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Desvendando crianças a partir de falcões

Sem falar de filhos, ‘F de Falcão’, de Helen Macdonald, tem muito a ensinar a mães e pais

Mabel por Helen Macdonald.
Mabel por Helen Macdonald.Twitter

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Essa é uma leitura possível de F de Falcão, escrito pela inglesa Helen Macdonald e lançado este ano no Brasil pela editora Intrínseca. Ainda que essa não tenha sido nem de longe a intenção da autora – uma apaixonada por falcões desde pequena, que viu em relato sobre sua experiência de treinar uma ave, na verdade, uma saída para superar a perda repentina do pai. Deu certo: ela pôde superar o luto e seu livro se tornou um dos mais celebrados em prêmios literários do mundo inteiro em 2014, mencionado inclusive por Barack Obama em uma de suas tradicionais listas de livros de cabeceira.

“Meu açor me ensinou grandes lições sobre a vida”

Convidada este ano para a Festa Literária de Paraty, em julho, Macdonald (Chertsey, 1970), historiadora, ilustradora e professora em Cambridge, costuma apresentar sua obra explicando o básico sobre um falcão: “Um falcão é treinado por reforço positivo. Não entendem punição, atuam por recompensa. São criaturas que podem voar para longe de você”. A descrição cai como uma luva no desafio parental, e, ainda que jamais tenha educado uma criança, Helen concorda que tem alguns conselhos para dar nesse sentido.

“Não tenho filhos. Mas muitos pais que leram o livro me escreveram dizendo que viam muitas semelhanças entre minha convivência com a Mabel e a experiência de cuidar de criança”, ela respondeu sobre o açor fêmea (um tipo de falcão especialmente agressivo) que adotou aos 10 meses de vida. Logo, recordou as duas ou três coisas que aprendeu ao lado de um ser rebelde em formação. Todas facilmente identificáveis no livro.

É preciso ter paciência

A animalidade vive em nós, humanos, e isso é algo bem fácil de se ter em mente ao lado de uma criança cansada e irritada. Açores, à sua vez, são aves nervosas, especialmente difíceis de domar. “Os açores são nervosos, porque vivem a vida em uma velocidade dez vezes mais rápida do que a nossa e reagem aos estímulos literalmente sem pensar”, escreve Macdonald ao descrever o processo de ambientar Mabel à sua casa, a ela e às novidades na vida de ambas. No início, a ave tem medo da domadora e, sempre que estranha alguma coisa ou se assusta, começa a se debater. “É preciso paciência”, afirma.

Quando o açor se debate muitas vezes e a falcoeira não sabe o que fazer, ela diz sem rodeios: “Detesto isso”. E respira profundamente, tratando de calcular o passo seguinte, que dará para acalmá-la. Frequentemente não funciona. “Quero ser delicada. Estou sendo delicada, mas minha delicadeza esconde um enorme desespero”, relata em um momento que, fatigada, teme pela eficácia de seus métodos amorosos e fruto de reflexão. Crianças, assim como os falcões, farejam insegurança, estresse, falta de controle e de capacidade.

Eles voam para longe

Macdonald deu várias palestras sobre sua obra, que se desmancha em metáforas poéticas sobre a natureza e também sobre os sentimentos que brotam a partir da relação com ela. “Oitocentos e cinquenta gramas de morte vestidas de plumas” é uma de suas descrições de Mabel, carregadas de emoção. Seu relato é (muito) mais do que um documento sobre falcoaria, mas nessas conversas públicas ela deu dicas aos que perguntam curiosos como se faz para treinar um falcão: “Primeiro, você precisa de tempo, dedicação e uma área aberta para se tornar falcoeiro. Eles precisam voar, e você precisa garantir que suas necessidades sejam garantidas. É uma responsabilidade enorme”. E no livro a escritora conta como funcionam os treinos, em que aumentava gradualmente as distâncias de voo do açor, até deixar “que ele voasse mais longe”.

Os atritos, como se espera, foram muitos e constantes. Macdonald, depois de perceber que chegou a desejar ser um açor como Mabel e olhar o mundo sob o voo livre de sua ave, percebe que estava confundindo as coisas em um momento de grande introspecção social. Termina concluindo, como uma mãe em um inevitável ponto de separação, que “éramos diferentes, mas conseguíamos conviver”.

Profundas conexões

Outra interpretação possível sobre a história de F de Falcão é que, todo o tempo, Helen Macdonald tratou seu açor com o encanto e a paciência que seu pai, um fotógrafo que lhe ensinou observar e a amar a natureza em vários momentos de cumplicidade, dedicou a ela. As duas são relações de “amizade profunda” e “uma conexão quase espiritual”, como a própria autora escreve. Para Helen, seu pai soube fazer com ela o que ela acredita que seja o melhor conselho para cuidar de filhos (e de falcões): “Seja consistente e amável. Não pressione”. “São seres belos”, ela recorda, “que, além de tudo, te ensinam a voar”.