Rei da Tailândia

Morre Bhumibol, rei da Tailândia durante 70 anos e monarca mais longevo do mundo

Vajiralongkorn, o príncipe herdeiro, pede que a coroação seja adiada para que ele chore pelo pai

O rei da Tailândia, Bhumibol Adulyadej, em abril de 2012, em Bangkok. W. Wanichakorn / EL PAÍS

O rei da Tailândia, Bhumibol Adulyadej, morreu nesta quinta-feira aos 88 anos, depois de seu estado de saúde se agravar nos últimos dias. “Morreu pacificamente às 15h52 (5h52 pelo horário de Brasília) no hospital Siriraj”, informou um comunicado oficial da Casa Real. Abre-se agora um período de luto de um ano pelo soberano que ocupou o trono durante sete décadas. As bandeiras tremularão a meio mastro durante um mês em todos os edifícios oficiais e escolas, em sinal de luto por um soberano considerado uma figura unificadora e símbolo da independência da Tailândia, um país que em oito décadas teve 19 Constituições, 19 golpes de Estado e uma miríade de primeiros-ministros civis e militares.

A morte de Bhumibol, cujo funeral de Estado ainda levará meses para ocorrer, pode abrir uma etapa de incerteza política nessa nação profundamente dividida entre as áreas rurais e urbanas, com uma pujante classe média urbana e que se tornou a segunda maior economia do Sudeste Asiático, apesar de seu atual crescimento estagnado e de nela existir uma ala mais tradicionalista que parece pouco disposta a abrir mão de seus privilégios. O herdeiro e único filho homem de Bhumibol, Vajiralongkorn, de 64 anos, não goza do mesmo prestígio do pai.

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A Assembleia Nacional (Parlamento) realizou já nesta quinta-feira uma sessão extraordinária para declarar o trono vago, mas ao contrário do que se esperava os parlamentares não proclamaram Vajiralongkorn como rei. Conforme explicou o primeiro-ministro, general Prayut Chan-ocha, o príncipe pediu um prazo antes de assumir o trono, para poder prantear o pai. “Esperemos o momento adequado", declarou o chefe de Governo.

Teoricamente, o soberano tailandês não exerce funções políticas, apesar de Bhumibol ter intervindo em várias ocasiões nos últimos 70 anos, às vezes de forma direta, e às vezes de modo menos visível. O futuro reinado do Rama X ainda é um enigma. Não falta quem aponte tentativas preliminares de Vajiralongkorn com o ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, um magnata das telecomunicações que é muito popular junto à classe trabalhadora, mas detestado pelas elites conservadoras, e que vive exilado do país para evitar acusações de corrupção.

Mas o Governo de Prayut, que assumiu o poder há dois anos, após um golpe de Estado que depôs a irmã de Thaksin, Yingluck Shinawatra, parece disposto a manter seu firme controle. Em pronunciamento à nação, Prayut disse que a segurança nacional “é o mais importante” e anunciou a mobilização de tropas em diversas zonas do país para garantir essa segurança.

Em uma nota informativa, a consultora Capital Economics observa que qualquer tentativa de retorno de Thaksin à política nacional “enfrentaria a oposição dos militares e possivelmente desencadearia mais conflitos”.

Enquanto todos os canais de televisão entravam no ar ao vivo para anunciar o falecimento – que faz da britânica Elizabeth II, de 90 anos, a decana entre os monarcas mundiais –, quase mil pessoas se reuniam no lado de fora do hospital para chorar a morte do único rei que a maioria dos tailandeses conheceu. O soberano, onipresente em retratos por todo o país, é considerado quase um semideus, protegido por leis draconianas de lesa-majestade que proíbem a mínima insinuação de crítica.

Bhumibol, nascido nos EUA e criado na Suíça, chegou ao trono em 1946, depois da morte do seu irmão mais velho, Ananda, o Rama VIII, baleado misteriosamente dentro do seu quarto no palácio real de Bangkok. Não foi coroado imediatamente: retornou à Europa para continuar seus estudos, mesmo antes de transcorridos os 100 dias de luto oficial. A cerimônia de entronização só aconteceria em 1950, quando ele já estava casado com Sirikit, a quem conhecera quando o pai dela era embaixador tailandês na França, e com quem teve quatro filhos.

Passou os primeiros anos no trono à sombra de líderes militares fortes – o absolutismo havia sido abolido em 1932, e desde então a monarquia atravessava uma etapa de decadência –, mas seu papel começou a adquirir um novo protagonismo a partir de 1957, quando o general Sarit Dhanarajata assumiu o poder. O trono oferecia legitimidade ao militar, e o primeiro-ministro protegia o papel do soberano. Recuperavam-se então formalismos abandonados um quarto de século antes, e que hoje em dia são parte integral do protocolo, como a prática de se prostrar perante o soberano numa audiência.

Com as visitas que fazia às províncias, seu genuíno interesse pela agricultura (tem várias patentes registradas em seu nome, incluindo um método para obter chuva artificial) e seus hobbies variados, que iam da fotografia à vela, passando pelo jazz, conseguiu forjar a imagem de um soberano piedoso e benévolo.

Seu momento mais notório de influência deu-se em 1992, quando dezenas de manifestantes foram alvejados durante protestos contra as tentativas do ex-general golpista Suchinda Kraprayoon de se tornar primeiro-ministro. O rei convocou Kraprayoon e seu rival, o general da reserva Chamlong Srimuang, ao palácio. A imagem dos dois poderosos militares curvados diante do soberano, numa audiência transmitida pela televisão, causou uma forte impressão entre os cidadãos. Pouco depois, a democracia foi restaurada.

Mais ambíguo foi seu papel nos incidentes de 2006, durante o mandato de Thaksin Shinawatra. Enquanto a saúde do soberano começava a declinar – a partir desse ano passou a maior parte do tempo internado –, Bhumibol declinava publicamente de intervir na crise. Mas muitos viram sua mão por trás da anulação judicial das eleições que haviam dado a vitória ao magnata das comunicações. E os detratores do governo de Thaksin e de sua irmã, incluindo Prayut, invocavam com frequência o nome do rei.

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