Jogos Olímpicos

O Brasil se rende a Marta

A visibilidade da atacante no Rio contrasta com a pouca atenção que ela costuma receber em seu país

Marta no jogo do Brasil contra a África do Sul em 9 de agosto.
Marta no jogo do Brasil contra a África do Sul em 9 de agosto.Bruno Zanardo (Getty Images)

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Algo está mudando no país do futebol quando o Brasil vê uma criança riscar o nome de Neymar de sua camiseta da seleção para escrever com marca-texto preto o nome de Marta. A maior goleadora da história da seleção brasileira – masculina e feminina – está infundindo ânimo no público que exige da Canarinho o que viu nela e em sua equipe: entrega. Até nas prorrogações. Marta, esperança do anfitrião no futebol olímpico, está sem freio no caminho ao pódio.

O público deixou de cantar o nome de seu jogador mais bem pago para entoar em coro nas arquibancadas "Marta é melhor que Neymar" e as lojas dos centros comerciais do Rio expõem agora uma camiseta até então exótica, a da número 10, a de Marta Vieira da Silva. Ante as comparações, seu treinador, conhecido como Vadão, deixou claro que "Marta é Marta e Neymar é Neymar", assim como a melhor ginasta norte-americana destes Jogos teve que esclarecer que ela não era a próxima Phelps nem a próxima Bolt, mas "a primeira Simone Biles".

Marta no treino desta segunda-feira para o jogo contra a Suécia.
Marta no treino desta segunda-feira para o jogo contra a Suécia.Leo Correa (AP)

Vadão também não poupa elogios à sua estrela: "É uma líder. Todos nós, incluindo os técnicos, a vemos assim. Não só pelo que representa tecnicamente – é agressiva, precisa, goleadora –, mas pelo que representa como pessoa. É um exemplo para todos e nunca se considera superior a ninguém", explica o treinador da seleção ao EL PAÍS.

A visibilidade de Marta no Rio contrasta com a pouca atenção que a atacante, de 30 anos, recebe em seu próprio país durante o resto da temporada. Eleita pela FIFA a melhor jogadora do mundo durante cinco anos seguidos – façanha nunca alcançada por nenhum jogador homem –, Marta está desde 2004 jogando em clubes dos Estados Unidos e, sobretudo, da Suécia, onde vive e de onde trouxe a competitividade para a sua seleção.

A jogadora, nascida em uma família humilde e abandonada pelo pai quando tinha um ano, cresceu nos campos de futebol de Dois Riachos, um município de 11.000 habitantes de Alagoas, o Estado mais violento do Brasil. Desde os seis anos fugia para jogar futebol às escondidas de seus dois irmãos. Ninguém achava bom que a menina desfrutasse de um esporte de homens. "Não gostavam de me ver na rua com os meninos. Se me viam em algum campo, tinha de ir correndo para casa e me esconder atrás de minha mãe para que não me batessem. Foi assim toda a minha infância", contou em uma entrevista em 2014. Entre seus apelidos está o de "Pelé de saias", título que detesta, entre outras coisas, porque só veste saia ou usa saltos quando a ocasião exige.

Sua história e o paradoxo de seu sucesso nestes Jogos têm alimentado o debate de como o futebol feminino, permitido por decreto somente em 1979, ainda gatinha na terra de astros como Pelé, Ronaldo, Bebeto e Neymar. Também o de como o suor e os gols femininos valem muito menos que os dos homens. Marta, segundo a revista Forbes, ganha um salário anual de 400.000 dólares (1,27 milhão de reais) enquanto seu compatriota Neymar, hoje no Barça, embolsa 14,5 milhões (46 milhões de reais). Se lhe recompensassem por gols, um de Marta valeria 3.900 dólares contra os 290.000 dólares que vale o de Neymar. Marta já somou 103 gols com a seleção, Neymar, menos da metade. "Esse é o reflexo da situação do futebol feminino no Brasil, que ainda não reconhece suas jogadoras. Quase não existe divulgação dos campeonatos femininos aqui", costuma argumentar Marta, embaixadora das Nações Unidas para disseminar o empoderamento da mulher para combater a pobreza.

Seu êxito no futebol, como o de muitas atletas brasileiras que estão sendo reveladas nestes Jogos, permitiu dar uma vida melhor à sua mãe. A atacante só começou a ir à escola quando estava com nove anos e não tinha dinheiro para o material escolar. Conta que bebia Coca-Cola – hoje uma de suas patrocinadoras – ou comia alguma guloseima quando visitava os parentes. Em sua casa não podiam se permitir extravagâncias desse tipo.

Na terça-feira a seleção enfrenta nas semifinais a Suécia, o país de acolhida de Marta, com um Brasil que vai exigir delas o que já não espera da equipe de Neymar. A pressão é enorme, reconhece o treinador: "Temos falado muito sobre isso. Sabemos que cada vez nos vão apertar mais e a pressão vai aumentar. Mas chegamos maduros a este momento, vamos nos concentrar e tentar minimizar a carga."

Depois de nove dias de competições olímpicas, há gestos que apontam que mesmo que a seleção não conquiste o ouro, Marta sairá igualmente festejada do Rio. Enquanto a estrela falhava em um dos pênaltis que decidiam a partida contra a Austrália para chegar às semifinais, Bárbara, a goleira da seleção, impedia dois gols e, em vez de empinar o nariz, dizia: "Não podíamos sair da competição com uma falha de Marta". O sentimento de Bárbara era o de toda a equipe. "Não podíamos terminar com um erro de Marta quando foi uma das estrelas da partida. Não merecia isso. É impressionante o quanto ela se dedicou, se cuidou e se preparou para tentar este ouro. Nós a protegemos porque não queremos que faça mais do que pode. É nossa responsabilidade como equipe ajudá-la a decidir as partidas e nunca deixar que as decida sozinha", explica seu técnico.

O último sonho declarado de Marta, antes de se aposentar, é este ouro olímpico. Seus técnicos sabem disso e confessam que o grande desafio do Brasil a partir de agora será encontrar uma nova número 10. "Não é fácil", diz Vadão. "O Brasil depois de Pelé teve grandes jogadores, mas nunca encontrou um como ele. É provável também que nunca mais haja uma como ela."

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