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Um museu de mulheres guerreiras

#SaveGenderMuseum é um projeto no qual uma coleção de mais de 3.000 objetos em Carcóvia (Ucrânia) se mantém graças a patrocinadores espanhóis

Save Gender Museum
A artista María (Pimienta) Sánchez, no Museu de Gênero de Carcóvia, vestida com um traje regional ucraniano com pedras preciosas e bordado à mão. O vestido foi doado ao museu em 2010 por seguidores de Yulia Tymoshenko, ex-primeira-ministra do país.

“Tatiana é uma guerreira nata!”, diz María. “María é uma GRANDE MULHER que faz esforços HERÓICOS”, escreve Tatiana em letras maiúsculas. As vidas de María Sánchez (Guadalajara, 1985) e Tatiana Isaeva (Carcóvia, 1959) se cruzaram graças ao Museu de Gênero da cidade ucraniana de Carcóvia, na qual Sánchez chegou através de um programa de voluntariado europeu. Ela é artista e gestora cultural e naquele momento preparava sua tese de mestrado. Como não estava satisfeita com si mesma e atravessava uma época difícil, buscou uma mudança e a encontrou na Ucrânia, país ao qual chegou em abril de 2014, dois meses após a quinta-feira negra – o que foi considerado o dia mais sangrento do conflito entre pró-russos e pró-europeus. Buscava um lugar em que a situação fosse difícil, onde não conhecesse o idioma para partir do zero e desenvolver um dos exemplos práticos de sua tese que é um estudo de campo de projetos artísticos em contextos periféricos, marginais e sem recursos.

Após vários meses trabalhando na galeria municipal e em um festival, chegou o momento de realizar outra das tarefas agendadas: fechar o museu que Isaeva dirigia e dirige. A missão da voluntária espanhola era compilar caixas e embalar mais de 3.000 objetos que formam o único museu de gênero na Ucrânia e no Leste Europeu: o anteprojeto para a artista Pimienta Sánchez – como seu papel de agitadora cultural é conhecido nas redes sociais. Sánchez se encontrou com Isaeva para que esta lhe mostrasse qual era o estado da coleção. Quando a diretora abriu a porta do local onde está o museu, tudo estava escuro, não havia luz. Sánchez pegou seu celular da bolsa, acendeu a lanterna e foi iluminando paredes, mesas, objetos... Sentiu um choque de realidade: ela tinha mais recursos do que o museu. “Não é a situação dos museus espanhóis que não podem oferecer um catering e não podem montar outra exposição. Eles não conseguiam pagar a luz”. A diretora, ao vê-la tão interessada, fez a gentileza de acender uma pequena lamparina, um esforço econômico para ela. Voltaram a se reunir na manhã do dia seguinte, já com luz natural. Sánchez observava os mísseis e cartas pendurados no teto, as que as mulheres enviavam aos seus maridos durante alguma das últimas guerras pelas quais o país passou; uma penteadeira coberta com um manto negro, símbolo do fato de que na época do conflito não havia tempo para se dedicar ao cuidado físico, quando esse aspecto na vida da mulher ucraniana é fundamental; cartazes, fotografias e até uma máquina de escrever da época soviética, mas com o teclado em ucraniano, é um símbolo da liberdade, pertenceu a uma mulher que podia escrever em seu idioma.

Peças do Museu de Gênero, entre elas é possível ver uma máquina de escrever da época soviética com teclado em ucraniano e a vela com a qual a diretora mostrou pela primeira vez a coleção a María Sánchez.
Peças do Museu de Gênero, entre elas é possível ver uma máquina de escrever da época soviética com teclado em ucraniano e a vela com a qual a diretora mostrou pela primeira vez a coleção a María Sánchez.

Sánchez percebeu que precisava de tempo. Mas não para acabar com o museu, mas para buscar uma forma de levá-lo adiante e de ajudar essa mulher que o construiu e lutou por ele. O museu era ela. Ela é quem recebe as ligações de quem pretende visitá-lo e, não importa em que lugar da cidade a pessoa estiver, vai buscá-la para mostrar o museu. As mais de quinhentas visitas entre 2013 e 2014 se traduzem em 500 ligações a Isaeva para que ela abra as portas e mostre a coleção. Qualquer comparação com “um museu convencional” é como comparar órbitas de planetas de galáxias que estão a milhões de anos luz. Ela o financiava até que decidiu dedicar essa parte de sua pequena pensão aos que marcharam à frente de combate. Foi ela quem decidiu que era preciso preservar, contar e perpetuar a história das mulheres. Um museu de gênero em um país no qual nem sequer existe esse termo, no qual um dos objetivos das mulheres quando se matriculam na universidade é encontrar marido.

“É um projeto honesto, sentíamos que estava próximo da gente”, diz Clara Rodríguez, do 7h Coop, um dos patrocinadores

Em uma semana Sánchez mostrou a Isaeva uma campanha e um plano de marketing. Nasceu o #SaveGenderMuseum e Isaeva confirma entusiasmadamente que dessa forma continuam vivas. “Comecei pelo final, pela loja de presentes”, explica Sánchez. Criou um logotipo, uma camiseta, publicou no site do museu para quem quisesse baixá-lo e divulgar o projeto. Fez contas e com 100 euros (360 reais) por mês poderiam manter o aluguel do espaço. Na realidade eram por volta de 97, 98 euros (350, 354 reais), mas arredondou e com o restante conseguiram trocar as lâmpadas e têm cadernos! Ela financiou o primeiro mês, janeiro de 2015. Seus avós maternos, o segundo. E pouco a pouco a rede foi se expandindo: recebe mensagens de qualquer parte do mundo; vê pessoas desconhecidas baixando o logo e o colocando em seu perfil nas redes sociais; uma artista argentina enviou 100 euros para colaborar em um dos próximos meses. As meninas que fazem parte do 7h Coop, uma cooperativa galega cujo objetivo é promover a criação artística, conheceram a ideia e a amadrinharam em março. “É um projeto honestos, sentíamos que estava próximo da gente”, comenta Clara Rodríguez, membro do 7H. “Nós nos perguntamos quanto custa salvar um museu e pela quantidade necessária...”. O mês de abril ficou por conta da Nokton Magazine, uma revista que escreve sobre iniciativas culturais corajosas, de modo que na organizada agenda de Sánchez os patrocinadores de cada mês aparecem um a um e faltam somente três para pagar todo o ano de 2016. O que oferece em troca é a divulgação do trabalho dos patrocinadores de cada mês. Isaeva diz que continuam vivas graças ao esforço dos espanhóis que participam. Sánchez tem um novo objetivo: vincular a comunidade ucraniana que vive na Espanha com esse museu de seu país. Um país que mesmo sem estar mais nas manchetes, continua imerso em um conflito. E apesar disso mulheres como Tatiana Isaeva – e sua filha – não deixam que seu legado cultural desapareça e seja destruído como uma estátua de Lênin.