Meirelles fala em medidas duras para economia e não descarta alta de impostos

Novo ministro da Fazenda priorizará reforma da Previdência e limite de gastos do Governo

Henrique Meirelles, novo ministro da Fazenda.
Henrique Meirelles, novo ministro da Fazenda. AFP

Henrique Meirelles, o novo ministro da Fazenda do Brasil desde esta quinta-feira, foi o primeiro ministro do Governo interino de Michel Temer a dar uma entrevista exclusiva. Na manhã desta sexta,  se reuniu com dezenas de jornalistas para confirmar o que já era meio que esperado: suas prioridade é reequilibrar as contas públicas, a reforma da Previdência e a criação de um teto de gastos para as despesas. E, eventualmente, aumentar os impostos caso seja necessário, muito embora possa acontecer de forma temporária.

Ciente da plateia que o aguardava, Meirelles dobrou o tom de cautela. O novo ministro da Fazenda explicou que sua equipe ainda está fazendo um diagnóstico da situação financeira do país que hoje vive uma das piores recessões de sua história e que estudos ainda irão detalhar, por exemplo, quais mudanças são as mais indicadas. Já é claro, por exemplo, que a idade mínima da aposentadoria vai mudar – hoje a média é de 55 anos – , só não se sabe qual será esse novo limite, mas é certo que vai subir. “Tenho pressa, por isso vou devagar”, disse ele pouco antes, numa entrevista exclusiva ao jornal matinal da Rede Globo. Isso porque Meirelles ainda não tem claro qual é a situação real das finanças que o Governo Dilma está deixando.

Na coletiva, disse que a reforma da Previdência é uma necessidade. “A Previdência tem que ser autossustentável ao longo do tempo", disse. E hoje, há mais gente sendo sustentada do que contribuindo, uma conta que não fecha.

O ministro explicou que é preciso pressa para voltar a colocar o país na rota do crescimento, mas também cuidado já que as novas medidas terão que ser concretas e consistentes para que não sejam revertidas no futuro. "As metas têm que ser anunciadas com realismo", declarou. Para Meirelles, já há, no entanto, uma reversão de expectativa para melhor com a troca de Governo.

Segundo o ministro, hoje o maior problema econômico é o aumento da dívida pública e, por isso, as ações necessárias para reverter esse quadro complexo precisam ser concretas e com grandes chances de aprovação no Congresso Nacional. Ele sabe que não pode errar, e o mercado está ávido por clareza de detalhes, algo que teria faltado à administração anterior. Por isso, não dourou pílula. Vem aí medidas de ajuste fiscal "duras". O ministro se mostrou confiante, no entanto, de que tanto a sociedade como o Congresso estão maduros para aceitá-las. "O que não é possível é continuar como está. O país está aguardando uma mudança no itinerário da economia. Existe uma demanda da sociedade para a reversão na trajetória da economia, do emprego e da renda". Para Meirelles, a sociedade também está preparada para ouvir uma avaliação realista da situação do país.

Questionado sobre a época em que assumiu o Banco Central em 2003, no Governo Lula, ele disse que cada momento é diferente do outro, mas tratou de passar uma mensagem tranquilizadora: “o Brasil já enfrentou situações muito difíceis e conseguiu superá-las. Agora não será diferente.”

Revisão de subsídios

Meirelles indicou que o Governo poderá rever as desonerações e subsídios concedidos a diversos setores no primeiro mandato de Dilma (2011-2014) pelo ex-ministro Guido Mantega. À época, a concessão visava evitar que os empresários promovessem demissões. Essa conta, no entanto, teve um custo alto, pois o Governo deixou de arrecadar bilhões de reais que hoje fazem falta. "É importante que tenhamos uma redução relevante na conta de subsídios. É a mesma coisa que falei para a situação geral de evolução da dívida pública", disse.

Sobre os programas sociais, o ministro afirmou que pretende mantê-los, mas que eles devem também passar por uma reavaliação rigorosa do uso desses recursos.

Para evitar as tentações futuras, Meirelles trabalha a ideia de estabelecer um teto para os gastos do Governo. "É importante trabalhar com a hipótese de fixação de limites nominais", mas voltou a dizer que os detalhes estão sendo estudados. Meirelles também não descartou a possibilidade da adoção de impostos temporários. "O nível tributário do Brasil é elevado e, para que o país volte a crescer, é importante que tenhamos uma diminuição do nível de tributação. Mas também é importante hoje o equilíbrio fiscal. Assim, caso seja necessário algum tributo, ele será aplicado e, certamente, será temporário".

Durante a entrevista, ele informou que irá anunciar na segunda-feira, os nomes de sua equipe e do novo presidente do Banco Central. Nos últimos dias, o nome mais cotado nos bastidores para o cargo era o do economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfjan. No entanto, ao ser questionado, Meirelles evitou dar nomes que poderiam substituir o atual chefe do BC, Alexandre Tombini. O único nome relevado foi o de Tarcísio Godoy, que vai assumir a secretaria-executiva do Ministério da Fazenda.

E a crise? Tem fim?

Quando questionado se já é possível estabelecer uma data para o fim da crise, Meirelles disse que ainda é difícil fazer qualquer previsão, mas que, após a adoção das medidas necessárias os resultados aparecerão. "Em 2003, por exemplo, se esperava uma situação muito prolongada e a queda da atividade durou cerca de seis meses (..). Não estou dizendo que serão seis meses nem um mês nem um ano, mas na medida que se toma as medidas o resultado aparece".

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