Música brasileira

Lineker: voz, corpo e ousadia a serviço da música

Assim como o xará Liniker, o cantor mineiro de 29 anos conquista com sua arte que desafia preconceitos

Lineker, com o visual para o clipe de 'Gota por Gota'.
Lineker, com o visual para o clipe de 'Gota por Gota'.Luiza Folegatti (Divulgação)

Sobre um salto altíssimo e uma túnica dourada, Lineker sobe no palco de uma pequena casa de shows de São Paulo com o semblante sério, mostrando que não está de brincadeira. Os cabelos loiros quase descoloridos e os brincos femininos destoam da barba castanha que cresce para além do pescoço de pele clara. Logo mais, a voz mansa que abre a noite com um tímido "boa noite" surpreende indo do agudo ao grave em novas versões de hits da música popular brasileira contemporânea, ora embalando os apaixonados com "eu não me arrependo de você" (de Caetano Veloso), ora enchendo os pulmões para mandar que joguem pedra na Geni —Maldida Geni!—, dando ares de punk rock ao clássico Geni e o Zepelim, de Chico Buarque. Mas foi com Leite, música própria do seu segundo álbum (Verão, 2016), que o mineiro arrematou de vez quem o assistia naquela noite, arrancando gritos de uma plateia que parecia hipnotizada.

A repórter do EL PAÍS estava naquele show por acaso. Em janeiro passado, assistiu à apresentação de Lineker ao adquirir por engano o ingresso: pensava estar indo ver o quase xará dele, Liniker (com i), outro artista que cresce com força na cena artística atual. E não estava confusa sozinha: entre o público, algumas pessoas ficaram uns segundos sem entender o que acontecia. “Ué, mas ele não era negro?”, diziam, entre olhares e risadas ao se darem conta de que eram músicos diferentes. Mas ao invés de vaias e frustração (como seria de se esperar de quem percebe estar no show errado), aplausos acalorados e uma boa surpresa: Lineker fez uma baita apresentação, rica em performance, feliz no repertório, potente na voz e ousada na interpretação.

Aos 29 anos, Lineker Henrique Oliveira, natural de Bambuí (Minas Gerais), tem dois álbuns próprios  —eLe, de 2012, e o recém lançado Verão— e está em plena produção do terceiro, que espera apresentar ainda neste ano. No circuito independente paulista, seu nome é conhecido não apenas pela carreira como cantor, mas pelas performances como dançarino, atividade paralela que concilia com a mesma intensidade que a música.

Semanas depois daquele show, ele conversou com a reportagem numa tarde chuvosa de terça-feira, em uma loja de discos e cafés em Santa Cecília, bairro da capital paulista onde mora desde 2013, para onde se mudou após se formar em música pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde fez mestrado em artes da cena e onde também estudou dança. O músico —extrovertido no palco, mas mais tímido no papo —, contou sobre como se descobriu cantor com apenas 6 anos, falou sobre o papel da dança em sua trajetória artística e divagou sobre essa coincidência doida da vida: o boom de Liniker em meados de 2015, quando o xará lançou seu EP de estreia, Cru

“Foi como descobrir um irmão gêmeo depois de velho. Porque as pessoas o confundem com você, mas estão falando de outra pessoa”, brinca Lineker (que se pronuncia Linêker, não Linéker). Além do nome exótico (inspirado no craque de futebol inglês Gary Lineker), as coincidências vão além: ambos são homossexuais e usam a arte para desafiar preconceitos e abordar as questões de gênero e sexualidade. "É uma feliz coincidência o Liniker também ter um trabalho que de certa forma vem para desconstruir algumas fronteiras de gênero. Bizarro seria se ele fosse um machista ou eu um homofóbico, por exemplo, imagina?", reflete.

Para consumir gota por gota

Dois anos depois do primeiro álbum, Lineker apresentou o single autoral Gota por Gota, cujo videoclipe revelava a faceta dançarina do jovem, numa espécie de versão hipster de Ney Matogrosso com figurino ao estilo Borat. “Vou te consumir gota por gota, se você rasgar a minha roupa”, cantava, com um olhar insinuante para a câmera entre passos sensuais no meio de um pasto, numa mensagem provocativa e que de nada lembra os tempos de cantor de igreja (onde começou a soltar a voz, ainda na infância): se você é preconceituoso, esse trabalho não é para você.

