Eleições no Peru

Pedro Pablo Kuczynski : “Com Keiko Fujimori, o Peru vai se mediocrizar”

Aos 77 anos, Pedro Pablo Kuczynski é a última oportunidade para frear as aspirações de Fujimori

Pedro Pablo Kuczynski, candidato à presidência do Peru nas eleições de 2016, na sua casa de Lima.
Pedro Pablo Kuczynski, candidato à presidência do Peru nas eleições de 2016, na sua casa de Lima.Juanjo Fernández

Na mansão de Pedro Pablo Kuczynski no melhor bairro de Lima, cheia de pinturas da escola cusquenha, escuta-se ao fundo uma flauta, antes de a entrevista começar. Quem toca é ele mesmo, que, além de ex-ministro, ex-banqueiro de investimento, primo de Jean-Luc Godard, homem curtido em mil batalhas, é músico e às vezes toca a flauta transversal nos seus comícios. Kuczynski é a última oportunidade de frear Keiko Fujimori, filha do encarcerado ex-autocrata Alberto Fujimori, apontada como favorita para o segundo turno da eleição presidencial, no próximo domingo.

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Pergunta. O que acontece com o Peru? Por que um país que encarcerou um ex-autocrata está prestes a eleger a filha dele?

Resposta. O que acontece é que há uma percepção de uma onda de criminalidade parcialmente causada pela droga, e ela (Keiko Fujimori) dá a impressão, por ser a filha do seu pai, que irá conter a insegurança. Além disso, o fujimorismo tem uma quantidade impressionante de recursos nem indagados nem explicados. Parte vem de dinheiro acumulado no exterior quando eles governavam, pela corrupção. A família do secretário-geral do seu partido [investigado pela agência antidrogas dos EUA] também parece contribuir bastante.

P. O empresariado peruano aceitou Keiko Fujimori?

R. O grande empresariado sempre esteve apaixonado por Fujimori, e quando [seu sucessor Alejandro] Toledo entrou os empresários ficaram em pânico, mas quando ele me colocou como ministro [da Economia] se acalmaram.

P. Difunde-se a ideia de que o senhor é o establishment e que Fujimori defende os pobres. Por quê?

R. Não sei se todos a veem assim. Eles têm uma máquina de marketing político impressionante nas zonas mais pobres. Ela sabe se vender bem, como o pai, que ia pelos povoados em um tratorzinho. Também é verdade que ela é uma mulher jovem, 41 anos, e eu sou um senhor muito mais velho [77].

Kuczynski durante um comício em Lima.
Kuczynski durante um comício em Lima. (EFE)

P. A idade jogou contra?

R. Ajudou-a, certamente não é meu ponto forte. Já expliquei que minhas tias viveram até os 98 anos, mas claro, eu não sou filho de minhas tias [ri].

P. Quando começou o segundo turno, o senhor estava na frente. Agora, cinco pontos abaixo. O que aconteceu?

R. Houve um congressista eleito [aliado do próprio PPK] que começou a dizer coisas contra nós, e nos custou. Depois aproveitaram o fato de que fui cinco dias aos EUA e fizeram campanha em cima disso. Foram pequenos erros.

P. Por que a imagem de Alberto Fujimori resiste, apesar de ele estar preso?

“Nos anos oitenta, foi aí que o Peru se ferrou”

R. A verdade é que eu não entendo isso. Muitos acreditam que Fujimori acabou com o terrorismo e que está preso injustamente. O Peru depois de 1990 ficou traumatizado pela hiperinflação do governo de Alan García e pelo terrorismo [do grupo maoísta Sendero Luminoso] a partir de 1980. Ela fica pendurada na memória do pai, há a ideia de que ele restabeleceu a segurança no Peru, e como a criminalidade sobe neste momento querem votar na filha.

P. O autoritarismo é bem visto neste país?

R. A América Latina tem antecedentes muito conhecidos de autoritarismo, do México à Argentina, e o Peru não é exceção a isso. Apesar de haver uma nova geração no Peru que tem uma visão distinta.

P. Quando tudo começou a desmontar, “em que momento o Peru se ferrou?” [frase célebre do personagem Zavalita no livro Conversa no Catedral, de Mario Vargas Llosa]?

