Eleições gerais na Espanha

Direita espanhola sai reforçada das eleições e a esquerda retrocede

Vitória do conservador Partido Popular não afasta dúvidas sobre formação do Governo Coalizão entre Podemos e Esquerda Unida termina em terceiro lugar, atrás dos socialistas

O líder do PP, Mariano Rajoy, neste domingo.
O líder do PP, Mariano Rajoy, neste domingo.Daniel Ochoa de Olza (AP)

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O PP voltou a ganhar as eleições gerais e até mesmo superou seus resultados de dezembro, mas as dúvidas sobre a formação de Governo continuam, em um panorama político que continua sendo de muita incerteza para conseguir superar o bloqueio.

De acordo com os primeiros números da votação, não ocorreram mudanças significativas no eleitorado, porque o PSOE conseguiu resistir e a união entre o Podemos e a Esquerda Unida (IU) não conquistou o resultado esperado, ou seja, não ultrapassou os socialistas em cadeiras e votos. A soma do Podemos e IU superou o PSOE em votos nas eleições de dezembro, mas agora isso não aconteceu, sua coalizão fracassou. Para a formação de Governo, o cenário é muito semelhante ao das eleições de dezembro, com a única exceção da subida da candidatura liderada por Mariano Rajoy e a queda do Ciudadanos, penalizado pela polarização.

Mariano Rajoy venceu suas terceiras eleições e até melhorou os resultados de dezembro. Ganhou uma por maioria absoluta e agora duas seguidas distante das 176 cadeiras da maioria absoluta. Supera a linha de 32,93% dos votos e obtém 137 cadeiras, segundo os dados com 94,81% dos votos apurados. A incerteza fortaleceu Rajoy.

As cadeiras do Ciudadanos não serão suficientes, mesmo que agora tenham o maior número entre os dois, e só poderá governar com o difícil acordo do PSOE. Resta a dúvida do que acontecerá se a condição do acordo pedir que Rajoy escolha um lado, algo difícil de se prever levando em consideração o aumento dos votos de seu partido em relação a dezembro. Quem o fará sair se melhorou seu resultado nessas condições?

Os socialistas continuam como a segunda força, mas voltam a ter pela terceira vez consecutiva seu pior resultado. A grande notícia da noite eleitoral é que a candidatura de Pedro Sánchez não afundou, resistiu ao assédio do Podemos e a Esquerda Unida e, contra todos os prognósticos e desmentindo as pesquisas de boca de urna, continua sendo o segundo partido do país com quatro cadeiras a menos do que o vencedor, mas com porcentagem de votos melhor do que em dezembro.

Pedro Sánchez traçou a linha entre o sucesso e o fracasso em evitar que seu partido fosse superado e passou no teste. Seu futuro político pendia por um fio e superou a difícil prova, de acordo com a apuração até o momento.

Em contrapartida, Pablo Iglesias não superou a linha do sucesso e seus votos com a IU não chegam nem perto da soma dos votos de ambos nas eleições de dezembro. Não pode liderar as negociações para formar o Governo e só pode ambicionar uma nova candidatura a vice-presidente de um Executivo de coalizão com o PSOE. E isso para o Podemos é um fracasso após seu acordo com a IU.

A união entre o Podemos e a Esquerda Unida não arruinou o tabuleiro político. Já em dezembro, a soma do Podemos e IU estava acima do PSOE em votos, mas agora a coalizão não aproveitou a lei eleitoral e não traduziu seus votos em cadeiras. Com 91,81% apurado, só conquistou 71 cadeiras, duas a mais do que em dezembro e muito distante de superar esses números.

Após as eleições gerais de 20 de dezembro e o bloqueio nas negociações para formar o Governo, a repetição das eleições mantém as dúvidas e não consolida o fim do bipartidarismo. O Congresso continuará fragmentado com o PP como o partido mais votado e com o PSOE e o Podemos dividindo em duas partes o voto da esquerda. O bipartidarismo resiste nas segundas eleições sem hegemonia dos dois grandes partidos e as dúvidas sobre os pactos para formar o Governo continuam. E o PSOE mantém suas opções de liderar um Executivo: agora é fundamental à direita e à esquerda, sem dúvidas sobre sua liderança futura.

Rajoy e Iglesias pedirão ao PSOE que a partir de segunda-feira sente-se para negociar um futuro Governo. O primeiro como presidente do Governo (primeiro-ministro) e o segundo como apoio, sem que novamente seja possível o pacto de esquerda e sem soberanistas.

O Ciudadanos é o único que perdeu 8 cadeiras, e fica com poder muito reduzido porque suas cadeiras já não servem para determinar por si só a cor do Governo. Suas exigências colocadas na campanha para que Rajoy deixe de ser o candidato do PP à presidência do Governo perdem toda a força ou, pelo menos, já não é uma condição insuperável para o PP. Seus esforços em realizar pactos nesses meses não só não foram premiados, como parecem ter sido castigados.

Sánchez fundamental

O PSOE tem em suas mãos olhar à direita e dar o Governo ao PP ou olhar à esquerda e realizar um pacto com o partido de Pablo Iglesias. Qualquer opção tem contraindicações graves para o partido liderado por Sánchez, em situação um pouco menos difícil após as eleições. A liderança de Sánchez não entra em discussão. A decisão é dos socialistas, enquanto o PP tem muito claro com quem pode se acertar e o Podemos não tem outra opção a não ser apoiar os socialistas, para quem não se cansaram de estender as mãos durante a campanha eleitoral.

Os dois extremos irão batalhar a partir de agora pelo apoio do PSOE. Se o PP o obtiver, o Podemos, em situação mais frágil, poderá fazer o discurso da guinada à direita do PSOE e caso contrário, o PP falará sobre a radicalização do partido que governou por mais tempo na Espanha.

Aparentemente, os eleitores reconheceram o que o líder do PSOE vendeu nas eleições como seu principal ativo: a tentativa de obter acordos com seu pacto com o Ciudadanos.

Um dos argumentos dos socialistas, o da impossibilidade aritmética de um Governo de esquerda, se mantém. As cadeiras dos independentistas e soberanistas podem ser necessárias, mas em menor medida, porque a soma do PSOE e Podemos não dá 176 cadeiras. O efeito do acordo com a IU não se traduz no avanço da esquerda no Congresso.

As segundas eleições em seis meses clarearam outra opção, porque o caminho tentado por Sánchez após as eleições de dezembro já não é possível: o do PSOE com o Ciudadanos, à espera de uma abstenção do PP e do Podemos. A soma entre o partido de Sánchez e o de Albert Rivera já não superará o número de cadeiras do PP e, portanto, o caminho proposto por Jordi Sevilla não é uma opção: que governe quem obtiver mais cadeiras.

Aparentemente, a polarização entre o PP e o Podemos prejudicou o partido de Rivera. Perdeu algumas cadeiras e, de acordo com a apuração, o PP conseguiu recuperar os votos de eleitores aborrecidos com sua política que o castigaram em dezembro apoiando o Ciudadanos.

O apelo ao voto útil funcionou ao PP, que não foi prejudicado por escândalos e corrupção, e como antídoto ao medo do Podemos.

A partir de agora começam as negociações com o compromisso de todos de tentar evitar as terceiras eleições. Em dezembro também foram utilizadas expressões como “fazer o possível” para mostrar seu compromisso com o acordo.