Obama em Cuba

Obama diz a Raúl Castro: “Você não deve temer as vozes divergentes do povo cubano”

Presidente dos EUA defende diante da cúpula do Governo cubano as vantagens da democracia

Obama dirige-se ao povo cubano desde o Grande Teatro de Havana J. ERNST | REUTERS - QUALITY (reuters_live)

Barack Obama defendeu nesta terça-feira no Gran Teatro de Havana, diante da cúpula do Governo cubano, as vantagens da democracia para aproveitar o enorme potencial do povo da ilha.

O presidente dos Estados Unidos disse que seu país não deseja nem pode impor uma mudança política em Cuba, e admitiu que o sistema norte-americano poderia ser aperfeiçoado. Mas argumentou que o respeito à liberdade de expressão e de reunião, as eleições pluripartidárias e a possibilidade de criticar os governantes foram justamente os fatores que permitiram ao seu país resolver problemas como a segregação racial.

“O futuro de Cuba deve estar nas mãos dos cubanos”, disse Obama em espanhol, idioma no qual pronunciou algumas das frases do discurso. “Acredito no povo cubano”, disse em outro momento, no mesmo idioma.

Obama falava para a nomenklatura, encabeçada pelo presidente Raúl Castro, que o escutava na tribuna de autoridades, próximo da bailarina Alicia Alonso, ícone da cultura cubana. Mas o presidente norte-americano quis se dirigir sobretudo ao povo cubano, que pôde acompanhar o discurso pela televisão.

Ocorreu no Gran Teatro um desses pequenos milagres propiciados pelo degelo entre EUA e Cuba: ver um presidente norte-americano formulando, no coração de Havana e diante do veterano revolucionário cubano, uma defesa racional, nada agressiva, da democracia liberal. Isso pôde ocorrer porque o discurso não era parte de algum plano para derrubar o regime comunista, como aconteceu no passado, e porque, para as autoridades cubanas, estas palavras são um mal menor em comparação aos benefícios que a ilha poderá receber ao se abrir para a superpotência vizinha.

“Vim aqui para enterrar os últimos vestígios da Guerra Fria nas Américas”, começou Obama. Depois, recordou tudo que une os povos dos dois países: a história de escravidão, a paixão pelo beisebol e uma cultura que se expressa – na música, na comida, na religião – em Havana e Miami, capital do exílio e da imigração cubana nos EUA. Também citou o patriotismo inflamado, comum a ambas as margens do estreito da Flórida.

Obama explicou por que, em 2014, decidiu normalizar as relações com Cuba após mais de meio século de enfrentamento. A política que consistia em isolar Cuba não funcionava, disse o democrata, que em seu discurso reiterou o apelo ao Congresso dos EUA para que revogue o embargo comercial, principal queixa de Havana contra Washington. Foi um dos poucos momentos em que toda a sala aplaudiu.

A normalização, acrescentou, não afeta apenas as relações com o Governo cubano, mas também com o povo cubano, a cujo caráter empreendedor dedicou entusiasmados elogios.

O argumento de Obama é que o intercâmbio de ideias é imprescindível para o pleno desenvolvimento de qualquer país, incluindo Cuba. Esta é a base da nova política de Washington: a normalização deve facilitar os intercâmbios comerciais e pessoais entre a ilha e os EUA, e estes talvez levem a uma abertura política em longo prazo.

Mas, em Havana, Obama foi além.

Envolveu a mensagem em um tom de modéstia: disse que não queria impor nada, só expor suas ideias. E as expôs com uma clareza incomum para grande parte da audiência.

Sem a democracia, sem a capacidade de questionar o status quo, argumentou, o filho de um negro do Quênia e de uma branca do Kansas não seria hoje o presidente dos EUA, o país que já foi da escravidão e da segregação.

Disse também que não desejava fazer o mesmo discurso que Ronald Reagan proferiu em 1987 em Berlim, quando, dirigindo-se ao então presidente soviético, disse: “Senhor Gorbachov, derrube este muro”. “Eu apelo aos jovens de Cuba para que ergam algo, para que construam algo novo”, disse.

Obama descreveu sua ideia de democracia – uma democracia sem arrogância, que não procura se impor ao resto do mundo, que admite suas próprias limitações – perante um teatro que o escutava com frieza. A maioria dos aplausos às suas palavras a respeito dessa questão procedia da delegação parlamentar norte-americana que acompanha Obama e do pessoal da embaixada dos EUA. Num trecho, enquanto Obama falava de direitos humanos, Castro conversava com seu ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez.

Dirigindo-se especificamente a Castro, Obama disse: “Dado o seu compromisso com a soberania e a autodeterminação de Cuba, também acho que você não deve temer as vozes diferentes do povo cubano, e sua capacidade de falar, de reunir e de votar os seus próprios líderes. Na verdade, estou esperançado no futuro, porque tenho confiança em que o povo cubano adotará as decisões adequadas”.

Quando o discurso terminou, quase ninguém na tribuna de autoridades bateu palmas. Raúl Castro aplaudiu de forma breve e contida, e depois acenou para os espectadores, que o aplaudiam.

“Viva Obama!”, disse, após escutar o discurso, o empresário Hugo Cancio, que saiu de Cuba nos anos oitenta e hoje vive na ponte aérea entre Miami e Havana.

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