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Terrorista procurado há 30 anos pela Espanha leva vida secreta no Guarujá

EL PAÍS localizou no litoral de São Paulo José de las Heras, o cérebro do Fuerza Nueva

O grupo de extrema direita que realizou atentados e três assassinatos na Espanha

José de las Heras Hurtado, cérebro do grupo espanhol de extrema direita Frente de la Juventud, dissidência violenta da Fuerza Nueva, cujos membros cometeram assassinatos, assaltos e sequestros na Espanha durante a Transição, período em que a Espanha deixou o regime ditatorial do general Francisco Franco passando para o regime Constitucional, está escondido há três décadas no Brasil. Durante esse tempo, o extremista conseguiu se esquivar de três mandados internacionais de busca e captura, um deles por assassinato.

EL PAÍS localizou esse fugitivo de 72 anos num subúrbio do Guarujá, cidade de 300.000 habitantes localizada a uma hora e meia de carro de São Paulo. Antes de deixar a Espanha, De las Heras foi considerado o instigador de aproximadamente dez atentados levados a cabo pelas tramas negras da extrema direita. O grupelho vinculado a esse advogado é responsável por três mortes e dezenas de feridos.

A milícia neofascista do extremista teve em suas fileiras Pedro Bel Fernández, Rafael Gómez Álvarez e Ramiro Rodríguez-Borlado, condenados a 30 anos de prisão pelo envio da carta-bomba que em 1978 matou o contínuo deste jornal, Andrés Fraguas, de 19 anos.

– O senhor é José de las Heras Hurtado?

– Sim... Os senhores são os primeiros a chegar. Como me localizaram?

O presidente da Frente de la Juventud, José de las Heras (primeiro à direita), ao lado de Blas Piñar, ex-líder da Fuerza Nueva. A fotografia foi feita em um evento organizado pela Fuerza Nueva em Paracuellos del Jarama (Madri). ampliar foto
O presidente da Frente de la Juventud, José de las Heras (primeiro à direita), ao lado de Blas Piñar, ex-líder da Fuerza Nueva. A fotografia foi feita em um evento organizado pela Fuerza Nueva em Paracuellos del Jarama (Madri).

O encontro acontece no início da tarde. O cenário é um austero restaurante dirigido pelo extremista no bairro Balneário Mar Casado, no Guarujá. O pequeno estabelecimento tem oito mesas vazias e fica no térreo de sua casa. A sequência acontece no coração de um bairro pobre de casas baixas e ruelas não pavimentadas, governado por traficantes de armas e de drogas.

De las Heras usa um colete de lã cinza, camisa de linho branco de mangas curtas, calças jeans e tênis. Coloca os óculos e observa, dubitativo, os visitantes. Num relato carregado de contradições, negativas e silêncios, deixa claro, sem pudor, que não renunciou às suas convicções ultradireitistas. “Nunca me arrependi da minha decisão (a fuga). É preciso ser responsável por seus atos. Eu decidi essa vida”.

O bar El Parnasillo, em Madri, depois do atentado de 1979. ampliar foto
O bar El Parnasillo, em Madri, depois do atentado de 1979.

O extremista fugiu da Espanha em 1984. Deixou em Madri a mulher e os dois filhos, de nove e cinco anos. Também os clientes de seu escritório de advocacia da rua General Pardiñas, no bairro de Salamanca. Aterrissou no Rio de Janeiro procedente de Portugal quando começava seu julgamento da Audiência Nacional pelo atentado ao bar El Parnasillo, em Madri, no qual era processado por assassinato. A acusação representada por Cristina Almeida pediu 163 anos de prisão para ele por considerá-lo líder do grupo. Uma bomba com vários quilos de Goma 2 matou naquele local, em 1979, Salomé Alonso Varela, de 28 anos, e feriu gravemente seu marido, o advogado Jesús Cañedo. Outras dez pessoas ficaram feridas com a explosão. O bar era frequentado por advogados da organização sindical Comisiones Obreras.

“Quando cheguei ao Brasil, às 10h30 horas, meu julgamento estava começando. Ri às gargalhadas”

“Quando cheguei ao Brasil, às 10h30, meu julgamento estava começando na Espanha. Ri às gargalhadas. Eu estava no Rio de Janeiro, no Brasil! Receber uma pena de 20 anos de prisão, eu?, ficar 20 ou 25 anos da minha vida numa prisão? Não, em hipótese alguma. Eu amo a liberdade”, diz sem remorso esse advogado natural de Toledo (a cerca de uma hora de Madri), que chegou a ser secretário-geral da Fuerza Nueva com Blas Piñar, o único líder da extrema direita que ocupou um assento no Congresso dos Deputados.

