, colunista do Post sobre mídia.

“Talvez não seja bom para o país, mas, diabolicamente, é bom para a CBS”. A frase, atribuída a Leslie Moonves, presidente da CBS, sintetiza a promiscuidade existente entre Trump e as redes de TV, bem como o papel desempenhado por elas na ascensão do republicano.

Tudo começou a mudar quando ficou claro que Trump seria indicado como candidato republicano. As palavras sobrepostas às imagens corrigindo as suas mentiras se tornaram comuns na CNN. A partir de agosto, sucederam-se os editoriais dos jornais defendendo o voto contra Trump. Bastante significativo é o fato de que diários que haviam passado décadas, quando não mais de um século, sem apoiar um candidato democrata — como o Dallas Morning News, do conservador Texas, e o Arizona Republic —, desta vez o fizeram. Os que apoiam Trump podem ser contados com os dedos de uma mão. Uma dessas publicações é a National Enquirer, uma revista de jornalismo marrom que inventa notícias sensacionalistas descaradamente. O Wall Street Journal, o grande jornal de qualidade e conservador, propriedade de Rupert Murdoch, não se posicionou, mas alguns de seus colunistas o fizeram, contra Trump.

A quase absoluta unanimidade dos editoriais não é a única, e nem a principal, novidade, mas sim a escolha da imprensa tradicional de deixar de lado algumas práticas que sempre haviam regido a sua cobertura política. Nesta campanha, mostrou-se claramente, sem meias palavras, quando um candidato estava mentindo. Em ocasiões anteriores, a praxe era mostrar os dois lados: a tão criticada falsa equivalência, uma equidistância que atribui o mesmo peso à verdade e à mentira (em sua versão mais caricatural: o candidato A diz que a Terra é redonda; por outro lado, o candidato B defende que ela é plana, e o leitor é que decidirá quem está com a razão...). O título da capa do New York Times de 16 de setembro sobre o boato propagado por Trump sobre a nacionalidade de Obama marcou o fim de uma época: “Donald Trump sustentou a mentira da certidão de nascimento durante anos, e ainda não pediu desculpas”, dizia o título. Adeus, falsa equivalência.

Trump se desviou tanto dos hábitos e costumes da política norte-americana — insultando adversários ou mentindo impunemente —, que obrigou a imprensa a se adaptar. “Não sabíamos como escrever um parágrafo que dissesse: ‘Isto é simplesmente falso’”, disse o diretor do Times, Dean Baquet, em entrevista ao Nieman Lab. “É uma luta. Creio que Trump acabou com essa luta”.

As investidas de Trump contra a imprensa são um dos chavões de sua campanha. “Os meios de comunicação são tão desonestos e tão corruptos”, disse ele no último debate com Clinton.

Quando Trump se refere aos jornalistas, no discurso em Newtown, seus seguidores se viram para o local onde estão as câmeras de televisão e vaiam. Uma das ironias desta campanha é que a CNN, que contribuiu para o fenômeno Trump proporcionando-lhe muitas horas gratuitas para a divulgação de sua mensagem populista e nacionalista, é agora um inimigo. No comício, as vaias acabam até mesmo se transformando em uma espécie de canto: “A CNN cheira mal!”.