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CINEMA
Crítica

‘Elle’, de Paul Verhoeven, e a gestão pessoal da própria monstruosidade

O filme propõe um olhar para uma nova moral, construído na convicção de que todos somos, em maior ou menor medida, monstros

A sombra à vista
Trailer de 'Elle', de Paul Verhoeven.

Quando os circuitos de exibição se deixavam intoxicar pelos ventos libertários da contracultura, um modesto filme holandês fez a diferença com sua celebração desinibida do corpo e sua exploração do chiaroscuro do prazer: era Louca Paixão (1973), de Paul Verhoeven. Ninguém poderia ter previsto que o cineasta acabaria integrado à maquinaria de Hollywood sem comprometer sua abrasiva identidade: O Vingador do Futuro (1990), Showgirls (1995) e Tropas Estelares (1997) são velhos indicadores da disfuncionalidade no contexto do cinema de consumo. A grande indústria, no entanto, acabou expelindo o corpo estranho. Verhoeven pode ter perdido agressividade com os anos, mas seu encontro com um romance de Philippe Djian, autor que inspirou Betty Blue (1986) e O Amor É um Crime Perfeito (2013), resultou num filme que é soma e psicanálise de toda a sua poética: Elle representa a conquista de um apogeu expressivo, em que o gosto pela provocação do holandês encontra a sua expressão mais torcida, serena e sutil.

ELLE

ELLE

Direção: Paul Verhoeven.

Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling.

Gênero: comédia. França, 2016.

Duração: 130 minutos.

Definir esse filme esquivo como um thriller e, tacitamente, associá-lo com Instinto Selvagem (1992) é um desserviço à sua natureza, porque se Elle parece com algo é com as cerimônias da transgressão inventadas por Buñuel e Carrière: O Discreto Charme da Burguesia (1972) e O Fantasma da Liberdade (1974) presidem a árvore genealógica que brota esse filme em que uma mulher reage com uma gelidez perturbadora à sua violação e no qual a raça surpreendente de um recém-nascido não faz com que seu suposto pai saiba somar dois e dois.

Com personagens que parecem mostrar suas respectivas sombras junguianas como quem usa um broche de ouro na lapela, Elle fala da gestão pessoal da própria monstruosidade: uma monstruosidade que, aparentemente, distingue a protagonista interpretada por Isabelle Huppert, num de seus papéis de alto risco que, aos poucos, acaba definindo todos. Não é por acaso que apareça – como pano de fundo – a indústria de videogames, entendida como uma tecnologia a serviço das pulsões inconscientes. Não era o propósito de Djian fazer uma sátira sobre a instituição familiar, nem moralizar. Também não é esse o propósito de Verhoeven. O que Elle propõe é um olhar para uma nova moral, construído na convicção de que todos somos, em maior ou menor medida, monstros. Porque queremos. E o desejo é um animal selvagem.

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