A batalha do Impeachment

Lula abraça a campanha no Rio

Ovacionado por milhares de pessoas na Lapa, ex-presidente promete "recuperar o Brasil"

Lula, durante seu discurso contra o impeachment no centro do Rio.
Lula, durante seu discurso contra o impeachment no centro do Rio.FERNANDO MAIA (EFE)

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Ovacionado por admiradores com lágrimas nos olhos, Lula discursou por mais de 35 minutos. Criticou seus inimigos políticos, parceiros até pouco tempo atrás e “que há um ano e quatro meses que não dão trégua” à presidenta Dilma Rousseff; rechaçou a mídia “que inventa capas” contra ele, e a elite que ovaciona “o democrata Bolsonaro” nas manifestações e não gosta de “ver pobre nos shoppings e nos aviões”; Lula apelou às conquistas que ainda devem ser alcançadas pelos negros e criticou à polícia com “mentalidade de branco” que os mata.

Lula discursou contra o “golpe”, mas também exaltou seu tempo na presidência –“eu vou passar a história como o presidente que mais universidades fez neste país”. Na que foi sua primeira aparição pública após ser divulgada a pesquisa de Datafolha que o coloca, junto a Marina Silva, como líder na intenção de voto dos brasileiros, o ex-presidente adotou ares de campanha e defendeu uma política econômica para os pobres, a regulação da mídia e até falou do aborto: “Eu sou católico, cristão, e até conservador. Se me perguntar pelo aborto, eu, como marido de dona Marisa e pai de cinco filhos sou contra. Mas como presidente da República eu vou tratar como uma questão de saúde pública”. A multidão o respondia com cânticos: “Lula, ladrão, roubou meu coração” e “Lula, guerreiro, do povo brasileiro”.

Para o ex-presidente, “a companheira Dilma aprendeu uma lição” ao entender que sua política econômica desde que foi reeleita “foi para atender o mercado”. “O mercado dela não é o banqueiro, é o povo consumidor, é o trabalhador, o cara que vai comprar carne. É o cara que vai no supermercado”, exclamou Lula, que afirmou que aceitou ajudar a presidenta na articulação política, com a condição de mudar os planos econômicos de ajuste iniciados por Dilma.

Acompanharam Lula no ato parceiros como Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), a cantora Beth Carvalho, Chico Buarque, o humorista Gregório Duvivier ou o teólogo Leonardo Boff, assinantes de um manifesto contra a "ameaça à democracia", que encarnaria o impeachment contra Dilma Rousseff. "Nós vamos recuperar esse país", prometeu o petista.

Era um discurso à imagem e semelhança daqueles mobilizados contra o impeachment: intelectualidade de esquerda, progressista nos costumes, contra o ajuste fiscal, ao lado de outros que enxergaram em seu Governo a defesa de agenda de minorias e da mobilidade social. Foi para eles que recuperou, em seu discurso, projetos que não encampou em seu Governo – nem foram levantados como bandeira por Dilma –, como a regulamentação do mercado de mídia ou avanços na legislação do aborto. A promessa de guinada à esquerda, também acenada na eleição de 2014, mas não cumprida, volta com força na nova campanha. Caso o Planalto sobreviva ao impeachment, será um desafio cumpri-las por causa da crise econômica e das contas públicas, sem falar da dependência do Planalto do apoio pulverizado de siglas conservadoras como PP e PR. Por isso, analistas dizem, com alguma ironia, que melhor seria perder essa batalha no Congresso para seguir em campanha para 2018.

Lula também se defendeu das acusações que pesam contra ele, no âmbito da Operação Lava jato, de ter se beneficiado dos favores das empreiteiras envolvidas no esquema corrupto da Petrobras – “Inventaram o sítio e disseram que é meu. Para ser meu eu tenho que pagar, eu tenho que ter escritura”– e fez um apelo à unidade dos brasileiros. “O Brasil não pode ser dividido entre aqueles que se acham brasileiros porque colocam uma camisa verde-amarela e os bandidos colocam vermelho. A gente não pode dividir a sociedade do jeito que está. Nós temos que dar a demonstração de paz. Este já foi o país mais feliz do mundo. Lembro da choradeira nacional quando a gente conseguiu as Olimpíadas lá em Copenhague. Mas agora me parece que todo ruiu quando a Dilma ganhou as eleições em 2014”.

Aos oposicionistas, o ex-presidente disse: “Aprendam com Lula. Saibam esperar. Lula esperou 12 anos para chegar lá [na Presidência]. E chegou lá para provar que é possível o torneiro mecânico governar este país com mais competência que alguns que têm diploma universitário [...] Nós mudamos a lógica de que o pobre nasceu para ser pedreiro. Nós colocamos pobres da periferia, negros, índios, meninos meninas que jamais poderiam estar na universidade a disputar vaga nas melhores universidades deste país. E o que estes meninos estão provando? Que não tem essa do cara ser rico e ser mais inteligente que o pobre. Diferença é que antes a universidade era só para eles”.

Na primeira fila, apertando-se contra a grade, Glória Cristina Santos, neta e filha de catadores de 40 anos, ovacionava sem descanso cada fala do ex-presidente. Negra, nordestina e pobre, era como se o discurso de Lula tivesse sido escrito para ela. “Eu sou catadora e só consegui ver reencontrar minha família no Recife com o Governo do PT, foi a estabilidade econômica deles que me permitiu rever minha família depois de muitos anos. Minhas sobrinhas e minhas primas vão na universidade e hoje tenho certeza de que não terá na minha família uma quarta geração de catadores”.

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