Tentativa de golpe de Estado na Turquia

Turquia já não é um país para golpes

A rejeição das ruas, a condenação da oposição e as redes sociais fizeram fracassar a intentona militar

Cidadãos cantam durante uma manifestação em apoio ao Governo em Ancara, no sábado, 16 de julho. CHRIS MCGRATH (GETTY) / QUALITY (reuters_live)

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Na sexta-feira 12 de setembro de 1980, uma multidão de crianças turcas se alegrou porque algo que acontecia na televisão tinha cancelado o início do ano escolar. Não conseguiam entender a preocupação dos adultos, que corriam pela casa em busca de livros para queimar na cozinha para evitar de serem acusados, enquanto os telefones fervilhavam de chamadas para saber se os demais familiares e amigos estavam a salvo. Naquele dia, de madrugada, os tanques tinham tomado as ruas e se impôs a lei marcial. A Junta Militar se prolongaria por três anos, após os quais —milhares de torturados, mortos e presos depois— a Turquia jamais voltaria a ser a mesma.

Esconder-se e tentar passar desapercebido foi a resposta da maioria dos turcos aos sucessivos golpes de Estado (1960, 1971, 1980 e 1997) vividos por seu país desde o início da democracia. Era assim ou jogar-se da montanha tentando resistir até à captura ou a morte.

Desta vez foi diferente. Pela primeira vez, os militares golpistas se encontraram com as massas que fizeram frente na defesa do Governo democraticamente eleito e, apesar de alguns terem disparado contra os manifestantes, a maioria dos soldados acabou por depor as armas. “Tomamos uma decisão. Dissemos a nós mesmos: ou saímos à rua, nem que seja arriscando nossa vida, ou este país perderá outra vez outros 10 ou 15 anos, que é o atraso que representou para a Turquia cada um dos golpes de Estado”, explica Ahmet Turan Han, membro da associação antimilitarista Jovens Civis. Este jovem da área de tecnologia decidiu, diante do chamamento do presidente Recep Tayyip Erdogan e de vários membros do Governo, caminhar até a ponte do Bósforo em Istambul, onde centenas de pessoas tentavam deter os golpistas: “Havia cerca de 35 soldados, um tanque e vários blindados, primeiro dispararam para o ar para nos dispersar, e então em nós. Vários caíram feridos, houve também alguns mortos. Mas os motoristas dos ônibus municipais e os dos caminhões de lixo estacionaram seus veículos para impedir que chegassem mais militares. E vendo-nos ali, todos juntos, irmanados, sendo mais do que os militares, nos sentimos fortes e resistimos até que chegou a polícia e os deteve”.

O júbilo demonstrado por milhares de pessoas que tinham saído à rua —o Governo convocou todos a “não abandonar as praças”— contrastava com a quietude em outros bairros de tendência contrária ao Executivo. Na manhã de sábado, dia 16 de julho, em um mercado do centro de Istambul abriram menos bancas do que de costume. Segundo uma testemunha, as pessoas se mostravam “temerosas”. No entanto, o ambiente logo mudou: “O proprietário do café convidou as pessoas a tomar um chá e todos começamos a falar e compartilhar nosso medos e a relaxar”. Em meio à incerteza que geram episódios como esses e depois de uma noite na qual o centro da metrópole turca estava imerso em explosões, tiroteios e voos rasantes dos caças, o calor humano e a solidariedade são o melhor remédio.

“Não foram só as pessoas. Também o fato de que os líderes dos principais partidos políticos concordaram em denunciar o golpe foi muito importante”, pontua Mensur Akgün, diretor do centro de estudos GPoT. Efetivamente, socialdemocratas, pró-curdos e ultranacionalistas turcos mostram seu apoio ao Governo islâmico eleito e sua oposição ao levante militar. Os quatro grupos parlamentares se reuniram no sábado em uma sessão extraordinária de um Parlamento gravemente afetado pelos bombardeios da noite. Pela primeira vez em muito tempo, no anfiteatro turco foram ouvidos aplausos dos grupos políticos aos líderes rivais. “A Turquia é um país que vive mergulhado em uma grande polarização, e os militares tentaram aproveitar essas divisões para fazer triunfar o golpe. O fato de não conseguirem dá mostras de que a sociedade turca amadureceu e é um fato na história da democracia”, sustenta este especialista.

Os sublevados também não contavam que o mundo evoluiu. A tradição golpista indica que a primeira coisa que os rebeldes devem fazer é tomar a rádio e televisão públicas e então transmitir as ordens para a nação. E assim o fizeram, mas não contaram que na Turquia os demais canais privados continuariam transmitindo. “Até mesmo as televisões contrárias ao Governo como a CNN-Türk tomaram uma postura de defesa da democracia e contrária ao golpe de Estado”, explica o diretor da GPoT. Não em vão, um grupo de soldados invadiu de revólver em punho os estúdios da rede, onde seus jornalistas prosseguiram com a transmissão inclusive nesse momento, permitindo aos espectadores ouvir os tiros e os gritos com os quais os golpistas tentavam desocupar o prédio. Se há alguns meses, a mídia pró-governo e os seguidores do AKP tinham lançado campanhas de difamação contra os jornalistas e a mídia do grupo Dogan, ao qual pertence a CNN-Türk, cujos edifícios chegaram a ser apedrejados, hoje muitos simpatizantes do partido islâmico agradecem a solidariedade e o empenho demonstrado por esses mesmos jornalistas em defesa da democracia.

Os golpistas nem pararam para pensar na grande penetração que têm as redes sociais na Turquia que, apesar dos sucessivos bloqueios, são amplamente utilizadas. “Nos organizamos pelo WhatsApp”, explica o membro do Jovens Civis: “E ao ver as fotos que as pessoas postavam no Facebook e no Twitter, muitos mais decidiram se unir”. Muitos cidadãos receberam além disso SMS do Governo em seus celulares estimulando-os a participar dos protestos contra o golpe. O golpe de estado, na era da informação, perdeu muitas das possibilidades de sucesso que tinha antes, destaca o catálogo de uma exposição artística intitulada “Darbe” (Golpe) em uma galeria de Istambul há sete anos.

Burak Bekdil, especialista em Defesa, também não esconde o assombro em relação à tentativa de golpe: “A doutrina das Forças Armadas da Turquia sempre foi a de dar um golpe apenas quando tinha apoio para isso. E desta vez se levantaram contra um Governo que têm uma grande popularidade”. Ele também, apesar de ser um crítico mordaz do autoritarismo islâmico, acredita que a facção que perpetrou a sublevação errou na leitura sobre a situação do país: “Antes, os turcos estavam programados para aceitar o que o Exército dissesse. Agora não, agora as pessoas estão com as Forças Armadas quando luta contra o terrorismo, mas contra quando tenta um golpe de Estado. A sociedade turca mudou”.