O Rio está preparado?

O Brasil está sob pressão para que os Jogos Olímpicos transcorram em segurança e sem grandes incidentes

Rua fechada para o trânsito no Rio.
Rua fechada para o trânsito no Rio. YASUYOSHI CHIBA (AFP)

"Brasil, vocês são nosso próximo alvo". Inicialmente, a mensagem no Twitter passou despercebida, perdida em meio às notícias da carnificina em Paris em novembro de 2015. É de autoria de Maxime Hauchard, um autodeclarado jihadista francês da Normandia afiliado ao Estado Islâmico (EI). A notícia da postagem ressurgiu em abril deste ano, depois que o papa do contraterrorismo no Brasil, Luiz Alberto Sallaberry, diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), confirmou que estava levando a sério ameaças desse tipo nas preparações finais para os Jogos Olímpicos.

No fim de maio, o EI lançou o Nashir Português, um canal no Telegram com o objetivo de atrair simpatizantes que falassem português. É a primeira vez que o grupo faz algo do tipo, de acordo com o SITE Intelligence Group, uma organização que monitora atividades jihadistas na internet. O Telegram é uma plataforma criptografada utilizada com cada vez mais frequência pelo Estado Islâmico e outras organizações militantes islâmicas. A Abin está monitorando o canal.

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O Brasil não é o único país preocupado com os ataques dentro e fora da internet. Oficiais de inteligência e policiais de 55 países virão ao Rio de Janeiro para monitorar o ambiente - físico e digital. Há boas razões para isso: a Abin identificou mais de 1.600 hackers em mais de 12.400 ataques a domínios do Governo desde 2012. Menos de 10% se relacionavam a crimes cibernéticos; mais da metade dos ataques eram de hacktivistas com motivação ideológica.

Um dos grupos de hackers mais influentes no Brasil é o Anonymous. Os especialistas estão menos preocupados com os terroristas islâmicos do que com a rede descentralizada de hackers associada ao Anonymous e a grupos semelhantes. Eles acreditam que instalações olímpicas podem ser alvo de ataques para constranger o Governo, como indica a hashtag #OpOlympicHacking. O coletivo de ativistas digitais tem um histórico respeitável, tendo derrubado temporariamente o site oficial dos Jogos Olímpicos Rio 2016 no dia 11 de maio e o site do Ministério dos Esportes do Brasil no dia seguinte.

O Brasil poderia não ligar para os riscos desses trotes virtuais, mas o país está levando o tema bastante a sério. O Governo montou uma força-tarefa em segurança cibernética para as Olimpíadas que inclui a Abin, o Centro de Defesa Cibernética (CDCiber), do Ministério da Defesa, e o Comitê Gestor da Internet (CGI.br). Em março, a Abin reuniu representantes de 33 agências internacionais de inteligência para determinar protocolos de segurança.

Para acompanhar o ritmo dos avanços tecnológicos, muitos sistemas de TI que serão usados nas Olimpíadas estão migrando para a computação em nuvem. Isso quer dizer que tudo – da administração de resultados do evento esportivo ao credenciamento e gerenciamento de funcionários – ocorre cada vez mais na nuvem e menos em servidores físicos instalados nos locais dos eventos. Embora a mudança apresente algumas vantagens em termos de eficácia dos serviços em rede, a infraestrutura na nuvem não está livre de ataques.

As autoridades brasileiras também estão reforçando a segurança em solo. Serão mobilizados 47.000 policiais e 38.000 membros das Forças Armadas durante as três semanas do megaevento esportivo. É mais do que o dobro do contingente de segurança utilizado nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012. O Governo, que atravessa uma crise financeira, destinou 350 milhões de reais para o Ministério da Justiça para aumentar a segurança; o Ministério da Defesa também investiu centenas de milhões de reais, inclusive em treinamento antiterrorismo. Enquanto isso, também foi criada uma força-tarefa marítima que conta com 3.000 fuzileiros navais disponíveis. As Olimpíadas estão prestes a se tornar o evento com a maior presença de forças de segurança da história.

