Eleições no Peru

Keiko Fujimori perde vantagem e pesquisas dão empate técnico no Peru

Onda antifujimori e escândalos dos últimos dias parecem ter causado estragos a candidatura da filha do ex-ditador

Keiko Fujimori encerra a campanha em Villa El Salvador, Lima.
Keiko Fujimori encerra a campanha em Villa El Salvador, Lima.Juanjo Fernández

Até uma semana atrás, todas as pesquisas davam de 5 a 7 pontos de vantagem para Keiko Fujimori (Força Popular) contra Pedro Pablo Kuczynski (Peruanos pela Mudança, PPK). Parecia ser impossível conter a onda do sobrenome que domina a política peruana há 30 anos. Mas, no último momento, mais uma vez, a realidade do país confirma a sua enorme capacidade de surpreender, faltando um dia para as eleições presidenciais. As pesquisas registraram uma virada importante nos últimos dias – momento em que a legislação proíbe que sejam publicadas, mas em que elas foram divulgadas para a imprensa estrangeira –, com todas elas, apesar de pequenas divergências, detectando uma enorme diminuição na diferença entre os dois candidatos, chegando até a menos de um ponto percentual, embora Fujimori ainda continue à frente. Trata-se de um empate técnico – e tudo pode acontecer.

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A pesquisa da GFK, por exemplo, aponta para uma vitória muito apertada de Keiko, com 50,3% dos votos, ante 49,7% para Kuczynski. Ela foi realizada na quarta-feira e na quinta-feira. Há apenas uma semana, o mesmo instituto previa 52,2% de votos para Keiko, ante 47,8% para o PPK. A mudança é muito importante. O Datum, que realizou sua pesquisa um pouco antes, prevê 52,1% ante 47,9%, também com tendência a uma diminuição. A CPI, outra empresa de pesquisas, constatou uma diferença de 51,6% a 48,4% em favor de Fujimori e acredita que o  debate realizado no último domingo alterou a situação. O IPSOS decidiu deixar sua última pesquisa para este sábado.

Parece estar claro que o empurrão final do antifujimorismo e a decisão de Veronika Mendoza, dirigente da esquerda, de pedir votos para o PPK, alteraram as coisas. Os pesquisadores afirmam que antes havia votos nulos (provavelmente da esquerda) que agora migrariam para o PPK. Em Lima, o candidato do partido cresceu até 6 pontos percentuais. A mudança de estratégia do PPK, que passou a atacar Keiko de modo frontal e afirmou que com ela a ditadura voltaria e o Peru se tornaria um “narco-estado”, também tem surtido efeito, sobretudo depois do último debate, no domingo, vencido pelo PPK, de acordo com as pesquisas.

A manifestação maciça realizada terça-feira contra Fujimori, para a qual se mobilizou novamente toda a sociedade que rechaçou seu pai no passado, assim como os jovens, que foram os seus organizadores, também pode ter influenciado significativamente. Há, ainda, um outro aspecto relevante: Fujimori havia dominado totalmente a campanha diante de um PPK mais confiante, tanto assim que fez uma viagem de uma semana aos EUA para acompanhar a formatura da filha, mas nos últimos dias vários escândalos o levaram à ofensiva. Os meios de comunicação mais importantes, entre eles o poderoso diário El Comercio, foram muito duros em suas denúncias contra seu secretário-geral e maior financiador, Joaquín Ramírez, que foi obrigado a se afastar temporariamente depois de ser divulgado que ele está sendo investigado pela agência antidrogas dos EUA, a DEA. E seu candidato a vice-presidente, José Chlimper, até agora porta-voz e sua face mais contida, teve também de lidar com a imprensa por ter mandado para uma rede de televisão um vídeo manipulado na tentativa de inocentar Ramírez. Tudo tem se complicado nos últimos dias na campanha da Força Popular, que se choca agora abertamente com a imprensa. A candidata não tem dado entrevistas e evita os jornalistas ao máximo. Ao mesmo tempo, ela tem de enfrentar abertamente o seu próprio irmão, Kenji, que tem planos de sucedê-la no poder. Mesmo assim, Keiko continua sendo favorita para as eleições deste domingo.

Pedro Pablo Kuczynski em campanha em Lima.
Pedro Pablo Kuczynski em campanha em Lima. (Reuters)

As pesquisas indicam que PPK poderia protagonizar uma surpresa de última hora e promover uma virada, tal como aconteceu com Ollanta Humala em 2011, quando todas as pesquisas o mostravam com quatro pontos abaixo e, no último momento, ele ganhou cavalgando uma gigantesca onda antifujimori. Mas os próprios pesquisadores entendem que pode haver muitos votos ocultos em favor de Keiko, como aconteceu no primeiro turno, em que ela registrou entre dois e quatro pontos acima do que previam as sondagens. Faltam apenas algumas horas para saber se Keiko voltará a perder na linha de chegada ou se, desta vez, atingirá o seu objetivo.

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