Olimpíada rio 2016

Luca Dotto, o modelo italiano que quer chegar ao pódio no Rio

O nadador prepara seu ataque nos Jogos do Rio, planeja seu futuro na piscina e estreia como modelo

Luca Dotto posa em exclusiva para EL PAÍS.
Luca Dotto posa em exclusiva para EL PAÍS.Pawel Pysz

Quando começava a despontar nas competições de natação, Luca Dotto (Camposampiero, Itália, 1990) era chamado de Kimi, como Räikkönen. Por ser veloz e ser fã. “Adoro a Fórmula 1, é meu esporte favorito”, afirma. “Além disso, gosto de sua personalidade: sempre sério, reservado e econômico nas declarações à mídia, embora não sejamos nada parecidos.” O nadador mais promissor do estilo livre italiano é também um sujeito descontraído e de inegável fotogenia que, neste ano, se tornou embaixador do Aquapower, uma marca de hidratante da Biotherm Homme. “Gosto de posar e trabalhar ocasionalmente como modelo. É um mundo fascinante. Antes, a moda e a imagem eram indiferentes para mim, pareciam fenômenos muito superficiais, mas, quando fiz a minha primeira campanha para a Armani [há três anos], percebi sua importância. Que emprega muitas pessoas. Agora me sinto orgulhoso de que as marcas confiem em mim.”

A sessão de fotos acontece em Madri, durante uma das poucas lacunas deixadas por seu intenso programa de treinamento. Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro estão muito próximos, mas, para participar da competição, é preciso passar antes pelas etapas classificatórias dos campeonatos nacionais. “É um objetivo fundamental para minha carreira, e estou completamente focado na natação, treino seis horas por dia e, no resto do tempo, como e durmo. Os nadadores sempre estão cansados”, diz.

"Na escola, meus professores não eram muito compreensivos, porque na Itália há pouca cultura desportiva, e a percepção é que o esporte rouba o tempo que se dedicaria ao estudo. Recebi esse rótulo desde o princípio, e as coisas não foram fáceis, mas sempre fui bem"

Nascido em uma pequena cidade na região de Pádua, Dotto estreou na piscina muito pequeno e de uma forma que seria traumática para qualquer um. “Era muito pequeno e jamais havia pisado na água, nem sequer sabia boiar. Meu pai me matriculou nas aulas de natação e me levou para fazer os testes de admissão. Quando cheguei, o treinador me jogou na piscina sem avisar, para ver como reagia. Minha mãe quase teve um ataque, mas comecei a boiar imediatamente e me agarrei à borda com toda naturalidade. Claro, fui admitido no curso, e foi assim que tudo começou.”

Em seu caso, tinha vocação para natação. “Nunca sonhei em ser artista ou arquiteto, e sim em nadar, competir e ir para as Olimpíadas”, diz. “Meus professores não eram muito compreensivos em relação a isso, porque há pouca cultura desportiva na Itália, e a percepção é que o esporte rouba o tempo que se dedicaria ao estudo. Recebi esse rótulo desde o princípio.” Foi muito difícil conciliar a piscina com os livros? “Foi bastante difícil. As competições duravam duas ou três semanas, e eu costumava pedir aos professores para me deixar adiar os exames, mas eles eram indiferentes, então, assim que acabava de competir, tinha de começar a estudar, sem tempo para me recuperar. Por sorte, sempre fui bem, mas a cultura negativa em relação ao esporte que existe na escola italiana tornou as coisas muito difíceis.”

Desde 2007, os campeonatos disputados por Dotto são contados em medalhas, principalmente no estilo livre e em distâncias curtas (50 ou 100 metros). O nativo de Pádua acumula 14 medalhas de ouro em nível nacional, quatro em competições europeias, e três de prata e duas medalhas de bronze em campeonatos mundiais. É uma celebridade do esporte italiano que, como filho de sua geração, lida com as redes sociais com a fluidez de um especialista. Seus quase 60.000 seguidores no Instagram o transformam em uma exceção midiática para um esporte consideravelmente de pouca projeção. Cultiva seu personagem digital? “Não dou muita importância às redes. Se tivesse um décimo de seguidores faria o mesmo, continuaria publicando fotos pelo prazer de fazê-lo e por compartilhar minha vida com as pessoas que me seguem. Mas, sem entrar muito na intimidade.”

Em seu Instagram, há selfies, fotos com amigos, de suas viagens, de seus ídolos (entre eles, Steve McQueen) e, também, mais de uma foto com sua namorada, a nadadora Costanza di Camillo. “Estamos há três anos juntos, embora agora moremos separados porque ela se mudou para Gênova, para treinar com sua equipe de nado sincronizado. A melhor coisa de ter uma namorada atleta é que ela é capaz de entender as peculiaridades e o sacrifício envolvido neste trabalho”, explica. “Talvez uma garota normal não entenderia o sacrifício envolvido na vida do atleta, porque saio muito pouco e tenho que ser muito rigoroso com a comida, bebida e distrações. Os atletas precisam de rigor, e com uma namorada atleta se discute menos, porque ela passa pela mesma coisa.”

Dotto é tão focado que, mesmo um de seus poucos momentos de rebeldia, a tatuagem nas costas, é resultado do consenso da família. “Foi uma aposta que fiz com minha mãe, quando disputei o Campeonato Europeu Juvenil. Queria uma tatuagem, e minha mãe me disse que me deixaria fazê-la se eu ganhasse uma medalha. Ganhei e tatuei o ideograma japonês da palavra água.”

Seus planos para o futuro respiram a mesma sensatez. Há anos está matriculado no curso de Economia (“tenho interesse em finanças e estou pensando em montar um negócio com os amigos”), gosta de ler romances de aventura e livros sobre história e táticas militares. Sabe muito bem que, depois dos 30, a carreira de um nadador começa a se diluir. Garante que, caso se mantenha em forma e Roma consiga sediar os Jogos Olímpicos de 2024, adoraria participar. Teria então 34 anos, o limite de idade adequada para competir, mas valerá a pena tentar: “Deve ser incrível ganhar uma medalha olímpica em seu país, e não gostaria de perder isso.”

Embora tenha saído dos Jogos de Londres (2012) de mãos vazias, a experiência olímpica o ajudou a ganhar uma nova perspectiva e ter contato com a elite da competição. “É um mundo à parte. Quando você chega na Vila Olímpica, percebe que está participando de algo grande. Convive com os melhores atletas do mundo e também observa que, durante o ano anterior à competição, a mídia, o público e as marcas se interessam muito mais pelo mundo do esporte.”

Por enquanto, desfruta de seu sucesso, se familiariza com sua nova faceta de modelo para a Biotherm Homme (“desde que descobri seus produtos uso diariamente”) e se acostuma com uma fama, como sua carreira, em ascensão. “Os fãs de natação me pedem autógrafos, mas, felizmente, não é um esporte popular como o futebol ou o basquete, e ninguém me reconhece na rua. Afinal, sou um cara de 25 anos. Minha vida é a mesma de antes, e tenho muitos planos para o futuro, mas basta estar contente com o que faço. Tudo bem de ser comparado com Räikönnen, mas não se pode esquecer que ele vai a 300 quilômetros por hora, e, eu, a dois metros por segundo. Além velocidade, são escalas diferentes. Tento não me esquecer disso.”

 

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