Crise na Venezuela

Lufthansa cancela voos a Caracas em razão do caos econômico

Companhia se junta a outras que deixaram de voar por problemas para repatriar os lucros

Fila em balcão da Lufthansa no aeroporto de Berlim.
Fila em balcão da Lufthansa no aeroporto de Berlim. (EFE)

O caos econômico na Venezuela cresce dia após dia e afeta cada vez mais empresas e consumidores. Além dos problemas gerados pela crise, companhias aéreas como a Lufthansa sofreram sérios problemas por não poder trocar os lucros obtidos em bolívares por dólares americanos para transferi-los ao exterior. O fim das únicas ligações aéreas entre a Venezuela e a Alemanha evidencia o crescente isolamento do país sul-americano. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que a economia deve se retrair 8% este ano e a inflação ameaça passar de 1.600% no próximo ano.

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A companhia aérea alemã afirma que se trata de uma decisão temporária, mas não especifica por quanto tempo ficará em vigor. “Por enquanto não está previsto o fechamento de nosso escritório central de Caracas. Não vamos deixar o país. Queremos continuar atendendo nossos clientes na Venezuela”, afirmam no comunicado. Além da Lufthansa, outras empresas como Air Canada, Alitalia, LAN (Chile), Gol (Brasil) e Tiara Air (Aruba) cancelaram suas operações na Venezuela em razão da dívida que mantêm o Governo de Nicolás Maduro com todas as companhias de bandeira estrangeira, impedidas de repatriar seus lucros.

A livre compra e venda de divisas está proibida desde 2003 e, por isso, as empresas transnacionais devem solicitar os dólares que desejam repatriar a um órgão oficial. Esse mecanismo não dava muitos problemas quando os preços do petróleo, que responde por 96% dos recursos do Estado venezuelano, eram elevados. Quando o valor das matérias primas começou a despencar, no entanto, o regime começou a cessar de forma seletiva seus pagamentos, acumulando cada vez mais dívidas com importadores de matéria-prima, de bens manufaturados e fornecedores de serviços. Essa situação explica a paralisação da produção de Coca-Cola no país, decisão anunciada na semana passada pela engarrafadora da empresa norte-americana na Venezuela.

A Coca-Cola Femsa, que opera quatro engarrafadoras e emprega 7.300 trabalhadores na Venezuela, alertou que suas fábricas estão consumindo o remanescente do estoque de açúcar. “Se a reposição não for feita logo, haverá interrupções temporárias na produção de bebidas com açúcar”, acrescentou. No fim de abril, as Empresas Polar tiveram de interromper a produção de cerveja porque o Governo não entrega os dólares necessários para adquirir a matéria-prima.

Dívida de 3.300 milhões

O presidente da Associação Venezuelana de Empresas Aéreas (ALAV na sigla em espanhol), Humberto Figuera, calcula que Caracas deve às companhias aéreas 3,7 bilhões de dólares (13 bilhões de reais). O montante da dívida é similar ao que a ALAV havia divulgado em 2014. “Agora as companhias aéreas não solicitam divisas porque a única forma de manter os voos para a Venezuela é vendendo as passagens pela internet”, afirmou Figuera a este jornal. Desde 2014 é praticamente impossível comprar um bilhete para o exterior em moeda local. Para minimizar os custos da operação, as companhias reduziram a frequência de seus voos e operam em aeronaves menores.

Outras empresas, como a American Airlines, reduziram a frequência de seus voos para o país em 77% em 2014. A companhia aérea norte-americana, que chegou a operar 48 voos semanais, hoje mantém apenas 10 e unicamente para Miami, o destino mais procurado pelos venezuelanos. A American Airlines eliminou suas rotas para San Juan (Porto Rico), Nova York e Dallas.

A medida da Lufthansa não é definitiva. “Mantemos estreito contato a fim de reinserir Caracas na rede mundial da Lufthansa o mais rápido possível”, acrescenta a empresa. Os passageiros que tinham reserva para voar com a companhia serão colocados nos voos que partem de Bogotá e Cidade do Panamá. O trajeto entre a capital venezuelana e esses destinos pode ser coberto com a parceria que a Lufthansa mantém com a colombiana Avianca e a panamenha Copa, que mantêm operações reduzidas no país. Já a chilena Latam, resultado da fusão entre LAN e Tam, pode cancelar as conexões entre Caracas e Santiago, Lima e Miami a partir de 31 de julho, segundo informações publicadas na imprensa sul-americana não confirmadas oficialmente.

UNASUL REÚNE-SE COM O GOVERNO E A OPOSIÇÃO

A. M.

A União de Nações Sul-americanas (Unasul) confirmou no domingo as reuniões que manteve separadamente com o Governo e a oposição da Venezuela em Santo Domingo, capital da República Dominicana, na sexta-feira. Os facilitadores, o ex-premiê da Espanha José Luis Rodríguez Zapatero e os ex-presidentes do país anfitrião, Leonel Fernández, e do Panamá, Martín Torrijos, buscam uma saída para a grave crise política e econômica que a nação sul-americana atravessa.

Segundo o organismo com sede em Quito, Equador, as reuniões exploram as possibilidades de um diálogo nacional. A Unasul manifestou satisfação com o apoio da comunidade internacional e pede que as outras nações “acompanhem respeitosamente a Venezuela nesta iniciativa de diálogo”, diz o comunicado. Enquanto o Governo afirma que não há tempo para organizar um referendo revogatório do mandato do presidente Nicolás Maduro, a oposição estabeleceu, como condição para conversar, que a data da consulta seja marcada. Como adiantou Rodríguez Zapatero em sua recente visita a Caracas, “o caminho do diálogo será longo, duro e difícil”.

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