TENTATIVA DE GOLPE DE ESTADO NA TURQUIA

Erdogan faz expurgo político e militar na Turquia após a tentativa de golpe

Forças leais a Erdogan já prenderam mais de 6.000 pessoas suposta relação com o levante Além disso, foram destituídos 2.745 juízes no país todo

Manifestantes na preça Taksim, em Istambul.
Manifestantes na preça Taksim, em Istambul.YASIN AKGUL (AFP)

Vários detidos, postos de graduação média e baixa, já foram postos à disposição do Judiciário, sob as acusações de “tentativa de subverter a ordem constitucional” e “tentativa de derrubar pela força a República da Turquia”. Além disso, na mochila de um comandante da base da Guarda Militar em Bursa foi encontrada uma lista com os nomes das 400 pessoas que seriam encarregadas de dirigir o Estado de exceção nas diferentes províncias, assim como de gerir as principais empresas e órgãos públicos no caso de sucesso da rebelião. Entre eles há determinado número de adidos militares das embaixadas da Turquia no exterior, segundo o portal Habertürk.

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As prisões não estão limitadas aos militares. Dois juízes do Tribunal Constitucional, Alparslan Altan e Erdal Tezcan, foram detidos porque “segundo os primeiros indícios, atuavam com a Junta Militar”. Também foram emitidas ordens de prisão contra 140 integrantes do Supremo Tribunal, 48 do Conselho de Estado e 5 da instituição equivalente ao Conselho Nacional de Justiça do Brasil. Esse último órgão, além disso, anunciou que 2.745 juízes e promotores serão suspensos de suas funções devido a uma suposta relação com a rede gülenista. Essa decisão vem depois de milhares de magistrados e policiais ligados a essa comunidade religiosa terem sido expurgados pela mesma razão.

“A tentativa de golpe tem pegadas gülenistas. Muitos dos líderes do fracassado golpe estavam em contato direto com importantes membros do movimento de Gülen. Muitas pessoas que participaram entraram na administração pública com referências de pessoas ligadas aos gülenistas”, afirmou ao EL PAÍS uma fonte do Executivo. Mas o próprio Gülen, num comunicado, disse “condenar de forma enérgica” o golpe de Estado. “O Governo deve ser conquistado por meio de um processo de eleições livres e justas, não pela força”, acrescentou. “Nossa comunidade não tem nada a ver com o golpe, e nos fere muito que nos vinculem a ele”, afirmou Murat Aksit, membro da organização gülenista Fundação de Escritores e Jornalistas.

Erdogan voltou a exigir neste sábado, em discurso para seus seguidores em Istambul, que os Estados Unidos “entreguem o terrorista” Gülen, que vive na Pensilvânia, em autoexílio. “Não extraditá-lo seria um ato hostil contra a Turquia”, disse o primeiro-ministro Binali Yildirim, ao que o secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry, respondeu que seu país não tinha recebido nenhum pedido oficial nesse sentido: “Convidamos o Governo da Turquia a nos mostrar qualquer evidência legítima, e os Estados Unidos a considerarão”.

Serviço secreto

Diversos analistas consultados expressaram dúvidas sobre se os gülenistas teriam podido, sozinhos, lançar tamanha tentativa de golpe de Estado. O especialista em defesa Burak Bekdil afirmou que lhe parece muito estranho que o serviço secreto não tivesse conhecimento do plano: “Uma possibilidade é que soubessem do complô, mas o deixassem entrar em ação para obter futuros benefícios políticos”. Outras fontes militares ouvidas, no entanto, afirmam que diversos corpos das Forças Armadas “não faziam ideia” do que viria. É preciso considerar que o Exército turco é uma enorme máquina, com mais de meio milhão de funcionários, soldados e oficiais.

O número de vítimas da tentativa de golpe — mais de 250, entre civis, forças leais e rebeldes — mostra a violência do combate. Só neste sábado foram eliminados os últimos focos de resistência, no quartel-general do Estado Maior e na base aérea de Akincilar, ambos em Ancara. “Acreditamos que estivessem se preparando havia tempos, mas tenham se visto forçados a adiantar seus planos devido ao próximo Conselho Supremo Militar, no qual sabiam que seriam destituídos”, declarou uma fonte governamental.

Quartéis policiais e bases militares ficaram fortemente danificados pelos bombardeios e confrontos armados, bem como edifícios como o Parlamento, do qual muitas salas e gabinetes ficaram em ruínas, o que não impediu que os quatro maiores partidos do país se reunissem neste sábado para aprovar uma resolução condenando o ataque “à vontade nacional, aos deputados e ao Parlamento”.