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Obama visita um Vietnã comunista, mas que se aproxima dos EUA

Desconfiança de Hanói com China acelera aproximação gradual com Washington

O presidente dos EUA, Barack Obama, inicia neste sábado uma viagem a um Vietnã em acelerada transformação e cheio de contradições, que se aproximou gradualmente do seu antigo inimigo mortal. O país asiático acaba de realizar eleições legislativas, mas ainda mantém um regime comunista, que há apenas quatro meses renovou sua cúpula, ao mesmo tempo em que prorrogou o mandato do septuagenário líder Nguyen Phu Trong. Sua economia cresce e está cada vez mais aberta ao livre mercado, mas ainda carece de sindicatos independentes. É um país jovem e conectado, mas com um péssimo histórico de direitos humanos.

Depois do Vietnã, Obama viajará ao Japão para a reunião do G7 e visitará Hiroshima.

Um vietnamita, com um cartaz de Obama em Hanoi.
Um vietnamita, com um cartaz de Obama em Hanoi.

O Governo comunista vietnamita, teoricamente irmanado em termos ideológicos com o chinês, vê o seu vizinho do norte com profunda desconfiança. Embora a China seja seu principal parceiro comercial, disputa com ela a soberania das ilhas Spratly e Paracel, no mar do Sul da China. Em 2014, as relações sino-vietnamitas se tornaram tensas devido à presença de uma plataforma petroleira chinesa em águas reivindicadas pelos dois Governos. Desde então, as relações nunca se recuperaram, apesar da visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping, a Hanói, em outubro.

Em parte por causa dessa desconfiança contra seu vizinho gigante, Hanói vem estreitando os laços de segurança com outros países da região dos quais tradicionalmente manteve distância, do Japão à Austrália, passando por Cingapura e Filipinas.

Abertura econômica com cautela

Os novos dirigentes comunistas do Vietnã manifestam a sua intenção de manter, com cautela, uma abertura econômica que leva o PIB a crescer mais de 7% ao ano. Como parte da sua adesão ao TPP – que, segundo cálculo do Banco Mundial, contribuirá para um crescimento de 10% na próxima década –, o Governo vietnamita se comprometeu a promover reformas ao longo dos próximos cinco anos para permitir o direito à associação sindical.

Cidades como Ho Chi Minh, a antiga Saigon, são hoje um exemplo de dinamismo. Metade dos 94 milhões de vietnamitas tem acesso à Internet, e um terço da população está conectada a redes sociais como Facebook e Twitter. O investimento estrangeiro direto cresceu em torno de 40% no ano passado.

Mas as reformas ainda estão incompletas. As empresas estatais, como no gigante vizinho, representam ainda um peso importante – e uma mancha – na economia. As diferenças entre a relativa prosperidade urbana e a pobreza rural não param de crescer. E a "cautela" da qual falou o primeiro-ministro Nguyen Xuan Phuc não permite antever medidas drásticas contra esses problemas.

Mas, sobretudo, vem se aproximando dos EUA. “A firmeza cada vez maior da China no mar do Sul chamou seriamente a atenção vietnamita e provavelmente impulsionou o Vietnã a avançar mais rapidamente com os EUA do que faria em outras circunstâncias”, afirmou recentemente Murray Hiebert, especialista em Sudeste Asiático do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS), em Washington, numa conversa informal com jornalistas.

Os Estados Unidos são hoje o principal destino das exportações vietnamitas, recebendo 17% do total. O Vietnã é um dos integrantes do TPP, o tratado de livre comércio do Pacífico, formado por 12 países e impulsionado pelos EUA. Nguyen foi, no ano passado, o primeiro secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã a visitar a Casa Branca. Há dois anos, Washington já suspendeu parcialmente o embargo de armas que ainda vigora desde a guerra que confrontou os dois países, até 1975. E Hanói espera que, durante a visita de Obama, seja anunciada a eliminação completa, apesar de a Casa Branca ter sinalizado que essa decisão não foi tomada.

Pesa sobre a Casa Branca o histórico do Governo vietnamita quanto a direitos humanos, que a ONG Human Rights Watch qualifica de “terrível”. Os ativistas enfrentam intimidações, violência física e prisão, a polícia usa torturas para obter confissões, e o sistema de Justiça penal carece de independência. Os camponeses não recebem uma compensação adequada pela expropriação de suas terras para projetos de construção, e os trabalhadores não têm direito de associação, segundo a HRW. Os Repórteres Sem Fronteiras situam o Vietnã no 175ª. colocação mundial quanto à liberdade de imprensa, de um total de 180 países.

O Partido Comunista mantém seu rigoroso controle sobre o país, o que ficou claro nas eleições legislativas deste fim de semana, em que 500 deputados foram eleitos. Apesar de não ser a primeira vez que candidatos independentes concorriam – já aconteceu em 2011 –, foi a primeira ocasião em que o regime incentivou publicamente essas candidaturas. Mas as esperanças de uma liberalização política se viram frustradas com o anúncio de que apenas 11 candidatos independentes haviam sido aceitos, e que dezenas de outros foram descartados. E mesmo esses 11, segundo a oposição, são figuras próximas do Partido Comunista, que continua à frente do país 40 anos após o conflito.

Apesar disso, desde janeiro, quando o mandato de Nguyen foi prorrogado por mais cinco anos, a cúpula partidária tem empreendido uma transformação que Christian Lewis, da consultoria de análise de risco Eurasia Group, qualificou em nota como “drástica”. Ampliou o Politburo (órgão executivo) de 16 para 19 integrantes, dos quais 12 são novos membros. Dos mais de 200 membros do Comitê Central, aproximadamente metade se aposentou por idade, e rostos novos vieram em seu lugar. O presidente, o primeiro-ministro e a presidenta do Legislativo foram substituídos. “O poder está relativamente equilibrado dentro da elite, sem que nenhum político tenha substancialmente mais poder que outro dentro do Comitê Central”, observa Lewis.

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