Relações EUA - Cuba

Fidel Castro a Obama: “Não precisamos que o império nos dê nada de presente”

Ex-presidente de Cuba expressa seus receios com a normalização das relações com os EUA

Fidel Castro com Nicolás Maduro, pouco antes da visita de Obama a Cuba. EFE | REUTERS-QUALITY (reuters_live)

Fidel Castro rompeu seu silêncio para deixar claro que não dá seu aval à aproximação com o velho inimigo Estado Unidos promovida por seu irmão Raúl, atual presidente de Cuba, e pelo norte-americano Barack Obama. “Não precisamos que o império nos dê nada de presente”, escreveu o ex-líder revolucionário cubano em um artigo publicado nesta segunda-feira pelo Granma, jornal oficial do Partido Comunista, uma semana depois da histórica visita do mandatário norte-americano à ilha.

Em seu texto, Fidel Castro rejeita a mão estendida por Obama durante seu discurso ao povo cubano, no qual defendeu a democracia como melhor sistema de governo, apesar de salientar que não é sua intenção impor uma mudança de regime em Cuba, além de enumerar os motivos e as vantagens da reconciliação para os dois países. Um discurso breve que, para o histórico dirigente cubano, esteve permeado “pelas palavras mais melífluas”.

“A história dos Estados Unidos e Cuba abrange revolução e conflito; luta e sacrifício; retaliação e agora reconciliação. Chegou o momento de deixarmos o passado para trás. Chegou o momento de juntos olharmos para o futuro, um futuro de esperança”, disse Obama no seu discurso da terça-feira passada, que foi retransmitido pela rádio e pela televisão cubanas.

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“Supõe-se que cada um de nós corria o risco de um infarte ao escutar essas palavras do presidente dos Estados Unidos", ironiza agora Fidel Castro. "Após um bloqueio desumano que já dura quase 60 anos, após tanta gente que morreu nos ataques mercenários a navios e portos cubanos, um avião de carreira repleto de passageiros explodido em pleno voo, invasões mercenárias, múltiplos atos de violência e de força?”, enumera o ex-presidente, dirigindo-se a Obama. Em seguida, deixa claro que há um limite para este novo capítulo das relações bilaterais. “Que ninguém se iluda de que o povo deste nobre e abnegado país renunciará à glória e aos direitos, e à riqueza espiritual que conquistou com o desenvolvimento da educação, da ciência e da cultura”.

A reação de Fidel Castro é um balde de água fria para o processo de normalização das relações, após uma semana trepidante para Cuba, que viveu não só a primeira visita de um presidente norte-americano em quase 90 anos como também testemunhou um novo resultado histórico da ainda tímida abertura: o primeiro show dos Rolling Stones, uma banda que passou décadas proibida na ilha.

O artigo de Fidel Castro tem data de 27 de março, domingo, justamente uma semana depois de Obama se tornar o primeiro presidente norte-americano a pisar em Cuba nos últimos 88 anos – algo inédito, portanto, desde a ascensão dos irmãos Castro ao poder, em 1959. Durante as 48 horas em que ele esteve na ilha, a ausência mais notável foi justamente a de Fidel Castro. Desde o princípio, a Casa Branca dizia que um encontro entre os dois estava descartado. Em seu artigo, Castro mostra que tampouco ele contemplou essa opção, apesar de se dirigir ao presidente norte-americano como “irmão Obama”. O fato é que, um dia antes da chegada do chefe da Casa Branca, Fidel teve tempo de se reunir com o presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Depois do anúncio do reatamento das relações diplomáticas entre EUA e Cuba, em 17 de dezembro de 2014, Fidel Castro levou mais de um mês para se pronunciar sobre a histórica mudança de rumo político. Agora, depois da visita que pretendia consolidar esse processo, não quis esperar mais de uma semana.