De las Heras tenta justificar suas três décadas como fugitivo. Sua última ordem de busca e captura por assassinato expirou por prescrição em 21 de junho de 2013. “Escapei porque me disseram: seu caso está pré-julgado, você será condenado com toda a certeza. Pessoas próximas da magistratura e do Exército me recomendaram fugir. Consultei o meu pai, que também era advogado, e ele entendeu”.

O inquérito judicial sobre o atentado contra o bar El Parnasillo apontou esse fugitivo, descrito nas crônicas da época como suposto informante da polícia, como o homem que apresentou a pessoa que entregou o explosivo Goma 2 aos autores materiais do atentado: Bel Fernández, Rodríguez-Borlado e Gómez Álvarez. Esses três extremistas foram precisamente os autores do envio da carta-bomba à sede do EL PAÍS, em 1978. “O fato de eu os haver apresentado não significa nada. Não tive nada a ver com esse atentado. Colocar uma bomba é coisa de covardes. Eu defendo a violência direta. Se eu tiver de atirar em alguém, eu atiro. Eu gosto de dar a cara”.

Trabalhadores do EL PAÍS se manifestam depois do envio da carta-bomba contra o jornal que matou o contínuo Andrés Fraguas em 1978. ampliar foto
Trabalhadores do EL PAÍS se manifestam depois do envio da carta-bomba contra o jornal que matou o contínuo Andrés Fraguas em 1978.

De las Heras nega conhecer os autores dos atentados contra o El Parnasillo, o EL PAÍS e uma dezena de alvos atacados com explosivos. O currículo do bando também inclui bombas colocadas no Clube dos Amigos da Unesco; na sede da CNT; na casa de campo dos cantores Víctor Manuel e Ana Belén, em Torrelodones (Madri); na Associação Pró Direitos Humanos da Espanha e em oito livrarias, entre outros lugares. Mas a história o desmente. A polícia o apontou como cérebro e instigador desse grupo clandestino. Além disso, o extremista escondido no Brasil foi preso pela primeira vez em 1981, junto com eles. Na operação, também caiu Leocadio Jiménez Caravaca, condenado pela matança de Atocha, que em 1977 causou a morte de cinco advogados trabalhistas. Militantes da Frente de la Juventud, grupo de tendência nazista de apenas 150 pessoas, desmentem De las Heras. “Ele era o presidente e nos dizia o que tínhamos de fazer”, afirma um deles referindo-se a vários atos violentos.

Os rapazes de De las Heras usavam calça, camisa e boina azul. O grupo estava implantado em Madri, Valência, Valladolid, Ávila e Segóvia. Mais da metade dos atentados terroristas cometidos pelas tramas negras nas três primeiras cidades foram atribuídos à Frente de la Juventud, que operou com esse nome entre 1979 e 1981.

O fugitivo tinha múltiplos e poderosos apoios não apenas nos aparatos do Estado espanhol, mas também fora do país. Durante seus anos como secretário-geral da Fuerza Nueva, teceu uma rede de contatos com a extrema direita europeia e latino-americana. Chegou ao Brasil com cartas de recomendação para residir no Chile e no Paraguai, protegido pelas ditaduras de Augusto Pinochet e Alfredo Stroessner, o mesmo refúgio usado por outros extremistas e criminosos como Emilio Hellín, o assassino da jovem estudante Yolanda González. No entanto, ele achou que o Brasil era um lugar mais seguro.

ista geral depois da explosão de uma bomba no bar El Parnasillo, em Madri, em 1979. ampliar foto
ista geral depois da explosão de uma bomba no bar El Parnasillo, em Madri, em 1979.

Ele garante que recusou um emprego como gerente de uma empresa de pesca em Brasília, de propriedade de um espanhol cuja identidade esconde, mas acabou como cozinheiro num grande hotel em São Paulo. Ele se gaba de que durante os primeiros anos de fuga viajou pelo Brasil sem que a Interpol percebesse. “Interpol no Brasil? Ha, ha, ha. Ninguém “veio me buscar”. Admite que rompeu com tudo: família, amigos, trabalho. Diz só ser fiel às suas ideias e não as esconde. “Se no dia de 23 de fevereiro [tentativa de golpe militar na Espanha, em 1981] nós tivéssemos entrado no Congresso, teríamos matado gente e o golpe teria tido êxito. Mas escolheram Tejero, um cavalheiro”.

