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Os humanos domesticaram o ‘lobo’ que têm dentro de si?

Os 'sapiens' se matam entre si menos do que se poderia esperar diante de sua herança evolutiva

'Duelo com bastões' de Goya se tornou símbolo da violência entre humanos. Ampliar foto
'Duelo com bastões' de Goya se tornou símbolo da violência entre humanos.

Quando Thomas Hobbes popularizou a ideia de que o homem é o lobo do homem —homo homini lupus est—, ele vivia em uma época em que o homem começava a ser o cão domesticado do homem. E muitos dos que usam essa expressão latina talvez não saibam que os chimpanzés são o lobo do chimpanzé, que até os lêmures são lobos dos lêmures e que, é óbvio, os lobos são lobos dos lobos. Estamos falando do nível de violência letal que os membros de uma espécie exercem sobre seus congêneres. O reino animal está cheio de exemplos nos quais é comum que se matem entre si, dentro da mesma espécie, como uma característica a mais de sua evolução.

Nesse contexto, quão letais são os humanos para com seus congêneres? Um estudo minucioso publicado em 29 de setembro pela revista Nature tentou calcular esse fator posicionando-o no contexto de sua família evolutiva, e comparando sua letalidade com a dos demais mamíferos. A partir de dados de uma gigantesca variedade de fontes humanas e de mamíferos, cientistas espanhóis se atrevem a defender que cabe a nós, humanos, um nível de violência mais ou menos concreto. Do total de mortes humanas, seria de se esperar que 2% fossem causadas pela violência interpessoal. Ou seja, que duas em cada cem pessoas morressem nas mãos de outra pessoa, em guerras, crimes etc. Curiosamente, os pesquisadores observaram que esse número coincide com a proporção de mortes violentas de nossa pré-história. Mas depois entraram outros fatores em jogo, disparando primeiro e freando depois essa nossa faceta sangrenta.

Os autores do estudo, do Conselho Superior de Estudos Científicos (CSIC, em sua sigla em espanhol) e das universidades de Granada e Rey Juan Carlos, compilaram durante dois anos dados de 1.024 espécies de mamíferos (de 137 famílias de animais) para quantificar o nível de violência mortal exercido entre congêneres. Além disso, somaram informações sobre humanos mortos em conflitos e assassinatos de 600 civilizações e populações humanas, partindo de cerca de 50.000 anos até a atualidade, até alcançar a proporção de 2% que corresponderia de forma natural aos humanos.

Por exemplo, 4,5% dos chimpanzés morrem devido à violência exercida por outro chimpanzé, mas apenas 0,7% de nossos outros primos, os bonobos. E cerca de 12% dos humanos da Idade Média morriam violentamente. Os pesquisadores descobriram dois fatores que predizem um maior índice de violência letal dentro de uma espécie: que se desenvolva em sociedade e que tenha um caráter territorial. Dois fatos que influenciam muito os humanos. Além disso, nosso ramo mais ancestral (euarchonta) é dos mais sangrentos, com os primatas com índices mais altos. A mortalidade mais alta ocorre em suricatas, mangustos, leões e outros grandes felinos, alguns lêmures e babuínos, lobos e outros canídeos sociais, leões marinhos, marmotas e esquilos de solo.

Nos últimos séculos, a proporção de mortes violentas em relação ao total é notavelmente menor do que se esperava

“Nossos 2%, mais ou menos, é a porcentagem que deveríamos ter em função de nossas raízes filogenéticas [relações de parentesco entre espécies]. Mas se só isso influísse, esses 2% seriam fixos: há fatores culturais e de contexto que modulam esse nível de violência”, afirma José María Gómez, professor da Universidade de Granada.

Desde o Paleolítico até a Idade do Bronze, a proporção não se alterou de forma significativa em relação ao que se poderia esperar. Mas ao chegar à Idade do Ferro começou uma escalada sangrenta entre humanos que se estendeu e cresceu até a chegada da Idade Moderna, quando começou a se corrigir. Nos últimos séculos, a proporção de mortes violentas em relação ao total é notavelmente menor do que a esperada, segundo os cálculos de Gómez e seus colegas. Em seguida, analisaram essa proporção em função do tipo de Governo: as tribos e bandos pré-históricos se moviam em parâmetros previsíveis; os caciques e reis antigos dispararam de forma dramática essas mortes; e o Estado moderno coloca a porcentagem muito abaixo dos 2% esperados.

“Nosso trabalho pode ajudar a resolver o dilema de que a violência tem um componente evolutivo, mas não significa que haja um determinismo genético”, afirma Gómez, pesquisador da Estação Experimental de Zonas Áridas do CSIC. Este biólogo evolutivo explica que eles se limitaram a analisar o sistema político porque parecia evidente que poderia influir, mas há muitos outros fatores que podem modular a violência letal entre humanos que se dá a cada momento e lugar, com a cultura e o comércio ou, em outras espécies, o tipo de cortejo ou o sistema reprodutivo.

Nos últimos anos, o psicólogo evolutivo Steven Pinker se tornou um dos pensadores mais relevantes —e polêmicos— exatamente por publicar dois livros (Tábula rasa e Os anjos bons de nossa natureza) nos quais argumentava que a violência humana vem diminuindo ao longo da história e que estaríamos vivendo em um dos períodos menos perigosos para nossa integridade. Consultado sobre esse artigo da Nature, Pinker afirma ao EL PAÍS que está “impressionado” com o trabalho de Gómez e sua equipe: “Quem dera esse estudo estivesse disponível quando escrevi o livro”.

“É uma análise criativa e minuciosa, e portanto consistente com minha concepção da história da violência”, afirma Pinker, que ressalta que muitos animais, não só os humanos, matam indivíduos de sua própria espécie e que, sendo tão sociais e territoriais, é previsível que tenhamos um nível importante de violência, mesmo que tenhamos sabido corrigi-la com leis e instituições. “Apesar de ter destacado todos esses pontos em Os anjos bons da nossa natureza, eles demonstraram com muito mais precisão, rigor e profundidade”, elogia.

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