O anfíbio Phelps volta à água

Vinte meses depois de anunciar sua aposentadoria nos Jogos de Londres, o maior nadador olímpico da história compete e vence de novo Ele já fala em vir ao Rio em 2016

Michael Phelps durante os 100 metros borboleta no Arena Grand Prix.
Michael Phelps durante os 100 metros borboleta no Arena Grand Prix.

Na tarde londrina de agosto de 2012 em que penduraram a 22ª. medalha olímpica (a 18.ª de ouro) no pescoço de Michael Phelps, esse ser anfíbio anunciou, como quem promete que vai parar de fumar: “Não voltarão a me ver na água. Alcancei todos os meus objetivos. Passei tanto tempo da minha vida na água que não voltarei a me atirar numa piscina, nem sequer por diversão”. Nesta quinta-feira, privilégio só dos grandes, ele voltou atrás de forma estrondosa na desértica e calorosa Mesa (Arizona), em cujo evento Arena Grand Prix ele tornou a disputar a sua prova-fetiche, os 100 metros borboleta. Como poucos duvidavam, voltou com tudo: maior fisicamente (com barba e um ligeiro cinturão adiposo onde o traje de banho faz a dobra) e grande também como nadador, com um tempo de 52,84s (3 segundos mais lento que seu recorde mundial, batido em Roma em 2009 com o supertraje que depois foi proibido; 2 segundos mais lento que o tempo que lhe valeu seu terceiro ouro em Londres). Foi o mais veloz entre os mais cem nadadores que participaram das 14 baterias da prova, e não está nada mal a esta altura da temporada. Um décimo mais rápido que Ryan Lochte, por exemplo, e mais rápido também que Eugene Godsoe, que ganhou o título nacional em meados de 2013. “Adorei, mas posso fazer melhor, é obvio”, disse Phelps. “Cometi alguns erros, que corrigirei nesta noite na final.”

Com 52,84 s, foi o melhor entre mais de cem rivais nos 100 m borboleta

A promessa, o compromisso do Phelps de não voltar a se molhar durou 14 meses, muito menos do que muitos apostavam, recordando agora que Michael Jordan conseguiu aguentar três anos antes de voltar às quadras como campeão, que Lance Armstrong levou quatro até regressar à Volta da França que acabaria por matar sua lenda, que outros imortais que retornaram porque a vida sem competição não era vida – gente como Mark Spitz, Ian Thorpe, como Michael Schumacher – demoraram bem mais. Mas Phelps, que é não só o maior nadador da história olímpica como também, nas palavras do ex-maior, Mark Spitz, “o maior competidor que já se viu”, tinha de ser também o mais rápido a retornar. E, além disso, se tornar o mais longevo. Se persistir na sua ideia de competir no Rio em 2016, quando já terá 31 anos, será a sua quarta Olimpíada.

Em outubro passado – com fissura pelo cloro e possivelmente afogado pela saturação de oxigênio, da vida ao ar livre sobre a terra firme, que tão deprimente foi para outros campeões antes dele –, Phelps regressou à piscina de North Baltimore e disse a Bob Bowman, seu treinador desde que ele tinha 11 anos, que queria voltar à ativa. “Pesava então 102 quilos, 18 a mais do que em Londres-2012. Agora estou em 87, o que não é pouca redução”, disse Phelps na quarta-feira, na sua primeira entrevista coletiva em dois anos. E nela o Baltimore kid brincou, apresentando-se como um “avô”. “E a verdade é que quando comecei de novo eu estava como um saco”, disse Phelps, que completa 29 anos dentro de pouco mais de dois meses.

O homem dos oito ouros em Pequim havia acumulado o sobrepeso em alguns meses dourados de dolce far niente, meses nos quais dedicou seu tempo a jogar golfe e pôquer e a ganhar dinheiro sendo o garoto-propaganda de uma rede de lanchonetes, uma fábrica de piscinas pré-fabricadas e uma marca de roupa esportiva. “Nesse tempo não fiz nada”, disse Phelps, que treina cinco dias por semana e volta sem patrocinador, sem ostentar publicidade. “E comecei a notar que me faltava algo, que sentia falta da natação. Assim de simples é a razão da minha volta. Só volto para me divertir. E me estou divertindo de verdade.”

Phelps reconheceu que o momento mais duro da sua carreira foi a preparação para Londres, a dificuldade de encontrar uma motivação que lhe permitisse sacrificar o que era necessário para manter seu impossível nível de oito ouros de Pequim. Por isso reduziu a sete suas competições em Londres (quatro ouros). Por isso, talvez, caso vá ao Rio, será ainda mais econômico em 2016. “Não sei se estarei no Rio, e em qual nível”, afirmou ele no Arizona. “Mas a minha vida sempre foi feita de objetivos e desejos que eu queria cumprir. E agora é assim também. Tenho objetivos e sonhos. É o que fiz no passado, e estou ansioso por saber aonde me leva o caminho que se abre à minha frente. A viagem começa agora.”

Antes de Rio-2016, haverá a disputa do Mundial de 2015, em Moscou, um compromisso ao qual não deve faltar e que o obrigará a acelerar sua preparação. É que o próximo campeonato nacional, em agosto, faz parte dos complicados sistemas de qualificação dos Estados Unidos para o Mundial. “Mas não me preocupa o que as pessoas vão achar se eu não conseguir alcançar o nível que já tive”, disse. “Faço isso só por mim. Se eu não obtiver o sucesso que as pessoas esperam ou acreditam que eu devo alcançar, e se por isso pensarem que a minha carreira fica manchada, problema delas.”