Os esforços de segurança serão coordenados pelos Centros Integrados de Comando e Controle (CICC), sob a tutela da Polícia Federal. A sede dos CICC, em Brasília, está conectada ao principal centro de operações no Centro do Rio de Janeiro e a outros situados nos principais locais das Olimpíadas: Deodoro, Maracanã, Barra da Tijuca e Copacabana. Os CICC usarão uma vasta rede de câmeras de circuito fechado, balões de vigilância, drones e outras tecnologias.

O elevado nível de segurança e vigilância para os Jogos fez com que grupos de defesa de direitos civis questionassem se o monitoramento não estaria passando dos limites. Ativistas se mostraram preocupados, por exemplo, com a possibilidade de que a nova lei antiterrorismo recém-sancionada pudesse ser aplicada em resposta a protestos públicos legítimos. Recentemente a Anatel autorizou as Forças Armadas a bloquear o sinal de celular em certas situações, e há preocupações com o uso inadequado e o abuso de tecnologias de vigilância como os captadores de IMSI, dispositivos portáveis que simulam o sinal de telefonia celular para rastrear movimento e capturar dados pessoais.

Teremos Olimpíadas sem maiores problemas em matéria de segurança? Provavelmente. Contudo, os riscos são reais. O megaevento é um dos espetáculos mais assistidos do calendário mundial e no passado já enfrentou casos como os atentados do Centennial Park, durante as Olimpíadas de Atlanta, em 1996, e de Munique, em 1972. Há dúvidas legítimas de que, apesar da estrutura colossal, o Brasil não esteja preparado para lidar com ameaças cibernéticas e com ataques de lobos solitários.

O país tem em sua defesa o fato de ter realizado com sucesso pelo menos meia dúzia de megaeventos na última década, entre os quais os Jogos Pan-americanos (2007), a Conferência Rio+20 (2012), a Copa das Confederações (2013) e a Copa do Mundo (2014). Agora, para aumentar ainda mais o nível de segurança, o Governo enviou membros das forças policiais e militares a uma série de grandes eventos internacionais no último ano, incluindo a maratona de Boston, o Tour de France e reuniões da Assembleia Geral da ONU em Nova York.

Mas quem corre risco realmente? De acordo com o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, a violência criminosa no Estado voltou a crescer. Entre janeiro e abril deste ano houve 1.715 assassinatos, um aumento de 15% em relação ao mesmo período do ano passado. José Mariano Beltrame, secretário de Segurança do estado do Rio de Janeiro,pediu ao presidente interino Michel Temer apoio das Forças Armadas para a realização das patrulhas durante as Olimpíadas. Resta saber se o pedido será autorizado.

Em cerca de um mês, o Brasil receberá mais de meio milhão de turistas, além de 10.000 atletas de aproximadamente 200 países. É bastante provável que os visitantes estejam seguros. Mas, para os residentes mais pobres e com menor acesso a serviços, muitos dos quais moram em favelas, o grau de segurança deve diminuir, já que a polícia estará concentrada em pontos específicos da cidade. Algumas comunidades já foram impactadas negativamente, como é o caso da Vila Autódromo, que teve moradores despejados à força para abrir caminho para as obras de infraestrutura ligadas às Olimpíadas.

O Brasil está sob pressão para que os Jogos Olímpicos transcorram em segurança e sem grandes incidentes, ainda que a um enorme custo social. Entretanto, o país também precisa priorizar estratégias de segurança pública de longo prazo, em especial para as populações mais vulneráveis, tanto durante os Jogos quanto depois que a tocha olímpica se apagar.

Robert Muggah é diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, um instituto de pesquisa independente com sede no Rio de Janeiro, onde Nathan B. Thompson é pesquisador.

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