Referendo na Bolívia

Bolívia diz não à intenção de Evo Morales de tentar outra reeleição

Resultado final do referendo aponta 51,3% dos votos contrários à proposta, e 48,7% favoráveis

O presidente Evo Morales, em uma entrevista em La Paz.
O presidente Evo Morales, em uma entrevista em La Paz.DAVID MERCADO (REUTERS)

A Bolívia disse não à pretensão do presidente Evo Morales de se candidatar a um quarto mandato presidencial. Após uma apuração que se prolongou por mais de 48 horas, as autoridades eleitorais anunciaram que 51,30% dos bolivianos rejeitaram a reforma constitucional que permitiria a Morales ser candidato novamente em 2019. Com 99,72% das seções contabilizadas, o sim somava 48,70%. Assim, mantém-se a proibição de que o presidente seja reeleito ao final do seu terceiro mandato, que é de cinco anos e foi conquistado com expressiva maioria em 2014. É a primeira vez que Morales é derrotado nas urnas desde que tomou posse, 2006.

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A exígua diferença de 135.000 votos entre os partidários de Morales e seus adversários, que já era apontada pelas pesquisas de boca de urna no domingo à noite, evidencia um recrudescimento da polarização na Bolívia, que havia ficado para trás após a segunda reeleição de Morales, há apenas um ano e meio. O resultado reflete que a boa gestão do presidente, que em uma década conseguiu apresentar a maior mudança socioeconômica do país na sua história recente, não é suficiente para contrabalançar a mudança de ânimo de um grande setor da população, que vê com inquietação as denúncias de corrupção que atingiram o governismo ultimamente.

Os casos mais notórios foram os do Fundo Indígena, uma instituição de cooperação com as comunidades rurais, dirigida por líderes sindicais que, segundo cálculos conservadores, desviaram cerca de 30 milhões de dólares (aproximadamente 120 milhões de reais). Mas o aspecto mais nocivo para a imagem do Governo foi a ostentação com que esses dirigentes gastaram o dinheiro apropriado, perante o olhar indignado dos seus filiados pobres.

Além disso, nesta campanha pela primeira vez os escândalos salpicaram o próprio Morales, que precisou admitir que havia mantido um romance e tido um filho (que morreu) com Gabriela Zapata, lobista das empresas chinesas que trabalham para o Estado. O Governo se esforçou em desmentir qualquer tráfico de influência, mas o assunto abalou pela primeira vez de forma direta a imagem de Morales.

Diante das denúncias, o Governo e o próprio presidente iniciaram uma campanha contra o que qualificaram de “guerra suja” da oposição, com suposto apoio dos Estados Unidos. Optar por esse discurso anti-imperialista em vez de insistir nas conquistas já obtidas e nos planos para o futuro foi, para muitos analistas, um dos erros da campanha pelo sim.

A partir de agora, abre-se também a batalha na fragmentada oposição boliviana

Outro motivo de mal-estar é o resfriamento da economia, que, apesar de continuar crescendo, começa a sentir os efeitos da queda do preço internacional do petróleo, já que a Bolívia vive da exportação de gás aos países vizinhos – os preços dos dois produtos são atrelados.

O grande desafio deverá começar agora. Morales ainda tem quatro anos de Governo. O não à reforma constitucional, apesar de corroer seu poder, não implica uma rejeição à manutenção de suas políticas, que tão bons resultados deram à Bolívia até agora. "Presidente, o que o voto dos bolivianos disse é que não há pessoas imprescindíveis, apenas causas imprescindíveis”, tuitou o ex-presidente Carlos Mesa, que lidera, a pedido de Morales, a reivindicação marítima da Bolívia contra o Chile em Haia.

Apesar de o presidente dizer que já tinha um programa de Governo com vistas a 2025, quando terminaria um quarto mandato, o fato é que agora ele precisará se concentrar em realizar os projetos possíveis até 2019. “A vida segue, e a luta continua”, disse o mandatário na segunda-feira.

Além disso, ele terá de cuidar da sucessão dentro do seu Movimento ao Socialismo (MAS), algo que não soube fazer em 10 anos no poder. Como se viu nas últimas eleições locais, em meados do ano passado, quando o partido governista sofreu seu primeiro revés, a Bolívia sempre se mostrou mais evista que masista. “Temos líderes jovens, com discurso, mas pouca experiência. É preciso procurar quem puder ser um fator de unidade. Essa é a questão”, disse o presidente a este jornal no último sábado.

O não à intenção de Morales de modificar a Constituição não traz consigo o sim a uma alternativa ao presidente. A partir de agora, abre-se também a batalha na fragmentada oposição boliviana, que acumula sucessivas derrotas severas nas disputas eleitorais da última década. A única característica que a une é a rejeição à figura do presidente. Não há um bloco homogêneo com uma liderança visível. Nem os mais conservadores, como o ex-presidente Tuto Quiroga ou o três vezes candidato Samuel Doria Medina, nem os progressistas, como o prefeito da capital, Luis Revilla, e o governador do departamento de La Paz, Félix Patzi, souberam galvanizar a oposição. Todos, entretanto, iniciarão a partir de agora o caminho para a eleição presidencial de 2019.