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Lava Jato faz Brasil tremer com lista de doações da Odebrecht a políticos e depois impõe sigilo

Material foi encontrado na casa de diretor de empreiteira, e não necessariamente são doações ilegais. Há nomes de 22 partidos

Escritório da Odebrecht em São Paulo.
Escritório da Odebrecht em São Paulo. REUTERS

Uma verdadeira bomba atingiu Brasília nesta quarta-feira. A Lava Jato tornou públicos documentos apreendidos em fevereiro na casa de Benedicto Barbosa Silva Junior, presidente da Odebrecht Infraestrutura, o que inclui dezenas de planilhas indicando pagamentos feitos pela empreiteira para duas centenas de políticos. Se fosse uma relação de subornos feitos pela empreiteira o material que se tornou público na noite desta terça teria a capacidade de implodir a República brasileira. Porém, não é possível diferenciar o que é propina de doações legais, o que fez com que o juiz Sérgio Moro solicitasse o sigilo na divulgação dos documento horas depois da Polícia Federal ter deixado as informações disponíveis ao público. A decisão de fechar o acesso visava evitar “prematura conclusão quanto à natureza desses pagamentos”, uma vez que a Odebrecht realizou “notoriamente, diversas doações eleitorais registradas nos últimos anos”, argumentou o juiz.

Já era tarde. Diante da combustão em que se encontra o Brasil, a lista circulou como rastilho de pólvora nas redes sociais e fez Brasília tremer diante de um novo capítulo da investigação conduzida por Moro. Nomes como os do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, os senadores petistas Humberto Costa e Lindbergh Farias, e os senadores tucanos Aécio Neves e José Serra, constam no material encontrado pela Polícia Federal. Outros entusiastas da campanha do impeachment, como Paulinho da Força e Mendonça Filho também são citados. Todos os parlamentares mencionados acima se pronunciaram nesta quarta-feira dizendo que as doações foram legais e declaradas à Justiça. A maioria, porém, tem foro privilegiado e as informações deveriam ficar disponíveis apenas para o processo que seria avaliado pelo Supremo Tribunal Federal. Se o Supremo decidisse levantar o sigilo só então essas informações poderiam vir a público.

O EL PAÍS teve acesso às planilhas, que são ricas em detalhes. Algumas são divididas por Estado, município e partido, e outras trazem até mesmo o cargo que o político disputaria no pleito. No total, cerca de 240 políticos de ao menos 22 partidos foram citados. PT, PMDB, PSDB e DEM respondem pelo maior número de nomes nos documentos - as legendas sempre afirmaram que suas doações foram legais. De cara, não era possível afirmar se os pagamentos eram regulares ou fruto de caixa 2. Constam repasses referentes às eleições de 2012 e 2014, e outros aparecem sem data. O cruzamento das informações da lista apreendida com os registros do Tribunal Superior Eleitoral, ajudaria a identificar se as doações foram devidamente registradas ou não.

Mas há um empecilho para decifrar esse mistério. Até as eleições de 2014 os diretórios de campanha de cada partido repassavam dinheiro para os candidatos que até então não eram obrigados a declarar para o tribunal quem foi o doador original. Para o TSE, só ficava o registro do dinheiro recebido pelo candidato pelo diretório do seu partido. Todos os políticos citados nesta reportagem já se manifestaram sobre as doações de campanha em outros momentos, e afirmaram que tudo foi declarado ao TSE.

Mesmo assim, chama a atenção nos documentos apreendidos o uso de codinomes para designar alguns dos políticos, como é o caso do ministro da Casa Civil, Jaques Wagner (Passivo), o prefeito do Rio, Eduardo Paes (Nervosinho), Eduardo Cunha (Carangueijo) ou a deputada Manuela D'Avila (PCdoB-RS) (Avião). A parlamentar informou em nota que não recebeu doação alguma de nenhuma empresa do Grupo Odebrecht. Já Paes e Pezão disseram nesta quarta-feira que os repasses foram legais. A falta de clareza sobre o que já caiu 'na boca do povo' aumenta o mal-estar sobre a forma como a divulgação foi feita, pois inocentes podem estar sendo confundidos com corruptos.

A busca e apreensão deste material na casa de Benedicto Barbosa Silva Jr. foi feita em fevereiro, durante a 23a fase da Lava Jato, batizada de Acarajé, que mirou os negócios paralelos da Odebrecht. A divulgação dos documentos ocorre um dia depois da 26a etapa da operação, que jogou luz sobre um departamento de propina dentro da empresa, e horas depois da empreiteira anunciar que o presidente do Grupo, Marcelo Odebrecht, irá fazer acordo de delação premiada para buscar benefícios sobre a sua sentença. Ele está preso desde junho de 2015 e foi condenado por Moro a 19 anos de prisão. Em nota o Ministério Público Federal negou que haja negociação de qualquer acordo de  com o empresário ou com outros e executivos da empreiteira.

A lista de políticos coloca ainda mais expectativa sobre as revelações que o empresário pode fazer à Justiça. Espera-se inclusive que ele possa arrolar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - de quem ele era próximo - a presidenta Dilma Rousseff, e até o tucano Fernando Henrique Cardoso. Ironicamente, nenhum dos três constam das planilhas que vieram a público nesta quarta.

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