No ‘Sensacionalista’ a ficção é bem melhor que a realidade

Site de humor com notícias fictícias tem 11 milhões de visitas mensais e virou fonte de primeira informação para muita gente

Desde a esquerda: Nelito Fernandes, Leonardo Lanna, Martha Mendonça e Marcelo Zorzanelli
Desde a esquerda: Nelito Fernandes, Leonardo Lanna, Martha Mendonça e Marcelo ZorzanelliFernando Cavalcanti

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Os jornalistas capazes de transformar em bom humor um tema amargo para ao menos metade do Reino Unido formam a equipe do Sensacionalista, um site que se diz "isento da verdade". O que não significa que seja isento de notícia. “Nós viramos fonte de primeira informação para muita gente”, conta Martha Mendonça, uma das criadoras do site, em 2009, e que faz parte da redação com mais outros três jornalistas: Marcelo Zorzanelli, Leonardo Lanna e Nelito Fernandes. Outros dois colaboradores, Bruno Machado e Rodolpho Rodrigo, formam a equipe, cuja reunião de pauta é – morra de inveja, obsoleto repórter – feita por WhatsApp.

Apesar de existir desde 2009, o Sensacionalista estourou mesmo só em 2014, ano da Copa do Mundo no Brasil. Até então, o Facebook deles tinha pouco mais de 30.000 curtidas. Hoje são quase três milhões. "A Copa, por si só, já foi uma piada", diz Martha. "Na sequência, vieram as eleições", e foi aí que eles perceberam que o que mais dá audiência são as notícias envolvendo política. "A Marcela Temer [mulher do presidente em exercício, Michel Temer] sempre bomba muito", diz Martha. "Acho que é porque ela junta política com celebridade", conta. Ela lembra de um post publicado no dia da posse de Dilma Rousseff contando que Marcela Temer tinha usado o mesmo vestido que havia usado no baile de 15 anos, já não fazia muito tempo entre uma data e outra. Marcela tem 33 anos.

Martha associa o sucesso do Sensacionalista a dois fatores: agilidade para publicar as notícias fictícias - como eles mesmos dizem - e o hábito do brasileiro acessar o Facebook logo pela manhã, antes de muitos sites de notícias de verdade. “Somos muito rápidos com a piada. E muitas vezes as pessoas sabem de um acontecimento por nós”, diz. “Por exemplo, no dia da condução coercitiva do Lula, logo cedo já começamos a postar. Até o meio dia, já tínhamos feito umas sete ou oito matérias com o que ia acontecendo e depois fizemos os melhores momentos do depoimento do Lula”. Essa mistura de humor com agilidade resulta em 11 milhões de visitas únicas por mês, uma marca invejável para muitos jornais que falam sério.

Em tempos de crise no jornalismo, os números mostram que há espaço para outras vertentes da informação. Marcelo Zorzanelli é enfático, porém, em dizer que o Sensacionalista não faz jornalismo. “Jornalismo não tem nada a ver com humor”, diz. “Quer fazer jornalismo, não faça piada. Fazer gracinha no jornalismo é uma excrescência”. Talvez nem todo mundo veja da mesma maneira essa dissociação da informação com o humor. Prova disso é que a equipe do Sensacionalista já foi convidada para falar em mesas de discussão sobre o futuro da informação. “É engraçado porque nós somos chamados para falar sobre os novos rumos do jornalismo”, conta Martha.

O futuro do jornalismo é a pergunta de um milhão de dólares. Mas Martha garante que ao menos o humor está dando dinheiro. "Levando em conta que a maioria dos jornalistas está desempregada, acho que está dando mais dinheiro sim", brinca. No ano passado, mais de 1.400 jornalistas foram demitidos no Brasil, segundo um levantamento do portal Comunique-se, que atribui o número ao fechamento de veículos e à migração do impresso para o online. Infelizmente esse número não é mais uma notícia fictícia do Sensacionalista.

No início deste ano, o escritor e colunista de EL PAÍS, Mario Vargas Llosa disse a este jornal que “o perigo vem de dentro do jornalismo, empurrado pela necessidade de um público cada vez mais interessado em entretenimento em vez de informação. Essa fronteira acabou”, afirmou em uma entrevista para lançar seu último livro Cinco Esquinas (ainda sem edição em português), que faz uma análise sobre jornalismo, o Peru, o poder, a hipocrisia e o erotismo. “O sensacionalismo e o entretenimento passaram a ser os valores dominantes. E o jornalismo é vítima disso”, seguiu. O Sensacionalista, nesse contexto, parece uma feliz exceção.

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