“Interpol no Brasil? Ha, ha, ha. Ninguém veio me buscar”

Dois policiais do bairro irrompem no estabelecimento e perguntam se tudo está em ordem. Durante dois dias notaram a presença de um carro desconhecido. “Esse carro prateado que estava na esquina hoje de manhã é de vocês? Que loucura! Na semana passada, com um fuzil, arrebentaram a cabeça de um rapaz que estava dentro de um carro aqui perto. Esse bairro é muito violento, há muitos traficantes de armas e de drogas. Aqui eles te dão um tiro em qualquer esquina. Principalmente em pessoas desconhecidas como vocês,” afirma o extremista.

De las Heras confessa na frente de sua atual esposa brasileira, uma mulher de cerca de 40 anos, que não pensa em voltar para a Espanha. “Estou vivendo em uma favela, mas os vizinhos gostam de mim e me respeitam”, diz. Ele se apresenta como alguém da comunidade. Todos os dias, perto das nove da manhã, sai de casa, uma das maiores e mais confortáveis do bairro, caminha até encontrar um táxi e vai ao mercado para comprar o cardápio de seu restaurante.

“Poderia ter sido um massacre terrível”

“Eles tinham acabado de instalar o ar condicionado. Poderia ter sido um massacre terrível. Estávamos quase todos dentro. Salomé morreu na hora. Eu estava no banheiro e o teto de gesso caiu na minha cabeça”, lembra Carmen Cañedo, testemunha presencial e cunhada da vítima do atentado realizado por membros da Frente de la Juventud contra o bar El Parnasillo, em 1979, numa rua do bairro Manuela Malasaña, em Madri. Os autores (os mesmos que antes fizeram um atentado contra o EL PAÍS) tinham escolhido o bar porque, segundo afirmaram, era frequentado por “marxistas, anarquistas e viciados”.

“A maioria era de acadêmicos. Jesús e Salomé tinham acabado de chegar de uma viagem pela Iugoslávia. Eram recém-casados. Jantamos todos juntos e decidimos ir ao El Parnasillo. Era um bar frequentado por progressistas, pessoas do PCE. Tínhamos uma relação superficial com os mortos no atentado de Atocha”, lembra.

Foi feita justiça? “Foi feita a justiça máxima que existia na Espanha naquela época. Foram anos trágicos. Temos a sensação de que aquele foi o preço que pagamos”, diz a advogada.

Sua vida não tem nada a ver com o protagonismo que teve durante a Transição. Na época, ele era delegado do SEU, sindicato de estudantes falangista, e mantinha contatos com o minúsculo grupo neonazista CEDADE (Círculo Europeu de Amigos da Europa). Também fortaleceu os laços com os neofascistas do Movimento Social Italiano (MSI), a Frente Nacional Francesa e grande parte da extrema direita na América Latina. Fala com naturalidade e carinho do policial torturador Antonio González Pacheco, Billy el Niño, –“uma grande pessoa”– e Juan García Carrés, líder do sindicato vertical franquista envolvido na tentativa de golpe de 23 de fevereiro, que chama de “Juanito”. O senhor conhece Emilio Hellín? “Não... O que esse aí fez?”.

O ex-secretário-geral, até 1978, do Fuerza Nueva admite com um leve sorriso que não está contando tudo que sabe. “Eu era um idiota na época. Quando você passa da teoria à ação, quando se compromete, muitos erros são cometidos”, reconhece esse homem que, antes de fugir da Espanha, passou dois meses na prisão, um deles por posse de armas.

–É sua a conta no Facebook que mostra uma escultura?

De las Heras demora uns segundos para responder. Medita. É uma das poucas perguntas que o fazem hesitar. “É... eu confesso. Gosto dessa imagem. A conta é minha”. O perfil desse homem, com atividade nula, fugitivo da Justiça espanhola durante mais de 30 anos, mostra El Portador de la Antorcha (o portador da tocha), uma escultura de 1942 de Arno Breker, um dos artistas favoritos de Adolf Hitler. A imagem do atleta representava o espírito do Partido Nazista e, há décadas, é um dos ícones da extrema direita.