R. A primeira estocada foi o Governo militar (1968-1978), que despovoou o campo. E depois os anos oitenta foram uma década perdida, por causa do problema da dívida latino-americana, terminamos com inflação altíssima, e foi aí que o Peru se ferrou. Então chegou Fujimori. Nos anos noventa, há uma guinada econômica, mas se descuida da parte institucional, destrói-se o sistema partidário, os sindicatos, a educação pública, tudo isso para economizar, porque não havia grana.

P. Por que Fujimori é uma ameaça para a democracia. O senhor realmente teme um narcoestado?

“O narcoestado está crescendo todos os dias”

R. O narcoestado está crescendo todos os dias, com um Judiciário que não está bem dirigido, a informalidade trabalhista muito alta [65%]. Além disso a droga se transferiu para cá pelo Plano Colômbia, que a tirou de lá. No fujimorismo há vários congressistas que aparentemente estão muito próximos desse grupo de gente [narcotraficantes].

P. O que acontecerá se eles chegarem ao poder?

R. Vamos ter um governo sem muita imaginação no aspecto econômico, muitos gestos duros para frear a criminalidade sem ir fundo no problema, que é a pobreza. A ameaça é que o Peru irá se mediocrizar.

P. Foi prejudicado pelo fato de ter apoiado Keiko em 2011?

R. Apoiei porque Chávez vinha ao Peru (apoiar Ollanta Humala). Agora tudo mudou. Humala afinal não foi por esse caminho de Chávez.

P. Mas agora o senhor só ganhará se receber os votos da esquerda para frear Fujimori.

R. Eu não sou antiesquerda nem pró-direita, é um mito que criaram. Gosto muito do apoio da esquerda, mas não do chavismo.

“Não fui um banqueiro tradicional, e sim um pioneiro dos mercados emergentes de 30 anos atrás”

P. Teria apoiado [a candidata esquerdista] Veronika Mendoza se ela chegasse ao segundo turno?

R. Bom, primeiro teria falado com ela sobre seu programa, para ver no que consistia.

P. O milagre econômico peruano de que se fala no exterior não chegou aos pobres? Por que esse descontentamento?

R. Há frustração porque as coisas não funcionam, não houve infraestrutura. As pessoas moram no morro, não têm água, não têm ruas. Está tudo bem atrasado em relação às expectativas que o crescimento gera. Mas dá para fazer, temos 4% de dívida [em relação ao PIB], a Espanha está em 100%.

P. Qual é sua motivação para disputar a presidência em vez de aproveitar vida e a sua fortuna?

R. Quero que o Peru aproveite o potencial que tem. Como é possível que depois de 25 anos de crescimento econômico dez milhões de pessoas não tenham água, e ninguém se preocupe com isso, exceto aqueles que não têm água? Eu poderia fazer outras coisas, mas viveria num castelo do Potemkin. Porque um país sem serviços básicos é inviável.

P. Foi prejudicado por participar de tantas empresas, por ter sido banqueiro?

R. Fala-se muito disso. Quando eu estava no First Boston, a primeira emissão de títulos da Espanha em Nova York fui eu quem fiz, a fusão do BBVA fui eu quem fiz; o primeiro fundo na Coreia, em Taiwan... Eu não era um banqueiro tradicional, e sim um pioneiro dos mercados emergentes de 30 anos atrás.

“Ela vai tirar Fujimori da prisão; vai esperar um pouco, mas vai tirar”

P. Nos debates, Keiko Fujimori transmitiu mais ambição pela vitória?

R. Ela tem bastante entusiasmo, sem dúvida. Mas se eu lhe disser: “Senhora Fujimori, articule-me seu programa econômico sem escutar a gravação que lhe fazem e sem ler o cartão”, não vai dizer.

P. É um grande produto de marketing?

R. Acredito que sabem se vender, assim como o velho, mas eu também sei me vender: uma pessoa de 77 anos que concorre a uma coisa destas e está pau a pau com ela, sem ter gasto grande coisa…

P. Se Keiko Fujimori chegar ao poder, vai tirar o pai da prisão?

R. Vai tirá-lo, certamente; vai esperar um pouco, mas vai tirá-lo.

P. Mas o senhor disse que também o tiraria da prisão.

R. Mas não falamos de indulto, e sim que cumpra o resto da pena em seu domicílio; eles estão pensando em anular o julgamento e tirá-lo pela porta da frente.

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