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Macri reaviva a polêmica sobre número de desaparecidos na Argentina

Presidente diz que não tem ideia "se foram 9.000 ou 30.000" e é alvo de repúdio

Mauricio Macri, em 8 de agosto.
Mauricio Macri, em 8 de agosto. Reuters

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, se enredou em uma velha polêmica com as organizações de defesa dos direitos humanos. Em uma entrevista concedida ao portal BuzzFedd, transmitida ao vivo pelo Facebook, disse que não tinha "ideia" se os desaparecidos durante a última ditadura (1976-1983) "foram 9.000 ou 30.000", e foi alvo de rechaço de todos os grupos que batalham pela memória das vítimas. Macri disse que falar do número de desaparecidos é uma discussão que "não tem sentido" e utilizou o termo "guerra suja" para referir-se ao Governo militar, uma tese defendida pelos setores que pedem aplicar à leitura daqueles anos as lógicas de um enfrentamento bélico.

Macri respondeu durante meia hora às perguntas que chegavam à conta do BuzzFeed no Facebook. Os usuários, por intermédio da jornalista do portal, insistiram quatro vezes na questão dos direitos humanos, até que chegou uma consulta concreta sobre o número de desaparecidos. As organizações de direitos humanos fixaram em 30.000 as vítimas dos militares, mas desde o retorno da democracia não foram poucos os setores que preferiram estimar a cifra em 8.961, que é o número estabelecido em 1984, com base nas denúncias das vítimas, pela Comissão Nacional de Desaparecimento de Pessoas (Conadep) no livro "Nunca Más". Consultado a respeito, Macri preferiu se esquivar da controvérsia: "É um debate no qual não vou entrar. Não sei se foram 9.000 ou 30.000, se são os que estão anotados em um muro [em um monumento às vítimas do terrorismo de Estado construído em 2007 pelo kirchnerismo diante do Rio de la Plata] ou muitos mais. A guerra suja foi uma horrível tragédia, o pior que nos aconteceu em nossa história, e não tem a ver com um número".

Sua negativa em ser preciso e o fato de ter escolhido as palavras "guerra suja" para referir-se ao terrorismo de Estado lhe valeram as críticas de ONGs como Avós da Praça de Maio e Mães da Praça de Maio Linha Fundadora, e do Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel. "Não houve guerra suja. Houve uma repressão brutal imposta pela Doutrina de Segurança Nacional. Recomendo ao Presidente que faça um curso sobre direitos e dignidade humanos (...). Macri não se lembra de Adolfo Scilingo [marinheiro arrependido] contando pela TV (na Espanha) como lançavam prisioneiros vivos no Rio de la Plata?", perguntou Pérez Esquivel.

A dirigente das Avós, Estela Carlotto, afirmouque "o que Macri disse é imperdoável". "Se pensa que nós vamos esquecer está muito, muito enganado. Isso não foi uma guerra suja nem limpa, foi terrorismo de Estado", acrescentou Carlotto. Também se juntou à polêmica Nora Cortiñas, presidente das Mães Linha Fundadora. "À medida que os meses passam, este Governo está se acostumando a desfigurar a história como se [durante a ditadura] nada tivesse acontecido. Esse modo de se expressar do Presidente é alarmante. Há uma agressão aos órgãos de direitos humanos com as expressões de Macri e muitas autoridades que o cercam", denunciou Cortiñas.

As falas de Macri sobre a existência de uma guerra suja nos anos 70 reavivaram uma polêmica que ele mesmo iniciou em dezembro de 2014, quando, em campanha pela presidência, prometeu em uma entrevista ao diário La Nación pôr fim ao "roubo dos direitos humanos". A citação poderia ter passado ao esquecimento, mas marcou a linha de outras autoridades. Em janeiro de 2016, já com o atual Governo no poder, o então secretário de Cultura de Buenos Aires, Darío Lopérfido, disse que a cifra de 30.000 desaparecidos "se definiu em uma cúpula fechada" para "conseguir subsídios" estatais.

Esta nova controvérsia sobre o número de desaparecidos coincidiu com a chegada a Buenos Aires de mais de 1.000 documentos desclassificados pelos Estados Unidos relativos à ditadura militar. Macri pediu esses documentos ao presidente norte-americano, Barack Obama, durante a visita que este último realizou à Argentina em março. O Governo disse que a resposta de Washington foi uma demonstração de que Macri não arriou a bandeira dos direitos humanos içada como própria pelo kirchnerismo durante os últimos 12 anos.

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