A sombra da Petrobras que alimentou a queda de Dilma

O escândalo não afeta diretamente a presidenta afastada, mas chegou à cúpula de seu partido e seus aliados

Dilma Rousseff ganhou as eleições de outubro de 2014 passando com a ponta dos pés pelo escândalo de corrupção na Petrobras. A investigação, naquele momento, mal chegava em personagens secundários e diretores da empresa e, mesmo Dilma fazendo parte do Conselho da petrolífera na época mais lucrativa da rede corrupta, evitou todas as acusações que poderiam comprometê-la apelando a uma “honestidade” que até mesmo seus inimigos defendem até hoje.

A presidenta Dilma Rousseff e a presidenta de Petrobras, Graça Foster.
A presidenta Dilma Rousseff e a presidenta de Petrobras, Graça Foster. AP

A polícia, entretanto, continuou investigando em seus escritórios e conforme os acusados delatavam seus comparsas, o cerco se fechava em torno da presidenta e o PT, que sofreram um inevitável desgaste. As primeiras manifestações populares contra o Governo, iniciadas no dia seguinte a sua vitória eleitoral e que tinham como bandeira a luta contra a corrupção, se alimentaram – se coroando como as maiores da história democrática brasileira – graças aos vazamentos, às vezes seletivos, dos detalhes da investigação.

As investigações nesses dois anos chegaram até as altas esferas do PT. O tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, foi preso por lavar o dinheiro dos subornos que exigia para a sigla; o líder do partido no Senado, Delcídio Amaral, acaba de ser cassado após sua prisão por prejudicar a investigação; o ex-presidente Lula é suspeito de receber presentes das empresas envolvidas na trama e o idealizador das campanhas do partido desde 2006, o publicitário João Santana, está na prisão, acusado de receber dinheiro de procedência ilegal para financiar os períodos eleitorais.

Até hoje, e apesar de tudo, não existem acusações de enriquecimento ilegal contra Dilma – apesar da promotoria querer que se investigue se interferiu nas investigações –, mas sim contra os que articularam sua destituição. Aécio Neves, seu rival nas eleições pelo PSDB, está sendo investigado por receber subornos mensais; Eduardo Cunha, o ex-presidente do Congresso que viabilizou o impeachment, é acusado de possuir várias contas secretas e milionárias na Suíça, infladas com o dinheiro ilegal da Petrobras. O próprio presidente do Senado, Renan Calheiros, do PMDB, antigo aliado do Governo, bate o recorde de investigações com 11 processos abertos contra ele, assim como Romero Jucá, presidente nacional no partido e novo ministro no recém-iniciado governo, com seis investigações com seu nome.

A inocência do atual presidente interino, o vice-presidente Michel Temer, do PMDB, também não é certa, mesmo que não esteja sendo investigado. Temer foi citado nas declarações de vários acusados dos casos de corrupção por receber subornos de empreiteiras e intermediar a indicação de cargos em áreas estratégicas da petrolífera.

Na quinta-feira, ao se despedir do poder, Dilma repetiu um mantra para que chegue aos livros de história: “Nunca permiti a corrupção, nunca recebi subornos e não tenho contas no exterior”.