Um currículo sanguinário que começa com a bomba no EL PAÍS

Dependências do EL PAÍS depois da explosão da carta-bomba que matou o contínuo Andrés Fraguas em 1978.
Dependências do EL PAÍS depois da explosão da carta-bomba que matou o contínuo Andrés Fraguas em 1978.

A sequência acontece logo cedo. Três funcionários do EL PAÍS separam a correspondência numa sala no quarto andar do jornal. São os contínuos Andrés Fraguas e Carlos Barranco, junto com o chefe de departamento, Juan Antonio Sampedro. Um pacote amarelo com um selo branco, amarrado com barbante vermelho fino e o logotipo da IBM atrai a atenção deles. O pacote tem um orifício através do qual saem uns fios. O envio está endereçado para o chefe da manhã, Julián García Candau. Sampedro desliza a tampa uns milímetros. E uma potente explosão inunda o local de fumaça. A explosão arranca a mão esquerda e destrói os intestinos de Sampedro. Sobrevive. Seu companheiro Fraguas, com os pulmões destruídos, morre horas depois. Tinha 19 anos.

A notícia mais trágica da história deste jornal foi escrita em 31 de outubro de 1978. Um atentado realizado no dia anterior pela extrema direita mutilou a vida do jovem contínuo Andrés Fraguas. A justiça condenou, por este ato, os extremistas de direita Pedro Bel Fernández, Rafael Gómez Álvarez e Ramiro Rodríguez-Borlado a 30 anos de prisão.

Os três faziam parte do grupo fascista pilotado pelo fugitivo José de las Heras Hurtado. E juntos participaram, em 1979, do atentado contra o bar El Parnasillo em Madri, no qual foi processado por homicídio o espanhol escondido no Brasil. De las Heras nunca foi julgado, porque fugiu em 1984 antes de começar o julgamento.

Através de alguns dos sequazes do fugitivo –a maioria jovens de vinte e poucos anos– foram perpetrados entre 1977 e 1984 os mais célebres episódios das tramas negras da extrema direita na Transição.

O mendigo Luis Arribas Santamaría descansava num banco no coração de Madri. Eram duas da manhã do dia 5 de julho de 1981. O mendigo esticou as pernas na calçada. Pedro Bel, que tinha saído para tomar uma última bebida com seu companheiro Rafael Gómez, presenciou o movimento. E sem uma palavra, deu um tiro na cabeça do homem. O indigente, de 49 anos, morreu quatro horas depois.

Carlos Idígoras Navarrete tinha passado num concurso na Empresa Ferroviária RENFE. Saiu para comemorar com amigos no bairro de Argüelles, em Madri. Era a noite de 7 de junho de 1981. Gómez e três outros extremistas o colocaram em seu carro para espancá-lo. Minutos depois, ele recebeu dois tiros fatais na cabeça. A polícia apreendeu o revólver, um Astra calibre 38, na casa do primeiro.

Félix Sanz Arroyo era apenas um garçom de 23 anos que circulava por Madri com seu Renault R4 em 26 de julho de 1981. Cruzou com o Seat 127 dos extremistas, que estava impedindo a passagem. E pediu que tirassem o veículo. Tinha pouca gasolina. Gómez não gostou da sugestão e disparou um tiro a poucos centímetros da cabeça. O disparo causou lesões na mandíbula. Demorou 281 dias para ficar curado.

O currículo dessa milícia fascista também tem atentados a bomba nas livrarias Fórum e Exprés, em Madri, acusadas de vender “livros marxistas”. E a colocação de um explosivo com 30 cartuchos de 150 gramas de amonite na federação local da CNT de Madri. Estes atentados não causaram mortes.

Gómez e Rodríguez-Borlado também manipularam os dois quilos de Goma 2 colocados na casa de campo do cantor Víctor Manuel San José em Torrelodones (Madri). “Víctor Manuel era comunista”, explicaram mais tarde para justificar este atentado sem vítimas. Menos sorte tiveram os trabalhadores do Clube de Amigos da Unesco. Rodríguez-Borlado enviou para a sede deles em Madri –“uma cobertura de marxistas”– uma caixinha de madeira embrulhada com barbante. O pacote escondia 250 gramas de Goma 2. A explosão arrancou a mão esquerda do interventor do organismo e provocou a perda de visão da bibliotecária.

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