Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

Você deixaria sua avó sair com um Rolling Stone?

Cirurgia transformou o envelhecimento em algo tão misterioso quanto o sigilo bancário

Charlie Watts, Keith Richards, Mick Jagger e Ron Wood.
Charlie Watts, Keith Richards, Mick Jagger e Ron Wood.

Os Rolling Stones retornarão à América Latina em 2016 em um intenso espetáculo geriátrico. Seus shows são como um convite à Última Ceia, a oportunidade de dizer adeus aos profetas. Se aos 40 anos Mick Jagger parecia muito velho para cantar Satisfaction, aos 72 causa fascínio pelo mesmo motivo. Os arautos da juventude se transformaram em abastados decanos do som alto. O peculiar é que, enquanto suas feições eram curtidas com o passar dos anos, a imaturidade deixava de ser atributo dos adolescentes para afetar toda a espécie.

A noção de idade foi relativizada, alguém de 15 anos pode ter esgotado suas aspirações

Em Não somos os últimos, Massimo Rizzante fala do infantosaurus, criatura suspensa no tempo. A noção de idade foi relativizada de tal maneira que alguém de 15 anos pode ser um melancólico que já esgotou suas aspirações cibernéticas e alguém de 68 pode viver uma etapa bioerótica onde todos os alimentos são orgânicos, menos o viagra. Nas palavras de Rizzante: “Uma massa amorfa e sorridente, que já não sabe qual é sua verdadeira idade, tenta descobrir, por meio de qualquer instrumento oferecido pela técnica, a possibilidade de não se ver imersa na idade madura”. Essa tendência deu lugar a uma nova categoria sociológica: os pós-adultos.

Os Rolling Stones começaram sua trajetória com uma estética do efêmero: “O tempo não espera ninguém”, “você ficou antiquada, meu amor”, “quem quer saber do jornal de ontem?”. Um de seus covers mais conhecidos, Time is on my side, é um paradoxal elogio da impaciência: a amada foi embora, mas voltará correndo (dizer “o tempo é meu aliado” significa que ela resistirá à separação somente durante os três minutos de duração da música).

Andrew Loog Oldham, autoproclamado descobridor do grupo, narra em sua autobiografia (que leva o apropriado título de Stoned) os anos quase inverossímeis em que Jagger e Richards não haviam sido descobertos. Para promover sua rebeldia, lançou uma campanha com o lema: “Você deixaria sua filha se casar com um Rolling Stone?”.

Os Rolling Stones percorrerão a América Latina com um guitarrista que acumula as eras em seu rosto de pedra

Hoje a frase deveria fazer referência às avós. A cultura da terceira idade de “serenidade ativa”, como é chamada por Rizzante, e os trabalhos da cirurgia plástica transformaram o envelhecimento em algo tão misterioso quanto o sigilo bancário.

O que se perde quando as diferenças de idade já não existem? Os povos originários da América consideram que a velhice é um depósito de experiência. Em Chiapas, no México, um ancião é um “homem sábio”. Chegar a esse ponto não é uma tragédia, mas um anseio.

Quando entrevistei Jagger, em 2001, fiquei surpreso por ele não saber de quais discos eram suas músicas: “Não sou um bibliotecário de mim mesmo”, explicou. De certa forma, não estar tão consciente de seu passado o enaltece; ao mesmo tempo, isso o transforma em um ícone de uma era que delegou sua memória em partes (no caso dos Stones, seus seguidores são seu hard drive). Por contraste, nas reuniões dos índios do México o mais velho resume o que foi dito. De acordo com o filósofo e linguista Carlos Lenkersdorf, esses anciãos são “arquivos e bibliotecas de sabedoria acumulada”.

Mas os Rolling Stones têm outra lição a ensinar. Em 2016 percorrerão a América Latina com um guitarrista que não esconde a idade, mas acumula as eras em seu rosto de pedra. Se Jagger é o símbolo do executivo que nega o tempo correndo maratonas e comendo cereal antioxidante no café da manhã, Keith Richards é um acervo do blues, uma lendária e esquiva mostra de que é possível sobreviver na sociedade do espetáculo sem perder a autenticidade. Em tempos de infantosauros, é um “homem sábio”.

MAIS INFORMAÇÕES