Coluna
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Os cariocas entre dois incêndios

Marcelo Crivella e Marcelo Freixo são dois símbolos, dois extremos do panorama político

Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, no debate do 6 de Outburo na TV Bandeirante
Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, no debate do 6 de Outburo na TV BandeiranteYASUYOSHI CHIBA (AFP)

Entendo as angústias de minha colega, a jornalista Cora Rónai, que quando votar no dia 30 deste mês no Rio para eleger o novo prefeito, terá que escolher entre dois incêndios, ou entre “duas igrejas”, como ela escreveu em sua coluna no O Globo.

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Porque Marcelo Crivella e Marcelo Freixo, os dois candidatos finalistas após o primeiro turno das eleições para o governo da segunda maior cidade do Brasil, são mais do que dois candidatos.

São dois símbolos, dois extremos do panorama político.

Crivella, que já foi ministro da Pesca no governo de Dilma Rousseff (a quem confessou, com assombrosa sinceridade, que não sabia nem armar um anzol), é um símbolo do conservadorismo evangélico, cada vez mais forte politicamente, que sempre busca dar mais importância no Congresso à Bíblia do que à Constituição.

Os eleitores mais numerosos de Crivella são da classe média mais conservadora e menos escolarizada, assim como os mais pobres, os das mais martirizadas favelas que cercam a cidade como uma coroa de espinhos. Elas vivem sempre entre dois fogos cruzados: a violência do tráfico e a do Estado que as marginaliza. São uma presa fácil dos extremismos de direita e de esquerda, assim como das diversas confissões religiosas.

Na outra margem do espectro político está Freixo, candidato do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), a extrema esquerda, filho rebelde que um dia abandonou o Partido dos Trabalhadores (PT), cujos despojos hoje quer juntar.

O candidato da esquerda radical pesca seus votos entre a classe média artística e intelectual, chamada polemicamente de esquerda caviar, das regiões mais ricas da cidade, enquanto chega com mais dificuldade às áreas menos cuidadas e mais humilhadas dos bairros pobres e violentos.

Freixo se apresenta, ao mesmo tempo, como a esperança da reconquista dos valores progressistas e da modernidade e atrai os jovens, órfãos de líderes tanto de esquerda como de direita.

Os cariocas, como diz Rónai, serão obrigados a escolher entre dois extremos, duas igrejas: a religiosa evangélica de Crivella, e a política de uma esquerda que ainda mantém vícios do velho marxismo e luta para se apresentar como o PT puro de suas origens, antes de rasgar a bandeira da ética quando o partido de Lula era admirado dentro e fora do Brasil.

Crivella e Freixo são dois candidatos extremos, vistos com suspeitas pelos eleitores do centro e da socialdemocracia, que preferem apostar em receitas mais liberais e credos menos populistas.

Em um momento em que o país, e particularmente todo o Rio, sofrem uma crise econômica, herança de 13 anos de governos de centro-esquerda vistos como demasiadamente generosos com o gasto público que escapou do controle e acabou causando 12 milhões de desempregados, a direita levanta orgulhosa a cabeça.

A votação dos cariocas no segundo turno do próximo dia 30, a cidade mais iconoclasta, artística e lúdica do país será um teste nacional para saber de lado se inclina o pêndulo dos eleitores nas eleições presidenciais de 2018 e se o novo partido da abstenção continuará crescendo.

Nelas saberemos que Brasil os brasileiros preferem para o futuro imediato.

O Rio já poderá nos dar agora um indício como o que acaba de dar São Paulo, onde o milionário João Dória Jr., mais empresário e gestor do que político, conseguiu vencer a eleição à prefeitura já no primeiro turno.

O grande repúdio às urnas nessas eleições, que provocou a abstenção de até 40% dos eleitores, pode significar, como dizem vários especialistas, indiferença, cansaço e insatisfação dos brasileiros com a velha política.

Mas pode ser também uma tomada de consciência de que a democracia é um valor muito importante para que se possa jogar com ele nas urnas, como se joga dominó.

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