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Rolling Stones em Havana: comoção na ilha dos irmãos Castro

Distintas vozes da cultura cubana reagiram ante o histórico show o grupo de rock

Os Rolling Stones durante show em Indianápolis.
Os Rolling Stones durante show em Indianápolis. AP

Os Rolling Stones fizeram, por fim, o comunicado oficial de que em 25 de março se apresentarão no estádio Ciudad Deportiva, de Havana. Depois dos rumores que circulavam foi confirmada a notícia e várias vozes do mundo cultural se manifestaram celebrando, ou não, o concerto de suas Satânicas Majestades, somente quatro dias depois da visita do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Leonardo Padura, escritor.

Autor de As Quatro Estações e O Rabo da Serpente, entre outras obras.

“Pela porta por onde Obama sairá entrará Mick Jagger, e pela em que ele sair, entrará a Chanel. Toda uma revolução”, explica desde Cuba o escritor Leonardo Padura, para quem a notícia de que os Stones irão apresentar-se em Havana significa “um ato de reparação de uma injustiça histórica com os Beatles e os Stones. Minha geração os escutou quase às escondidas. Tocavam de vez em quando na rádio, pouco e mal, e não passavam na televisão. Se alguém me tivesse dito, quando era adolescente, que algum dia o grupo britânico poderia atuar em meu país eu lhe teria dito que era um doente mental sem condição possível de cura”,

Leonardo Padura em sua casa em Havana.
Leonardo Padura em sua casa em Havana. EFE

Padura confessa ser mais dos Beatles que dos Stones, mas nestes momentos a notícia é “um furor”. “O grupo é um dos símbolos culturais dos séculos XX e XXI e uma demonstração do nível a que estão chegando as mudanças em Cuba.”

Diana Fonseca, artista plástica. 

Na galeria na qual expõem artistas da ilha como Los Carpinteros e Diana Fonseca (Havana, 1978), a notícia foi recebida com verdadeiro entusiasmo. “É verdade? Havia rumores de que viriam, mas, está confirmado? Saiu na televisão? É uma notícia incrível para nós – risos, nervosismo. É um antes e um depois para os cubanos”, afirma uma das responsáveis pela Galeria. Nas ruas já havia alguns dias se ouviam rumores, pairava certo ceticismo, as pessoas se perguntavam: “virão ou não virão?”. “É estranha uma notícia como essa. É um choque brutal que se realize um concerto dos Stones em Havana. Em uma determinada elite, sim, escutavam os discos deles, mas não a maioria das pessoas. Em poucos dias passearão por nossa ilha Obama e Mick Jagger. Algo incrível”, afirma a artista Diana Fonseca.

O músico Paquito D'Rivera.
O músico Paquito D'Rivera.

Paquito D'Rivera, músico.

Um dos grandes do sax latino.

"Que generosos são os socialistas com o dinheiro alheio”, comenta Paquito D’Rivera ao inteirar-se de que o concerto será no Estádio Nacional, e gratuito. “Todos os hotéis onde se hospedarem e lugares onde tocarem foram roubados de seus legítimos donos. Tudo foi confiscado”, acrescenta. O emblemático músico de jazz, que teve de exilar-se há 35 anos, diz por telefone desde Los Angeles que com o show “os Rolling Stones legitimam o Governo” cubano. “Igual ao Papa e Obama”, afirma, em alusão à recente viagem do pontífice a Cuba e a visita que o presidente norte-americano prevê fazer à ilha. Reconhece que para os habitantes e músicos do país caribenho, que estão há décadas “sem todo tipo de direitos”, o concerto vai ser algo “grande”. “Mas que os Rolling Stones toquem não melhora absolutamente nada”, diz. “Eu não iria, e não festejo.” E acrescenta: “A aspiração não tem de ser mudar a plantação dos escravos, mas liberar a plantação de uma vez.”

Wendy Guerra, escritora.

