O pronunciamento de Dilma na íntegra

Presidenta afastada se dirigiu ao público ao deixar o Planalto. Lula, Rui Falcão e outras lideranças a acompanharam

Pronunciamento Dilma
AFP

AO VIVO | Impeachment: Dilma Rousseff se defende no Senado

Presidenta afastada discursa no Congresso contra o impeachment. Dilma disse não cometeu crime de responsabilidade e, portanto, não merece deixar de vez o Palácio do Planalto. “Hoje eu só temo a morte da democracia”, afirmou. Acompanhe.

Leia a íntegra do discurso de Dilma no Senado

A presidenta afastada Dilma Rousseff falou aos senadores por cerca de 40 minutos.

A presidenta afastada Dilma Rousseff fez breve pronunciamento nesta quinta-feira, por volta do meio dia, ao deixar o Palácio do Planalto. Leia abaixo a íntegra:

"A tristeza é que vivemos uma hora de em que a jovem democracia está sendo alvo de um golpe. Porque chamo de golpe? Chamo de golpe porque o impeachment sem crime de responsabilidade é um golpe. Aqueles que não conseguiram chegar aqui ao palácio – por favor gente deixa eu ver o pessoal. Esse processo é um golpe porque é um impeachment sem crime. Eu não cometi crime de responsabilidade, estou sendo vítima de uma grande injustiça. Aqueles que não conseguiram chegar ao Governo pelo voto direto do povo, aqueles que perderam as eleições tentam agora pela força chegar ao poder. E esse golpe está baseado nas razões as mais levianas, as mais injustificáveis. Primeiro porque os atos de que me acusam são atos corriqueiros, que se faz todo dia. Foram feitos por todos os presidentes que me antecederam. Se não era crime naquela época, não é crime agora. Além, disso quem começou a esse golpe o fez por vingança, porque nós nos recusamos a dar a ele, ao senhor Eduardo Cunha, os votos na Comissão de Ética para que ele fosse absolvido. A própria imprensa noticiou isso fartamente. A própria imprensa disse que ele estava fazendo chantagem contra esse governo. E eu não sou mulher para aceitar esse tipo de chantagem.

O que está em jogo nesse golpe é a democracia é a nossa Constituição. Uma democracia feita com a resistência de milhões de brasileiros. Mas o que está também em jogo nesse golpe é todas as conquistas que tivemos nos últimos 13 anos desde o Governo do presidente Lula. Todas as conquistas, e as conquistas foram muitas, foram a elevação dos mais pobres e da classe média, a proteção às crianças, o jovem chegando à universidade, foi o pré-sal, e tantas outras coisas. Foi um programa que foi eleito quando eu fui eleita, que garante as políticas sociais. Hoje o que eles estão tentando é acabar ou reduzir as políticas sociais. Usam de vários qualificativos: “Nós vamos focar, nós vamos rever”. Todas essas palavras tem um só significado: “Vamos diminuir, vamos reduzir, até acabar com elas”. Tenho a honra no meu Governo de ter sido a fiadora da democracia. Meu Governo jamais reprimiu movimentos sociais. Jamais reprimiu manifestações políticas, mesmo as que eram contra mim. O que é o risco que nós corremos agora? O que faz um governo ilegítimo diante de protestos, diante da divergência, de movimentos contrários, e isso a historia demonstra. Sabe o quer faz um Governo ilegítimo assim? Cai na tentação de reprimir as manifestações.

Eu fui a primeira mulher eleita presidenta da República. Honrei os votos que as mulheres me deram. Depois do primeiro operário presidente da República. Como qualquer pessoa humana, posso ter cometido erros, mas jamais cometi crimes. Honrei as mulheres deste país. As mulheres que são determinadas, esforçadas, trabalhadoras, que vivem em seu cotidiano desafiando todas as dificuldades. As mulheres mães, que hoje querem sua independência, sua autonomia, o controle de si mesmas. Essas mulheres, tenho a consciência que as honrei. Porque nós mulheres temos algo em comum. Nós mulheres somos dignas. Assim como todas as mulheres eu enfrentei desafios.

Eu quero dizer a vocês que ao longo da minha vida enfrentei muitos desafios. Enfrentei o desafio terrível e sombrio da ditadura e da tortura. Eu enfrentei a dor indizível da doença. Agora o que mais dói, é esta situação que eu estou vivendo agora, a inominável dor da injustiça. A profunda dor da injustiça, a dor da traição. A dor diante do fato que eu estou sendo alvo são duas palavras terríveis: traição e injustiça. São talvez as mais terríveis palavras que recaem sobre uma pessoa. E esta hora agora, este momento que estamos vivendo, é um momento em que as forças da injustiça e da traição estão soltas por aí. Quero dizer pra vocês que eu estou pronta para resistir por todos os meios legais. Quero dizer a vocês... Quero dizer a vocês, que eu lutei a minha vida inteira e vou continuar lutando. Acredito que nós todos temos de estar juntos. E agradeço a todos os movimentos, a todas as pessoas que foram para as ruas todos os dias dizer um não imenso, um não do tamanho do Brasil ao golpe. Agradeço a cada mulher, a cada homem, a cada trabalhador trabalhadora, do campo e da cidade, profissionais liberais, artistas e intelectuais que estiveram do lado certo da historia, do lado da democracia. Tenho certeza que juntos, vamos nos manter unidos, organizados e em paz. Somos aqueles que sabem lutar a luta cotidiana. Que sabem resistir e que não desistem nunca. Quero agradecer nesse momento triste, muito triste da minha vida. Obrigado."

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