Apesar do público apontar semelhanças entre Lineker e Ney Matogrosso, o mineiro diz não ter o artista como principal inspiração, apesar de admirá-lo. Seus grandes mentores na música são mulheres: a principal delas, Elis Regina, além de Clara Nunes, Maria Betânia, e mais recentemente a cantora e compositora islandesa Björk, por quem anda um pouco "obcecado". O pop também o influenciou, sobretudo quando começou a cantar, ainda ao lado do pai, nas apresentações na igreja católica. "Naquela época, o que eu tinha de informação era o que tocava na rádio", diz. Além da admiração, Lineker tem em Elis Regina uma referência no que mais gosta de fazer, que é interpretar. Ele compõe músicas próprias, mas diz ter mais prazer dando vida às letras e melodias compostas por outros: para o novo álbum, busca agora parceiras com novos nomes da música brasileira. “Sempre me coloquei muito como intérprete, quase como uma militância mesmo. Gosto de pegar uma música e fazer algo novo a partir disso... Selecionar o repertório, pensar em como ficaria de outra forma... A gente viveu um momento em que só tinha valor se você fosse compositor e cantor. Eu tenho músicas minhas e componho, apesar de raramente. Mas não acho que isso deve ser um pré-requisito”, explica.

O caráter provocativo do videoclipe de Gota por Gota também está presente nos shows do cantor: no palco, diante do público e sob o olhar dos quatro músicos que o acompanham —André Bordinhon (guitarra), e Rafael Montorfano (conhecido como Chicão, nas teclas), Ivan Gomes (baixo) e Mariá Portugal (bateria)—, ele troca o vestido por um maiô colado, sem perder a afinação nem o equilíbrio sobre o salto. Mas apesar de frequentemente presente em seu trabalho, ele explica que não tem as “questões de homem e mulher, hetero, homo, cis e transgênero” como sua única bandeira política.  Seu interesse, diz, é com a “arte como libertação”, embora reconheça que o ativismo LGBT é uma marca forte do seu trabalho, um interesse pessoal e uma expectativa do seu público. Já as roupas femininas usa por achar bonitas e por se sentir bem com elas.

Um ano após o ousado videoclipe sexy-rural, Lineker voltou a unir a performance corporal com o vocal no videoclipe de Leite, no qual fica claro que a dança não é mero coadjuvante na vida. Durante cinco anos integrou a companhia Cia. Domínio Público, da bailarina e coreógrafa Holly Cavrell, de Campinas (SP). Depois, criou a companhia Nua, pela qual atualmente faz a turnê com a performance individual Macho. De fato, ele tem dificuldade em se definir como cantor ou dançarino. “Eu sou cantor desde que existo. Mas não sei se consigo me definir mais como cantor ou dançarino. O que eu tento é fazer com que uma coisa potencialize a outra ao máximo", diz ele, explicando que em muitos momentos é a dança que inspira a criação de uma música e não o contrário. "Dois dos meus solos de dança foram muito marcantes para que as questões de gênero emergissem em meu trabalho de cantor, o #estudosparadivinarse e em especialmente o Macho. Acho que é daí que foi pra música", completa.  Soma-se a tudo isso a vertente produtor cultural e professor: algumas de suas produções vieram a público graças aos editais pelos quais conseguiu patrocínio.

Com o semblante sereno e a voz mansa e suave de um mineirinho, Lineker tem pressa para continuar a se libertar através da arte. Conta que já começou a produzir um novo álbum, que espera lançar ainda em 2016, diferente de tudo o que já vez. “O importante é eu ter condições de fazer o que eu quero, que é o que me deixa feliz. Que a partir de uma visibilidade que venha de onde quer que seja, eu tenha condições de produzir um show do jeito que eu quero, fazer um clipe como eu quero, uma música como eu quero."

Sim, existe espaço para que dois Line(i)kers brilhem.

Lineker, na foto de divulgação do espetáculo de dança 'Macho'.
Lineker, na foto de divulgação do espetáculo de dança 'Macho'.Gustavo Lemos (Divulgação)

Colaborou Camila Moraes, de São Paulo.

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