Manifestações na França

Movimento dos indignados ganha força na França

Ocupação da Praça da República, que surgiu após protestos contra a reforma trabalhista, completa uma semana

Protesto na Praça da República de Paris. Christophe Ena (reuters_live)

Todas as forças foram concentradas para a jornada deste sábado. As entidades de estudantes, a Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT) e a Força Operária (FO) convocaram uma nova manifestação contra a reforma trabalhista, que serviu para cristalizar as demandas do movimento ainda em formação. No final da manifestação, o NuitDebout convocou todos para ocupar a praça, onde têm permissão para permanecer até domingo à noite. Em paralelo, o movimento também convoca toda a Europa para se unir à iniciativa. Outras cidades francesas, como Toulouse, Nantes e Marselha, já aderiram.

Mais informações

O movimento #NuitDebout nasceu em 31 de março, depois de uma grande manifestação contra a reforma trabalhista. Portanto, de acordo com o calendário dos indignados, a última sexta-feira foi 39 de março. No entanto, sua semente organizacional remonta ao dia 23 de fevereiro, quando foi convocada uma marcha em razão do documentário Merci Patron! (Obrigado, Patrão!), do jornalista militante François Ruffin. "Percebemos que todos lutávamos separadamente. Nasceu a ideia de unir os combates. A reforma trabalhista, que representa mais insegurança para os trabalhadores, foi a gota d’água. O que queremos é mudar o sistema", afirma Sophie Tissier, do coletivo Convergence des luttes (Convergência das Lutas), criado após aquela reunião e que convocou a ocupação na Praça da República. "Foi um momento mágico, senti que algo estava nascendo, que fazíamos Política com maiúscula", acrescenta a jovem, assistente de câmera.

O movimento se classifica como horizontal, desvinculado de qualquer partido político e sem nenhum líder evidente, embora algumas figuras comecem a se destacar, como o economista e filósofo Frederic Lordon. Desde o início, recebeu o apoio da conhecida associação Droit Au Logement (Direito à Habitação), muito ativa na luta contra os despejos. Foi uma das três organizações que apresentaram o primeiro pedido de ocupação da praça, ao lado do grupo de alterglobalização Attac e do sindicato SUD Solidaires.

Na Praça da República de Paris, a assembleia diária ocorre às 18h, no canto sudeste. Enquanto isso, como o passar dos dias, a metade norte é preenchida com lonas onde se instalam desde uma "cantina rebelde" até a editora alternativa Libertalia. Na barraca de boas-vindas, são recolhidas as diversas "iniciativas coletivas" e "convergência de lutas" do dia, como a reunião da comissão "voto em branco" e ações específicas previstas em diferentes partes da capital. Ao lado, uma grande tenda com um letreiro Refugees Welcome (Refugiados são bem-vindos) aguarda o grupo de refugiados sudaneses, que chega geralmente tarde da noite.

Na quarta-feira foi lançada a rádio do movimento, que pode ser ouvida pela Internet e dá voz aos cidadãos que vão para a praça. Na tarde de quinta-feira foi a vez da televisão, iniciativa lançada com a mesma ideia. Um sofá branco e um cartaz de papelão, com as palavras TV DEBOUT, servem de plataforma para a expressão de diversos grupos. Desde o início, as assembleias são transmitidas ao vivo pela Internet através do aplicativo Periscope, permitindo que dezenas de milhares de pessoas que não podem ir à praça acompanhem as reuniões.

À margem da assembleia principal, as comissões criadas diariamente organizam seus próprios debates em menor escala em diferentes cantos da praça. Ao cair da noite, a reunião ganha ares de festa, com música de tambores de um lado e charanga em outro. Os vendedores ambulantes de comida aproveitam a concentração para trazer seus caminhões. Todas as manhãs, os voluntários têm de desmontar as barracas para permitir que as equipes da prefeitura limpem a praça. À medida que o dia passa, as barracas voltam a ser montadas.

A reforma trabalhista tem sido um catalisador para os indignados de Paris, mas as preocupações expressadas na praça abrangem muito mais coisas: o estado de emergência decretado na França após os ataques jihadistas de 13 de novembro — ainda em vigor —, a falta de solidariedade em relação aos refugiados, a denúncia do discurso do medo do poder político e a crítica ao sistema capitalista e à economia liberal em geral. "Temos de mudar de modelo e de sistema, reconstruindo tudo localmente", resume Vanya, uma jovem franco-búlgara que vai todos os dias à praça com o marido Samuel.

Alguns políticos de esquerda também foram ao longo da semana. Alguns incógnitos (caso do primeiro-secretário socialista, Jean-Christophe Cambadélis), outros tomaram a palavra (como o secretário nacional do Partido Comunista, Pierre Laurent), mas todos compareceram como simples cidadãos, e não como representantes de uma força política, de acordo com os organizadores. O movimento também recebeu o apoio explícito do partido espanhol Podemos, com conselhos de membros do grupo em Paris, embora também garantam que a iniciativa não está relacionada ao partido, sendo apenas uma contribuição de cidadãos comuns.

"Este movimento na França tinha de acontecer, porque todas as condições estão reunidas", diz o jovem sociólogo Geoffrey Pleyers, pesquisador da Universidade de Lovaina, na Bélgica, que acompanha de perto esse tipo de protesto. "Primeiro, há um Governo de esquerda que coloca em prática medidas de direita. Por isso, a questão da preocupação com o futuro dos jovens está muito presente", acrescenta. "Além disso, esta é uma cidade global, as pessoas que viveram o 15-M estão muito presentes e há uma sede de aprender com elas", diz.

"A sorte que temos é que podemos ser mais inteligentes graças à experiência da Espanha, às redes sociais e à Internet," confirma Raphaël Millon, professor de educação física, de 45 anos. "Recebemos muitos conselhos dos espanhóis, por exemplo, como não eternizar as assembleias. Acima de tudo, precisamos exportar o movimento para fora da Praça da República, para os bairros, envolver as pessoas. Isso é muito importante", acrescenta. "O que acontecerá agora dependerá da resposta das instituições e se vão conseguir sair da República", confirma Arantxa, que participou do 15-M e ajuda a nível pessoal. "Isso vai levar algum tempo, não acontece da noite para o dia", conclui.