Donald Trump: “O México ainda não sabe, mas pagará 100% do muro”

Republicano se apega à versão mais dura do discurso anti-imigração após estar com Peña Nieto

Acabaram-se as dúvidas. A versão mais dura do discurso anti-imigrantes de Donald Trump caiu nesta quarta-feira como uma profecia sobre os Estados Unidos e, de passagem, sobre o México, cujo presidente o candidato havia visitado apenas algumas horas antes. O postulante republicano à Casa Branca destrinchou em detalhes as suas promessas: erguerá um muro, conseguirá fazer com que o México pague por ele, expulsará do país todos os sem documentos e os obrigará a retornar legalmente. O importante, na política migratória, não é o que convém aos imigrantes, resumiu ele, mas o que convém à população norte-americana. “O México vai pagar pelo muro. Em 100%. Ainda não sabem disso, mas vão pagar”.

Donald Trump fala sobre imigração em Phoenix, na quarta-feira.
Donald Trump fala sobre imigração em Phoenix, na quarta-feira. AFP

A campanha de Trump havia anunciado que nesta quarta-feira, em Phoenix, o candidato daria o “grande discurso” sobre a questão da imigração. A expectativa não poderia ter sido maior, após duas semanas durante as quais ele havia emitido mensagens contraditórias em meio a mudanças radicais na equipe de organização de sua campanha. As prometidas deportações já não estavam tão claras. A dúvida que havia sobre se Trump estava suavizando um discurso visto amplamente desde o primeiro dia como racista e xenófobo pairava, legitimamente, no ar.

O outro fator que provocava uma definição por parte de Trump foi o insólito convite feito a ele pelo presidente do México, Enrique Peña Nieto, para uma reunião na capital mexicana. Trump aterrissou pela manhã na Cidade do México; mais tarde, ambos deram uma entrevista coletiva juntos. Nos discursos dos apoiadores de Trump, como o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, o xerife Paul Babeu ou o candidato a vice-presidente, Mike Pence, fica claro que a campanha pretende aproveitar o encontro com Peña Nieto para tentar melhorar a imagem pouco presidencial de seu candidato. Trump foi apresentado como um líder que vai ao México e diz as coisas cara a cara ao presidente daquele país. Este é o resultado do evento para Trump.

A entrevista coletiva consistiu, na verdade, em dois pronunciamentos paralelos, em que cada um expôs a sua visão sobre a questão da imigração. Ao ser questionado sobre o muro, Trump disse que haviam falado sobre isso, mas não sobre quem pagaria a obra. Peña Nieto o desmentiu depois, afirmando no Twitter que “no começo da conversa com Donald Trump eu deixei claro que o México não irá pagar o muro”.

Quatro horas mais tarde, diante de um público cativo e altamente sensível à questão da imigração, como o do sul do Arizona, Trump iniciou sua falação sobre o tema da seguinte forma:

“Vocês estão preparados?”

“Sim”.

Primeiro: vamos construir um muro. O público presente, em Phoenix, foi à loucura com essa encenação de Trump. Será “intransponível” e “maravilhoso”, disse. Depois de uma longa e dramática pausa em que se deixou envolver pelos aplausos, acrescentou: “E é o México que irá pagá-lo”. Mas ainda faltava um toque: “Eles ainda não sabem disso”. Esse ponto, como vários outros, não estava previsto no roteiro ou no discurso por escrito distribuído ao final de sua fala. “O México irá colaborar conosco, eu creio. Depois de ter-me reunido com o seu maravilhoso, maravilhoso presidente, estou convencido de que eles querem resolver o problema”.

Suas colocações seguintes sobre a imigração, encerradas aos gritos de “USA, USA, USA” emitidos pelo público do Arizona, foram as mais duras que aqueles que têm um dos 11 milhões de imigrantes em situação irregular nos Estados Unidos como familiar, amigo, vizinho ou colega de trabalho poderiam ouvir. Haverá uma deportação maciça de todos aqueles que entraram ilegalmente no país ou que já tenham o seu visto vencido. Todas as forças de segurança dos EUA, em especial as polícias locais, serão colocadas à disposição da execução dessa política migratória. Nenhum imigrante detido ao cruzar a fronteira ilegalmente será solto. Todos permanecerão detidos até serem deportados. E o serão aos seus países de origem, quaisquer que sejam eles e se os aceitam de volta ou não. Além disso, aqueles que quiserem emigrar para os EUA passarão por um “exame ideológico” para “garantir que todos que entrem em nosso país compartilhem os nossos valores e amem a nossa gente”.

O candidato republicano não deixou margem para interpretações. “Quem quiser ter um estatuto legal terá apenas um caminho. Voltar para a sua casa e solicitar um retorno legal, como todo mundo. E farão isso em quotas que serão estabelecidas por nós. Vamos acabar com o ciclo de imigração ilegal e anistias”, disse. “Não haverá anistias. Nossa mensagem ao mundo é a seguinte: não será possível ter um estatuto legal se você entrar em nosso país ilegalmente”. Assim, qualquer esperança que 11 milhões de pessoas tenham de sair das sombras nos Estados Unidos estará extinta em uma eventual presidência de Donald Trump. Além disso, o candidato prometeu revogar os decretos de Obama, suspensos por decisão da Suprema Corte, que protegem contra a deportação as pessoas irregulares que tenham filhos com cidadania.

Trump também resgatou um dos pilares dos dias iniciais de sua campanha, quando tentava abrir espaços para si na mídia. O combate aos “clandestinos criminosos”, termo pejorativo que ele usou ininterruptamente para se referir aos imigrantes, será uma prioridade absoluta de seu governo. Ele afirmou que “há dois milhões de clandestinos criminosos nas ruas”, um dado que deixou sem explicações. Prometeu identificar imigrantes sem documentos dentro das penitenciárias e disse que qualquer pessoa sem documentos que cometer um crime terá desde o início uma pena de prisão mínima simplesmente por ser uma pessoa sem documentos.

Durante esse discurso, Trump se fez cercar mais uma vez por uma série de famílias que perderam parentes por crimes cometidos por clandestinos. E responsabilizou diretamente Barack Obama e Hillary Clinton pelas mortes dessas pessoas devido à sua “política de portas abertas”.

O discurso mais xenófobo e mais impiedoso com uma população de imigrantes sem documentos, a dos Estados Unidos, que tem o tamanho da população de um país médio; a representação mais grosseira do imigrante latino (Trump ligou a rigidez contra a imigração a “acabar com as quadrilhas”); o uso da dor das vítimas de tragédias; a acusação de que Obama deixa atrás de si um país caótico que estaria caindo aos pedaços. Eis Trump por inteiro, trazendo a versão mais dura do discurso de “Primeiro os EUA” que o levou a seduzir metade do Partido Republicano, em sua posição final sobre o assunto, a dois meses das eleições.

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