Snowden é “alguém que passará à história”, diz Oliver Stone

Diretor apresenta em San Sebastián seu filme sobre o hacker mais famoso dos EUA

Oliver Stone na apresentação de 'Snowden' em Nova York, em 13 de setembro.Jim Spellman WireImage / Open Road Films

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O diretor Oliver Stone (Nova York, 1946) chegou aos 70 anos investindo contra tudo. Homem de polêmicas, seja por sua visão da guerra do Vietnã (Platoon), da política (Nixon, JFK - A Pergunta que Não Quer Calar) da história (A História Não Contada dos Estados Unidos), e da economia (Wall Street - Poder e Cobiça). Stone nunca fica calado e costuma buscar na realidade o germe de seu próximo filme. Somente a política espanhola parece deixá-lo quieto nas vésperas de sua viagem a San Sebastián para apresentar na quinta-feira 22 de setembro na seção Oficial, mesmo fora da competição, seu último longa-metragem, Snowden. “Conheci os representantes do Podemos em Mallorca e conversei com a prefeita de Barcelona. Mas daqui há alguns dias vou ao festival e não, agora realmente não posso falar mais”, se esquiva por uma vez em sua vida.

Mas nas telas continua combativo. Seu novo trabalho, que estreia comercialmente no Brasil em 22 de setembro, é centrado na controvertida figura de Edward Snowden, o analista do serviço secreto norte-americano que em 2013 realizou o maior vazamento público de documentos secretos, entre eles revelou os relatórios dos programas de vigilância em massa do Governo norte-americano. Aos olhos do cineasta, Snowden é “alguém que passará à história” por tomar as decisões certas no assunto no momento em que na sua opinião a sociedade é dominada pela apatia. “Sou um personagem público há tantos anos que não mudei meus costumes”, afirma sobre a sociedade orwelliana na qual Snowden deixou claro que vivemos. “É claro que podem me criticar, mas eu agora só me meto em questões vergonhosas. Eu me preocupo com todos esses jovens ignorantes que sofrem de tudo porque dizem que não têm nada a esconder. É esse tipo de gente que não se preocupa pelo mundo em que vive, porque os direitos, as liberdades que muitos antes defenderam na Constituição são violados. Eu me preocupo pela passividade que vejo ao meu redor”.

Apesar de sua veemência, Stone é honesto e reconhece que no começo ele também não se interessou pela figura desse homem de óculos e aspecto de rato de biblioteca no centro desses vazamentos. Ele preferia fazer um filme sobre Martin Luther King. E com uma gargalhada reafirma: “De fato, já tenho filmes polêmicos o suficiente em meu currículo”. Mas o preço que ele paga por uma filmografia crítica contra os Estados Unidos é não poder fazer sempre o que quer. Um momento de frustração artística que o levou, no começo de 2014, a conhecer Snowden pessoalmente. Esse foi o primeiro de três encontros que marcaram seu novo projeto. “Eu me encontrei com alguém nervoso e desgastado que não sabia se queria fazer um filme de ficção ou um documentário. A única coisa que sabia é que não queria uma biografia como essas de televisão. Ou ainda pior, um filme feito por Obama”.

Os ataques desse liberal criado em uma família republicana contra o atual presidente norte-americano são contínuos. Da mesma forma contra a candidata democrata, Hillary Clinton. “Obama é muito bom nas mudanças cosméticas que não servem para nada. Sua fama é boa, mas até ele nenhum presidente havia utilizado tanto a Lei de Espionagem para calar os informantes”, afirma cáustico. Também não vê nenhuma melhora com Clinton, convencido de que Snowden ainda terá que passar mais alguns anos, se não a vida inteira, na Rússia na falta de outro refúgio e de um improvável perdão em seu país. “Snowden foi para a Rússia porque mais ninguém lhe ofereceu proteção. A Europa dos anos sessenta e setenta o teria apoiado. Era muito mais independente dos Estados Unidos. A Suécia teria lhe dado asilo. A França de De Gaulle, isso com certeza. Na Alemanha, a população está do lado de Snowden. Mas os governos...”, deixa a frase inacabada ficando calado. “Estamos vivendo tempos verdadeiramente terríveis e isso me dá medo”.

Stone está especialmente preocupado por quem tentou a mudança nos EUA apostando sem sucesso no senador Bernie Sanders como concorrente à Casa Branca. “Terão que pagar o preço e serão espionados e desacreditados como grupo”, prevê. “Digo seriamente: às vezes até os paranoicos têm razão”. Os tempos atuais assustam Stone. Mas espera ficar tranquilo: “O que eu gostaria é de poder contar com outras duas décadas cheias de energia porque, para que negar, às vezes é duro se levantar de manhã”.

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