Rei da Tailândia

Morre Bhumibol, rei da Tailândia durante 70 anos e monarca mais longevo do mundo

Vajiralongkorn, o príncipe herdeiro, pede que a coroação seja adiada para que ele chore pelo pai

O rei da Tailândia, Bhumibol Adulyadej, em abril de 2012, em Bangkok.W. Wanichakorn / EL PAÍS

A morte de Bhumibol, cujo funeral de Estado ainda levará meses para ocorrer, pode abrir uma etapa de incerteza política nessa nação profundamente dividida entre as áreas rurais e urbanas, com uma pujante classe média urbana e que se tornou a segunda maior economia do Sudeste Asiático, apesar de seu atual crescimento estagnado e de nela existir uma ala mais tradicionalista que parece pouco disposta a abrir mão de seus privilégios. O herdeiro e único filho homem de Bhumibol, Vajiralongkorn, de 64 anos, não goza do mesmo prestígio do pai.

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A Assembleia Nacional (Parlamento) realizou já nesta quinta-feira uma sessão extraordinária para declarar o trono vago, mas ao contrário do que se esperava os parlamentares não proclamaram Vajiralongkorn como rei. Conforme explicou o primeiro-ministro, general Prayut Chan-ocha, o príncipe pediu um prazo antes de assumir o trono, para poder prantear o pai. “Esperemos o momento adequado", declarou o chefe de Governo.

Teoricamente, o soberano tailandês não exerce funções políticas, apesar de Bhumibol ter intervindo em várias ocasiões nos últimos 70 anos, às vezes de forma direta, e às vezes de modo menos visível. O futuro reinado do Rama X ainda é um enigma. Não falta quem aponte tentativas preliminares de Vajiralongkorn com o ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, um magnata das telecomunicações que é muito popular junto à classe trabalhadora, mas detestado pelas elites conservadoras, e que vive exilado do país para evitar acusações de corrupção.

Mas o Governo de Prayut, que assumiu o poder há dois anos, após um golpe de Estado que depôs a irmã de Thaksin, Yingluck Shinawatra, parece disposto a manter seu firme controle. Em pronunciamento à nação, Prayut disse que a segurança nacional “é o mais importante” e anunciou a mobilização de tropas em diversas zonas do país para garantir essa segurança.

Em uma nota informativa, a consultora Capital Economics observa que qualquer tentativa de retorno de Thaksin à política nacional “enfrentaria a oposição dos militares e possivelmente desencadearia mais conflitos”.

Enquanto todos os canais de televisão entravam no ar ao vivo para anunciar o falecimento – que faz da britânica Elizabeth II, de 90 anos, a decana entre os monarcas mundiais –, quase mil pessoas se reuniam no lado de fora do hospital para chorar a morte do único rei que a maioria dos tailandeses conheceu. O soberano, onipresente em retratos por todo o país, é considerado quase um semideus, protegido por leis draconianas de lesa-majestade que proíbem a mínima insinuação de crítica.

Bhumibol, nascido nos EUA e criado na Suíça, chegou ao trono em 1946, depois da morte do seu irmão mais velho, Ananda, o Rama VIII, baleado misteriosamente dentro do seu quarto no palácio real de Bangkok. Não foi coroado imediatamente: retornou à Europa para continuar seus estudos, mesmo antes de transcorridos os 100 dias de luto oficial. A cerimônia de entronização só aconteceria em 1950, quando ele já estava casado com Sirikit, a quem conhecera quando o pai dela era embaixador tailandês na França, e com quem teve quatro filhos.

Passou os primeiros anos no trono à sombra de líderes militares fortes – o absolutismo havia sido abolido em 1932, e desde então a monarquia atravessava uma etapa de decadência –, mas seu papel começou a adquirir um novo protagonismo a partir de 1957, quando o general Sarit Dhanarajata assumiu o poder. O trono oferecia legitimidade ao militar, e o primeiro-ministro protegia o papel do soberano. Recuperavam-se então formalismos abandonados um quarto de século antes, e que hoje em dia são parte integral do protocolo, como a prática de se prostrar perante o soberano numa audiência.

Com as visitas que fazia às províncias, seu genuíno interesse pela agricultura (tem várias patentes registradas em seu nome, incluindo um método para obter chuva artificial) e seus hobbies variados, que iam da fotografia à vela, passando pelo jazz, conseguiu forjar a imagem de um soberano piedoso e benévolo.

Seu momento mais notório de influência deu-se em 1992, quando dezenas de manifestantes foram alvejados durante protestos contra as tentativas do ex-general golpista Suchinda Kraprayoon de se tornar primeiro-ministro. O rei convocou Kraprayoon e seu rival, o general da reserva Chamlong Srimuang, ao palácio. A imagem dos dois poderosos militares curvados diante do soberano, numa audiência transmitida pela televisão, causou uma forte impressão entre os cidadãos. Pouco depois, a democracia foi restaurada.

Mais ambíguo foi seu papel nos incidentes de 2006, durante o mandato de Thaksin Shinawatra. Enquanto a saúde do soberano começava a declinar – a partir desse ano passou a maior parte do tempo internado –, Bhumibol declinava publicamente de intervir na crise. Mas muitos viram sua mão por trás da anulação judicial das eleições que haviam dado a vitória ao magnata das comunicações. E os detratores do governo de Thaksin e de sua irmã, incluindo Prayut, invocavam com frequência o nome do rei.

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