“Ficaremos a par com o restante do mundo”, comenta a escritora Wendy Guerra ao explicar a relevância do concerto dos Rolling Stones em Havana. “Este país demonstrou que qualquer coisa pode acontecer. As coisas não são sempre como se pensa. Esse concerto representa duas coisas: o fim da política musical e uma ruptura com a estética oficial. É uma abertura ideológica e estética. Nesse estádio só haviam sido realizados shows oficiais, discursos e partidas de beisebol. Durante décadas, os anos setenta, os oitenta, os noventa.... muita música esteve proibida. Eles eram um dos nomes que não se podia sintonizar nas rádios. Nem imitar sua estética, pois te prendiam. Eu irei pela minha mãe, que trabalhava em uma emissora. Não sou muito roqueira, mas é uma atitude política. De triunfo. Meus pais os escutavam em casa, bem baixinho. Chegavam de contrabando de Miami.

A escritora Wendy Guerra.
A escritora Wendy Guerra.

Aqui o transporte é difícil, então eu levarei os vizinhos que puder. O que se ouve é que a entrada será gratuita. Caso contrário, muitas pessoas não poderiam se permitir ir. Agora existe um pouco de relaxamento e as pessoas ouvem o que querem em casa, mas antes não se podia e agora tampouco se pode nos lugares oficiais. Isso, juntamente com a visita de Obama e o desfile da Chanel em Havana, é um presente. A marca francesa desfilará pela primeira vez na América Latina e escolheu a nossa cidade. Finalmente nos estão dando a oportunidade de escolher, nós nunca a tivemos. Acredito que depois disso podem deixar as crianças irem à escola de cabelo comprido.”

Vanito Brown, músico.

Começou a carreira profissional com o grupo de rock Luta Armada e mais tarde fundou a banda Habana Abierta.

Vanito Brown está feliz com a visita dos Rolling Stones ao seu país. “Antes tarde do que nunca!”, exclama Brown, que se mudou para a Espanha em 1995, onde viveu durante 18 anos, e que está em Miami (EUA) há um ano e meio. “A visita é especialmente significativa pela maneira como o rock foi tratado em Cuba. Eu conheci os Rolling Stones quando eram proibidos, quando te colocavam na prisão por ouvir música do inimigo. Muita gente foi condenada por esse motivo. Eles são o pilar do rock e da modernidade”, acrescenta o cantor e compositor.

Brown, que é considerado um renovador da música cubana e uma das vozes mais importantes de sua geração, só lamenta que a visita aconteça quando dezenas de músicos nascidos na ilha estão exilados. “A abertura de Cuba ao mundo e do mundo a Cuba está demorando muito. A visita é um acontecimento feliz, mas é o importante é que devolvam os direitos e as liberdades ao povo de Cuba”, diz o artista, que gravou seu último disco, Norte Sur Este y Aquel, em Cuba há um ano e meio. A gravação durou quatro meses e ele espera que todos os passos levem à “reconciliação do povo de Cuba”.

Donato Poveda, músico.

Compôs canções para Julio Iglesias e Chayanne.

Donato Poveda é outro artista cubano que mora em Miami e diz que a visita do lendário grupo é “maravilhosa”. “Se o presidente dos EUA pode ir para Cuba, como eles não irão? Cuba é maior do que um presidente ou um grupo musical. Que vão todos os grupos que quiserem. A única coisa que não me parece certa é que não se possa ir”, afirma Poveda, que foi indicado várias vezes para o prêmio Grammy. A última apresentação de Poveda em Cuba foi em 1988, e no ano seguinte ele deixou a ilha. Desde 1992 vive em Miami e ainda lembra com alguma amargura que numa ocasião foi preso pouco antes de uma apresentação na Universidade. Sua aspiração, diz ele, é voltar a se apresentar algum dia em uma Cuba livre.

David Blanco, músico.

Jovem cantor e compositor de pop rock.

“Todos estão se preparando para conseguir um bom lugar no concerto”, diz David Blanco em Havana. “É genial, é uma grande experiência para todos os jovens cubanos e um grande acontecimento”, explica. Desde menino gostava das músicas do grupo liderado por Mick Jagger, que foi uma grande influência para ele, assim como os Beatles. Ouvir as músicas desses grupos em Cuba era difícil nos anos sessenta e setenta, mas Blanco pertence a “uma geração mais flexível” e nada o impediu conhecer as músicas dessas bandas, que se tornaram seus grupos de cabeceira. Segundo o músico, atualmente a ilha vive “um momento de mudança e de aproximação” e reflete: “A música e arte sempre serviram para abrir as mentes”.

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