Guerra na Síria

Ataque a hospital na zona rebelde de Aleppo deixa dezenas de mortos

Entre as vítimas há três crianças e três médicos, incluindo o último pediatra que restava na região Mediador da ONU pede a Putin e Obama que intervenham para salvar trégua na Síria

Criança junto ao cadáver de um parente depois do bombardeio em Aleppo. K. A. (AFP) (reuters_live)

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A esperança de paz na Síria caminha pela beira do abismo após a escalada de ataques que solaparam uma trégua em vigor há dois meses. Bombardeios aéreos nesta quinta-feira em Aleppo mataram pelo menos 27 pessoas no hospital Al Quds, que recebe assistência da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). Entre as vítimas há três crianças e três médicos, incluindo o último pediatra que restava na zona rebelde da cidade. Metade do total de mortos foi vítima do desabamento de um prédio vizinho, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos, que não identificou os aviões responsáveis pelo bombardeio, mas observou que só o regime de Bashar al Assad e seus aliados russos contam com aviões de combate nesse conflito. Bombardear um hospital constitui crime de guerra.

“Condenamos a destruição do hospital Al Quds, perfeitamente identificado como alvo proibido, o que priva a população de atendimento médico básico”, afirmou o MSF em nota. “Foi um ataque aéreo da aviação russa com dois poderosos foguetes”, relatou um ativista local ouvido pela BBC em Aleppo. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha alertou que a escalada bélica ameaça causar uma catástrofe, dada a impossibilidade de prestar ajuda humanitária à cidade.

Os combates se generalizaram durante a última semana em Aleppo, principal cidade do norte da Síria, onde, segundo o Observatório, mais de cem civis morreram em bairros controlados pela oposição, e cerca de 50 nas áreas sob poder das forças governamentais. O El Watan, um dos principais jornais do regime sírio, anunciou nesta quinta-feira uma ofensiva imediata para “completar a libertação de Aleppo e sua província”, derrotando “aqueles que pensam em dividir o país”.

Horas antes do bombardeio, o mediador da ONU para Síria, Staffan de Mistura, havia feito um apelo aos presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e da Rússia, Vladimir Putin, para que pressionassem as partes beligerantes a respeitarem uma trégua que “mal se sustenta” e revitalizarem o processo de paz nas conversações de Genebra. A segunda rodada de negociação terminou na quarta-feira, depois de na semana passada o Alto Comitê de Negociações, que agrupa a maior parte da oposição, abandonar o Palácio das Nações por causa da interrupção na trégua. De Mistura anunciou que não fixará data para o início da terceira fase, no mês que vem, até que o cessar-fogo em vigor desde 27 de fevereiro volte a se consolidar. Para isso, ele considera necessária uma nova reunião do Grupo Internacional de Apoio à Síria, integrado pelas principais potências mundiais e regionais e por vários países ocidentais.

O regime de Al Assad e Moscou se amparam no fato de a Frente Al Nusra (braço da Al Qaeda) ter se aliado com vários grupos rebeldes salafistas para prosseguir com os bombardeios no norte do país. Tanto a Al Nusra como o Estado Islâmico (EI) foram excluídos pela ONU do cessar-fogo, ao serem qualificados como terroristas. A Rússia agora pediu que dois grupos da oposição integrados na delegação negociadora rebelde do HNC – o Jaish al Islam e o Ahrar al Sham – também sejam incluídos na lista de movimentos jihadistas.

Pelo menos 20 pessoas morreram na noite de quarta-feira em um hospital de Aleppo (Síria) apoiado pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), após ser atingido diretamente por bombas durante um novo ataque aéreo na cidade, segundo os serviços de defesa civil. Inicialmente, a organização anunciou pelo Twitter que 14 pessoas tinham morrido, enquanto o Observatório Sírio de Direitos Humanos eleva a 27 o número de mortos no hospital Al Quds, que oferecia “cuidados básicos”. O MSF, que condenou o ataque, informou que o número de mortos deve continuar a subir.

Entre as vítimas fatais estão dois menores de idade, o último pediatra que restava nessa zona rebelde, outros dois médicos e dois seguranças do hospital. Por causa do ataque, o local ficou completamente destruído e parou de funcionar. O resto dos mortos é de pacientes. O MSF informou que ali atuavam oito médicos e 28 enfermeiras.

A ONG afirmou que continuam sendo feitos os trabalhos de resgate para encontrar desaparecidos sob os escombros do edifício, que está localizado no bairro de Al Sukari. Segundo a entidade, o bombardeio foi realizado por aviões militares, mas não se sabe a origem dos equipamentos.

Nos últimos meses, tanto a Força Aérea síria como a russa realizaram ataques aéreos contra a cidade, a maior do norte do país árabe. Na madrugada passada, o enviado especial da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, anunciou que um ataque aéreo contra um hospital no leste de Aleppo “provavelmente teria terminado com a vida do último pediatra” da região.

O mediador da ONU fez referência a esse caso para pedir para que Rússia e Estados Unidos unam seus esforços para dar novo vigor à trégua na Síria e salvá-la “do colapso total”.

“Faço um apelo à Rússia e aos Estados Unidos para que tomem uma iniciativa urgente para relançar a trégua, que neste momento está ameaçada”, disse De Mistura em uma entrevista coletiva, após informar por teleconferência ao Conselho de Segurança da ONU o resultado da terceira rodada de negociações de paz concluída na quarta-feira.

Nas últimas semanas, a violência aumentou em Aleppo, apesar de estar em vigor na Síria um cessar-fogo entre o Governo em Damasco e a Comissão Suprema para as Negociações (CSN), principal aliança de oposição.