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Balas sortidas

Donald Trump, Vladimir Putin, Michel Temer, machismo, cultura e o Nobel de Literatura para Bob Dylan

Nesta semana estou oferecendo aos leitores um pacote de balas sortidas. Aproveitem!

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TRUMP – O candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, certamente assistiu inúmeras vezes às performances do bufão italiano Benito Mussolini, disponíveis em vídeo na internet. Ele o imita em tudo: no gestual, nos rompantes e, em particular, na retórica vazia, mas perigosamente sedutora para analfabetos políticos. Trump encarna a síntese do fascismo contemporâneo — ressentido, nacionalista, machista, xenófobo, homofóbico, beligerante. Com certeza, sua adversária, a candidata democrata Hillary Clinton, irá ganhar as eleições, mas o que impressiona é a quantidade de norte-americanos que seguem Trump como a um messias.

PUTIN – Já o presidente russo, Vladimir Putin, abraça o modelo mais discreto, mas muito mais eficaz, de seus antecessores, em particular o do sanguinário ditador Josef Stálin. Putin não precisa dar satisfação a ninguém, pois montou um sistema autoritário de perpetuação no poder de fazer inveja aos amadores políticos tucanos e petistas do Brasil. Putin invade a Ucrânia, bombardeia as forças aliadas para proteger o ditador sírio, Bashar al-Assad, elimina adversários políticos, faz e acontece, contando com a fraqueza de uma Europa dividida e acuada. Por isso, Putin, que encaminhou toda a sua trajetória dentro de órgãos de espionagem soviéticos, é o sonho de consumo de Trump.

MACHISMO – Muita gente se indignou — e com razão — com o comentário machista do presidente nigeriano Muhammadu Buhari diante da primeira-ministra alemã, Angela Merkel. Irritado com uma entrevista da primeira-dama, Buhari disse que o lugar de sua mulher era “na minha cozinha, na minha sala e nos demais cômodos da minha casa”. Não há dados disponíveis sobre feminicídio na Nigéria, mas os há no Brasil, onde também consideramos a mulher mais uma de nossas posses: segundo dados da Organização Mundial da Saúde, aqui a taxa é de 4,8 assassinatos para cada 100 mil mulheres, o que nos coloca no vergonhoso e desconfortável quinto lugar no ranking mundial.

TEMER – Por falar em Brasil, o medíocre, obscuro e golpista presidente não eleito, Michel Temer, vai conseguir uma grande proeza: entrará para a história contrapondo-se ao presidente bossa-nova Juscelino Kubistchek. Kubistchek consta dos anais por ter feito o país avançar 50 anos em 5. Temer constará por fazer o Brasil atrasar-se 20 anos em 2. Claro, há exagero em ambos os casos: nem avançamos 50 anos em 5 com Kubistchek, nem iremos atrasar apenas 20 anos em 2 com Temer.

CULTURA – Paira no ar uma ideia intencionalmente estimulada por setores reacionários à esquerda e à direita: a de que a cultura é o espaço de expressão e gozo da elite. Ora, a cultura é patrimônio da Humanidade e desprezá-la é desprezar milênios de conquistas. Há certos militantes de esquerda que, cavalgando o burro do populismo, acham que só literatura, música, artes plásticas, cinema, teatro, etc, produzidas pelo “povo” — e enchem a boca quando falam “povo” — é que presta, desprezando todo o resto, que denominam de “cultura burguesa”. E há os reacionários de direita que incitam essa perspectiva, porque querem que a cultura, que eles chamam, enchendo a boca, de “alta cultura”, seja mesmo uma zona reservada ao usufruto dos ricos. Entre uns e outros, perdemos a oportunidade de lutar por um país mais justo, onde todo cidadão, sem distinção de classe, tenha assegurado o acesso à Cultura, com maiúscula e sem adjetivos.

PRÊMIO NOBEL – Aliás, embora ninguém tenha me perguntado, vou meter minha colher: se houvesse Prêmio Nobel de Música eu já acharia um equívoco entregá-lo para Bob Dylan, com suas chatíssimas canções, tendo outros nomes muito mais importantes, em todos os sentidos, como Roger Waters (do Pink Floyd), Leonard Cohen ou, por que não?, o nosso Chico Buarque. Agora, dar a ele o Prêmio Nobel de Literatura é sem dúvida sinal dos tempos...